O significado de imperialismo não cabe na imagem escolar de um exército estrangeiro desembarcando para tomar um território. Essa imagem existe e é historicamente decisiva, mas se torna insuficiente quando o domínio opera por contratos, patentes, dívida, cadeias globais de produção, plataformas digitais e pressão política. Imperialismo é uma relação concreta entre capitalismos desiguais: os centros que concentram finanças, tecnologia e poder militar organizam os países periféricos como fontes de matéria-prima, mercados consumidores, mão de obra barata e oportunidades de lucro. No Brasil, ele não é uma força externa que simplesmente nos assalta; é também uma estrutura reproduzida por empresários, bancos, governos e classes proprietárias nacionais que lucram com a dependência.

Essa definição importa porque a palavra foi domesticada. Há quem a use para descrever qualquer política externa agressiva, como se toda disputa diplomática tivesse o mesmo peso. Há quem a trate como relíquia de uma esquerda incapaz de aceitar a “globalização”. Ambas as manobras escondem a questão central: a integração mundial sob o capitalismo não distribui igualmente as condições de decidir, produzir e viver. Ela conecta territórios, mas concentra comando. Uma empresa pode encomendar software nos Estados Unidos, fabricar componentes na Ásia, extrair minérios no Brasil e vender o produto final ao mundo; a aparência é de cooperação cosmopolita, enquanto a propriedade, as patentes e a maior parcela do valor ficam concentradas nos pontos mais fortes da cadeia.

O significado de imperialismo começa onde termina a ficção da troca entre iguais

Marx mostrou que a troca no mercado esconde a exploração ocorrida na produção. O trabalhador recebe salário, formalmente livre para vender sua força de trabalho, mas produz um valor superior ao que recebe: a mais-valia apropriada pelo proprietário. O imperialismo amplia essa lógica para a escala internacional. Países formalmente soberanos participam de mercados mundiais cujas regras foram moldadas pelos Estados e capitais mais poderosos. Vendem produtos primários ou trabalho barato, compram máquinas, licenças, tecnologias e produtos de maior valor agregado. Não se trata de uma maldição geográfica nem de uma incompetência moral do povo brasileiro. Trata-se de uma história de colonização, escravidão, concentração fundiária e inserção subordinada no mercado mundial, continuamente atualizada pelo capital financeiro.

O Brasil exporta soja, minério de ferro, petróleo, carne e celulose em volumes que celebramos como prova de pujança. Mas a pergunta decisiva não é se o navio sai cheio; é quem controla a cadeia que torna esse navio lucrativo, quem define preços, quem financia a produção, quem possui a logística, os equipamentos, as sementes, os sistemas de gestão e os canais de comercialização. Uma economia que vende natureza e trabalho incorporado para comprar tecnologia e pagar rendas financeiras não é independente porque ostenta superávit em uma planilha. Ela pode gerar riqueza em escala enorme e, ainda assim, manter sua população submetida a serviços públicos precarizados, empregos frágeis e cidades organizadas pela sobrevivência.

A dependência tampouco significa ausência de capital brasileiro. Grandes grupos nacionais podem enriquecer precisamente como sócios menores de uma ordem internacional desigual. O agronegócio que exige infraestrutura pública, crédito subsidiado e flexibilização ambiental não representa automaticamente um projeto nacional porque exporta. Bancos e fundos que lucram com juros elevados não deixam de ser agentes da dependência por terem sede no país. A burguesia brasileira não é uma vítima inocente do imperialismo: em boa medida, é sua mediadora local. Ela transforma recursos coletivos em rentabilidade privada e apresenta como patriotismo aquilo que preserva sua posição subordinada, mas extremamente lucrativa, na hierarquia global.

Da mina ao aplicativo, o comando chega sem bandeira

O imperialismo contemporâneo se materializa também na infraestrutura digital. Quando um entregador brasileiro abre um aplicativo para trabalhar, não encontra apenas uma ferramenta neutra de conexão entre consumidor e restaurante. Ele entra em um sistema que mede deslocamentos, distribui pedidos, fixa incentivos variáveis, aplica bloqueios opacos e recolhe dados sobre seu comportamento. A plataforma pode se apresentar como intermediária tecnológica, mas organiza de fato o processo de trabalho sem assumir plenamente as obrigações de um empregador. Sua engenharia jurídica e algorítmica converte risco empresarial em risco individual: se chove, se há assalto, se a demanda cai ou se o trabalhador adoece, a conta recai sobre quem pedala.

Não é necessário supor que cada aplicativo seja uma conspiração estrangeira para perceber o problema. O ponto é que a propriedade das plataformas, a capacidade de processar dados, as infraestruturas de nuvem, os padrões técnicos e os fluxos de investimento estão concentrados. O trabalhador brasileiro produz serviço, dados e disponibilidade permanente; a empresa extrai valor em escala transnacional. A dependência tecnológica não é só o país não fabricar um aparelho sofisticado. É não controlar os meios pelos quais o trabalho é administrado, a comunicação circula e a vida social é transformada em informação comercializável.

Heidegger advertiu que a técnica moderna não é apenas um conjunto de instrumentos, mas um modo de enquadrar o real como reserva disponível. Sob o capitalismo de plataforma, o entregador vira disponibilidade geolocalizada; o professor, produtor de conteúdo mensurável; o atendente de call center, voz cronometrada; a floresta, estoque de ativos; o cidadão, perfil de dados. A tecnologia não cria sozinha o imperialismo, mas lhe oferece novos meios de comando. Ela permite administrar à distância o que antes exigia capatazes, supervisores e presença física. A independência formal do trabalhador combina-se, assim, com uma vigilância minuciosa de seus movimentos e de sua produtividade.

Soberania não é trocar um chefe estrangeiro por um chefe nacional

É aqui que o nacionalismo de fachada falha. A extrema direita brasileira costuma encenar indignação contra organismos internacionais, artistas estrangeiros ou supostas ameaças culturais, enquanto entrega recursos estratégicos, destrói capacidades estatais, hostiliza a ciência e glorifica a precarização. O bolsonarismo falou em pátria para proteger a hierarquia social interna e para submeter o Estado a interesses privados. Sua guerra cultural foi útil porque deslocou o conflito real: não entre brasileiros e inimigos imaginários, mas entre uma maioria que trabalha e uma minoria que controla propriedade, crédito, terra, informação e poder político.

Debord ajuda a compreender essa operação. Na sociedade do espetáculo, a política se apresenta como sucessão de imagens excitadas, escândalos e identidades de consumo. A bandeira, a frase agressiva e o inimigo de ocasião tomam o lugar da análise das relações materiais. A dependência aparece então como escolha individual: se o jovem não prospera, faltou empreendedorismo; se o entregador não ganha o suficiente, faltou esforço; se o país não industrializa, faltou mérito. A ideologia meritocrática apaga o fato de que nem indivíduos nem nações começam a corrida com os mesmos meios de produção, proteção social ou capacidade de decidir as regras.

Falar em imperialismo exige, por isso, recusar tanto a submissão liberal quanto a fantasia de uma autarquia salvadora. Nenhum país se emancipa isolando-se do mundo; emancipa-se ao mudar as condições de sua inserção nele. Isso envolve capacidade pública de planejar, produzir ciência, dominar tecnologias estratégicas, proteger o trabalho, tributar riqueza e impedir que bens comuns sejam tratados apenas como ativos para remuneração financeira. Envolve também democracia econômica: sem poder dos trabalhadores sobre as decisões que moldam suas vidas, “desenvolvimento nacional” pode significar somente mais lucro para proprietários locais e mais exaustão para quem produz.

O significado de imperialismo, visto do Brasil, é o nome de uma engrenagem que liga o desmatamento ao preço internacional, o turno do call center ao contrato de terceirização, a pedalada do entregador ao algoritmo proprietário e a dívida pública à disciplina imposta sobre orçamento social. Não é uma palavra para decorar diante de um mapa antigo. É uma ferramenta para reconhecer que a pobreza em um país rico não decorre de escassez natural, mas de uma ordem que exporta riqueza, privatiza decisões e devolve à maioria apenas a obrigação de sobreviver.