Imperialismo não é apenas a ocupação militar de um território por uma potência estrangeira. Essa imagem, embora ainda exista, ajuda a esconder a forma mais eficiente pela qual o capitalismo organiza o mundo: países formalmente soberanos são integrados a uma hierarquia econômica que concentra tecnologia, crédito, propriedade e decisão política em poucos centros de poder. O Brasil não precisa ser governado diretamente por Washington ou por qualquer capital europeia para cumprir uma função subordinada na divisão internacional do trabalho.

O imperialismo contemporâneo aparece quando uma economia exporta minério, soja, petróleo e carne, enquanto importa máquinas, patentes, softwares, semicondutores e crédito caro. Aparece quando o risco ambiental e social fica no território brasileiro, mas as decisões sobre preços, investimentos e fluxos financeiros são tomadas em circuitos que trabalhadores e comunidades não controlam. A dominação não depende de uma bandeira estrangeira hasteada no palácio do governo. Ela funciona por contratos, dívidas, cadeias produtivas e pela adesão interessada das classes dominantes locais.

Imperialismo além da caricatura militar

A definição reduzida de imperialismo como simples expansão territorial pertence a uma época em que canhões e colônias tornavam a violência mais visível. A contribuição de Lenin continua útil porque identifica outra dimensão: a concentração do capital, a fusão entre capital bancário e industrial e a disputa por mercados, matérias-primas e áreas de investimento. O imperialismo não é um temperamento agressivo de determinados governos. É uma necessidade estrutural de capitais que precisam se expandir para sobreviver à concorrência.

Isso não significa que as guerras tenham desaparecido ou que o poder militar seja irrelevante. Significa que a força militar é apenas uma das ferramentas de uma ordem mais ampla. Sanções, controle de tecnologias estratégicas, monopólio de patentes, endividamento e poder das empresas transnacionais também definem quem pode produzir, em que condições e para quem. A soberania jurídica permanece, mas a soberania material é limitada pela dependência.

É nesse ponto que o discurso liberal sobre livre comércio se revela ideológico. As mercadorias circulam livremente sobretudo quando a circulação favorece os capitais mais fortes. Países periféricos são pressionados a abrir mercados, reduzir direitos trabalhistas e oferecer incentivos fiscais, enquanto as economias centrais protegem tecnologias e setores estratégicos. A concorrência existe, mas ocorre entre agentes profundamente desiguais. Chamar esse arranjo de liberdade é transformar uma relação de poder em aparência de escolha.

O minério brasileiro e a geografia da dependência

O caso da mineração ajuda a enxergar o imperialismo sem recorrer a exemplos distantes. A Vale é uma empresa sediada no Brasil, possui acionistas e executivos brasileiros e atua como uma das grandes companhias do mercado mundial. Ainda assim, sua posição não contradiz a existência do imperialismo. Ao contrário: mostra que a dependência não exige que toda empresa dominante seja estrangeira. As elites nacionais podem operar como parceiras de uma ordem internacional que lhes concede ganhos, desde que mantenham o país dentro de uma função subordinada.

O rompimento da barragem de Brumadinho, em 2019, expôs essa estrutura em sua forma mais brutal. A extração de minério gera riqueza, exportações e valorização financeira, mas os custos humanos e ambientais recaem sobre trabalhadores, famílias e comunidades. A lama não atravessa as bolsas de valores com a mesma intensidade com que atravessa casas, rios e corpos. O território produz valor para uma cadeia global; quando a operação falha, o dano é local, enquanto o benefício permanece distribuído entre acionistas, compradores industriais e circuitos financeiros.

Não se trata de afirmar que uma potência estrangeira ordenou cada decisão empresarial que levou à tragédia. Essa explicação seria simplista. O ponto é que a lógica que torna a extração acelerada uma prioridade não nasce das necessidades de Brumadinho. Ela responde à valorização do capital em escala internacional. O Estado brasileiro licencia, regula e eventualmente pune, mas também constrói infraestrutura, concede crédito e organiza as condições para que a exportação de commodities apareça como destino econômico inevitável.

A burguesia brasileira não é apenas vítima passiva do imperialismo. Ela também se beneficia dele. Proprietários rurais, bancos, mineradoras, empreiteiras e grupos financeiros disputam parcelas da riqueza produzida nessa posição dependente. A subordinação externa convive com a dominação interna. O trabalhador brasileiro pode ser explorado por uma empresa nacional que, ao mesmo tempo, ocupa posição subordinada diante de compradores, fundos e conglomerados internacionais. O conflito de classes não desaparece porque o capital tem nacionalidade brasileira.

A nova fronteira é tecnológica

O imperialismo também se deslocou para a infraestrutura digital. O Brasil pode ter usuários, programadores e centros de pesquisa, mas grande parte das plataformas, dos sistemas operacionais, das nuvens computacionais e dos modelos de inteligência artificial pertence a empresas concentradas em poucos países. A dependência não aparece somente no produto final. Ela está nos servidores, nos padrões técnicos, nas patentes, nos dados e na capacidade de definir quais ferramentas serão indispensáveis para escolas, empresas e governos.

Quando um entregador depende do algoritmo de uma plataforma estrangeira, a exploração não se limita à relação imediata entre trabalhador e aplicativo. O trabalhador fornece tempo, deslocamento, avaliação e dados comportamentais. A empresa controla a mediação, define regras opacas e transforma a cidade em uma fonte permanente de informação. A tecnologia parece neutra porque chega como aplicativo conveniente, mas sua neutralidade é a forma ideológica de ocultar quem possui a infraestrutura e quem decide o funcionamento do trabalho.

O mesmo ocorre com professores submetidos a plataformas educacionais, funcionários de call center monitorados por sistemas de produtividade e repartições públicas que contratam serviços digitais sem controlar plenamente os dados produzidos. A dependência tecnológica reduz a capacidade coletiva de decidir sobre o trabalho. O país pode parecer conectado, moderno e inovador, enquanto permanece comprador de soluções fechadas e fornecedor de dados, mão de obra barata e mercado consumidor.

A soberania que interessa

O nacionalismo conservador costuma denunciar o imperialismo apenas quando deseja atacar um adversário político ou alimentar ressentimentos contra algum país. No bolsonarismo, essa contradição foi evidente: discursos sobre pátria e soberania conviveram com a submissão de políticas públicas a interesses econômicos, com a destruição ambiental e com a exaltação de uma relação dependente com os Estados Unidos. A defesa abstrata da nação serviu para mobilizar emoções, não para democratizar a propriedade dos recursos e das tecnologias.

Uma crítica consequente ao imperialismo precisa recusar tanto a fantasia de autossuficiência nacional quanto a aceitação resignada da dependência. Não basta trocar fornecedores estrangeiros se a riqueza continuar concentrada e o trabalho continuar subordinado. Soberania não é apenas ter empresas brasileiras exportando minério ou plataformas nacionais explorando entregadores. É decidir coletivamente o que produzir, para que finalidade, sob quais condições ambientais e com qual controle dos trabalhadores.

A luta contra o imperialismo, nesse sentido, não é uma disputa entre bandeiras. É uma disputa sobre propriedade, tecnologia, trabalho e poder. Enquanto o Brasil for convocado a fornecer natureza barata, força de trabalho precarizada e consumidores endividados, sua independência permanecerá formal. A periferia pode eleger governos, criar empresas e celebrar sua modernização; se não controlar os meios que organizam sua vida econômica, continuará produzindo riqueza para uma ordem que não governa.