O que é comunismo não se responde com a imagem de um Estado cinzento distribuindo ordens, nem com o pânico moral que a extrema direita brasileira aprendeu a repetir. Essas duas imagens, embora aparentemente opostas, ajudam a evitar a questão decisiva: por que uma minoria pode comandar os meios de produzir a vida social, enquanto a maioria precisa vender sua capacidade de trabalhar para sobreviver? Comunismo, em sua formulação marxista, é antes de tudo a crítica e a superação dessa divisão. Não é a promessa de que todos terão exatamente o mesmo, mas a recusa de uma ordem em que a riqueza coletiva aparece como propriedade privada de poucos e a necessidade de muitos.
No Brasil, a palavra foi transformada num insulto útil. Ela serve para acusar uma universidade pública, um sindicato, uma política de transferência de renda, uma aula de história ou qualquer limite à autoridade do patrão. O bolsonarismo levou essa operação a uma forma quase automática: todo conflito social é reduzido a uma conspiração comunista; toda reivindicação por direitos é tratada como ameaça à liberdade. A manobra tem uma função ideológica precisa. Quando o inimigo é uma abstração demoníaca, desaparecem da cena o salário que não paga o mês, a jornada sem fim, o aluguel crescente e o poder real de bancos, grandes proprietários e plataformas digitais.
O que é comunismo quando o trabalho não pertence a quem trabalha
Marx localizou o núcleo do capitalismo não no mercado em geral, nem na mera existência de dinheiro, mas na relação social pela qual o trabalhador, separado dos meios de produção, vende sua força de trabalho a quem os possui. O operário produz mercadorias; o lucro apropriado pelo dono da fábrica depende de uma parcela do valor criado por esse trabalho e não devolvida a quem o realizou. A mais-valia não é uma falha moral ocasional de empresários particularmente gananciosos. É o mecanismo normal de uma economia orientada pela acumulação privada.
O comunismo parte dessa constatação para afirmar que os meios fundamentais de produção devem deixar de ser instrumentos de domínio de uma classe sobre outra. Isso exige controle social e democrático sobre aquilo de que todos dependem para viver: terra, fábricas, infraestrutura, crédito, conhecimento, energia e, hoje, também os sistemas digitais que organizam o trabalho. A questão não é trocar o nome do proprietário privado por uma burocracia intocável. Uma sociedade comunista só faz sentido se ampliar o poder efetivo dos produtores sobre as decisões que determinam sua existência. Sem participação, liberdade material e igualdade substantiva, resta apenas uma administração que pode conservar a separação entre dirigentes e dirigidos.
É por isso que reduzir comunismo a experiências históricas específicas, como se cada uma delas esgotasse uma tradição de pensamento e luta, é intelectualmente pobre. As experiências do século XX devem ser examinadas sem catecismo: houve conquistas sociais relevantes em certos contextos, assim como houve burocratização, repressão e limites graves que não podem ser ocultados em nome de uma sigla. Mas o uso conservador desses fracassos é seletivo. Ele exige que o comunismo responda por cada crime cometido sob sua bandeira, enquanto trata as mortes, fomes, golpes e violências produzidas pelo colonialismo e pelo capitalismo como acidentes sem sistema. A honestidade crítica não pede absolvição para nenhum poder; pede que se investigue a estrutura que torna a dominação possível.
O entregador de aplicativo e a liberdade vendida como escolha
O caso do entregador de aplicativo torna essa discussão menos abstrata do que qualquer verbete escolar. Ele aparece na tela como “parceiro”, como microempreendedor livre para decidir seus horários. Na rua, porém, enfrenta uma escolha estreita: aceitar corridas mal pagas, correr riscos no trânsito e estender a jornada, ou não obter a renda necessária. O aplicativo controla a distribuição das chamadas, as avaliações, os bloqueios, os incentivos e a visibilidade por meio de regras que o trabalhador não conhece nem decide. A empresa se apresenta como mera tecnologia; na prática, organiza trabalho, extrai valor e transfere os custos da atividade — moto, combustível, manutenção, acidente, tempo de espera — para quem pedala ou dirige.
A ideologia do empreendedorismo chama isso de autonomia porque evita chamar pelo nome a subordinação. Marx descreveu a alienação como a situação em que o produto, o processo e as condições do trabalho se voltam contra quem trabalha como força estranha. A plataforma atualiza essa experiência: o entregador não vê o critério do algoritmo, não participa de sua elaboração e pode ser punido por uma máquina administrativa sem rosto. O celular, vendido como instrumento de independência, torna-se o posto de comando de uma jornada cuja duração o trabalhador precisa ampliar para compensar ganhos insuficientes.
É nesse ponto que o comunismo revela seu conteúdo contemporâneo. Ele não propõe apenas melhorar a remuneração de quem já está submetido à plataforma, embora direitos trabalhistas e proteção social sejam urgentes. Propõe perguntar por que uma infraestrutura construída com trabalho social, dados coletivos, cidades públicas e redes de comunicação deve estar subordinada à rentabilidade de investidores. Se a tecnologia organiza uma parcela crescente da vida comum, seu comando não pode permanecer um segredo comercial acima da democracia. O controle coletivo sobre plataformas e sobre as condições de trabalho não é um capricho futurista; é a consequência política de reconhecer que a produção já é social, ainda que sua apropriação continue privada.
O anticomunismo protege uma ordem concreta
Quando um empresário diz que o comunismo destruiria a liberdade, convém perguntar de qual liberdade ele fala. Não é a liberdade do trabalhador que depende de dois ônibus para chegar ao emprego, nem a do professor pressionado por metas e contratos frágeis, nem a da atendente de call center submetida ao cronômetro e à vigilância permanente. É, sobretudo, a liberdade de manter propriedade e comando sobre recursos dos quais os demais necessitam. A igualdade jurídica, celebrada como se encerrasse o debate, não elimina a desigualdade material entre quem pode recusar um trabalho e quem precisa aceitá-lo para comer.
Alysson Mascaro insiste que o Estado e o direito não pairam acima das relações sociais como árbitros neutros. Eles operam em uma sociabilidade marcada pela forma mercadoria, pela propriedade privada e pelo contrato entre sujeitos formalmente iguais, mas materialmente desiguais. Isso não torna toda disputa institucional inútil. Pelo contrário: salário, previdência, regulação e direitos são terrenos de luta indispensáveis. O erro é imaginá-los como solução definitiva enquanto permanece intacta a estrutura que concentra os meios de produzir e submete a vida à valorização do capital.
O anticomunismo brasileiro prospera justamente porque desloca essa discussão. Em vez de debater por que milhões trabalham tanto e possuem tão pouco poder sobre seu tempo, ele inventa a ameaça de uma ordem que confiscaria famílias, igrejas e pequenos negócios no dia seguinte. A ficção mobiliza medo e oferece um inimigo simples. Le Bon observava como multidões podem ser capturadas por imagens e afirmações repetidas; na era das redes, essa dinâmica é industrializada por vídeos curtos, correntes e empresários da indignação. Debord ajuda a entender o complemento: a política vira espetáculo, e o comunismo vira uma imagem pronta para consumo, separada de qualquer análise das relações de classe.
Chamar-se comunista, hoje, não deveria dispensar ninguém de pensar os erros das tradições socialistas, nem substituir organização por nostalgia. Significa sustentar uma pergunta incômoda: por que a sociedade que produz alimentos, moradias, ciência, transporte e tecnologia não é governada por aqueles que a fazem funcionar? Enquanto essa pergunta for respondida com a defesa da propriedade de poucos e com a criminalização da igualdade, a palavra comunismo continuará necessária. Não como senha para fugir do presente, mas como nome da luta para que o entregador, a professora, a operadora de telemarketing e todos os trabalhadores deixem de ser acessórios descartáveis de uma riqueza que eles próprios criam.
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