O que é comunismo não se responde repetindo a caricatura fabricada por escolas, telejornais e campanhas eleitorais: uma ditadura cinzenta que proibiria a propriedade do celular, da casa e até do pensamento. Essa imagem cumpre uma função ideológica precisa. Ela desloca a discussão sobre quem controla a riqueza, as empresas, a tecnologia e o tempo de trabalho para um teatro moral sobre liberdade individual. Enquanto o trabalhador teme perder objetos de uso pessoal, os proprietários preservam o poder sobre fábricas, bancos, plataformas e dados. O comunismo começa justamente quando essa inversão é desfeita.

Na tradição de Marx, comunismo não é simplesmente um modelo de governo nem o nome de uma administração estatal específica. É o horizonte de superação da sociedade fundada na propriedade privada dos meios de produção, na divisão de classes e no trabalho assalariado como condição de sobrevivência. Não se trata de abolir tudo o que uma pessoa usa, mas de retirar de uma minoria a capacidade de comandar os meios pelos quais a maioria trabalha e vive. A diferença parece elementar, mas o anticomunismo depende de apagá-la.

O que é comunismo diante da vida de um entregador

Considere o entregador de aplicativo. Ele pode ser formalmente dono da bicicleta, da motocicleta ou do telefone, mas não controla a plataforma que distribui pedidos, define critérios de visibilidade, calcula remuneração e pode bloquear sua conta. A propriedade pessoal de seus instrumentos não o torna independente. Seu trabalho continua subordinado a uma estrutura empresarial que se apresenta como tecnologia neutra, embora organize a jornada, imponha ritmos e retenha parte do valor produzido.

A plataforma chama esse trabalhador de parceiro porque a palavra empregado revelaria uma relação de poder. O entregador assume os custos, os riscos e o tempo morto; a empresa administra a infraestrutura digital, os dados e o acesso aos consumidores. A suposta autonomia é uma forma contemporânea de subordinação. O trabalhador não recebe pelo conjunto de sua atividade, mas por tarefas fragmentadas, submetidas a avaliações e incentivos que o obrigam a permanecer conectado. A mercadoria entregue é visível; o desgaste físico, a espera e a insegurança desaparecem da tela.

O comunismo, nesse caso, não seria trocar um aplicativo privado por um aplicativo estatal e declarar resolvido o problema. A questão é quem decide sobre a tecnologia, para que ela serve e como o tempo social é distribuído. Uma plataforma controlada coletivamente poderia reduzir deslocamentos, garantir remuneração e organizar o serviço segundo necessidades públicas. Mas isso exigiria que os trabalhadores participassem do controle da infraestrutura, dos algoritmos e das decisões econômicas. Sem essa transformação, a tecnologia continuará sendo apenas uma forma mais eficiente de extrair mais-valia.

Da exploração invisível à crítica da mercadoria

A mais-valia não desapareceu porque o trabalho ganhou telas, aplicativos ou vocabulário empresarial. Ela continua sendo a diferença entre o valor produzido pelo trabalhador e aquilo que ele recebe para reproduzir sua força de trabalho. No call center, a voz é medida por duração e desempenho; na escola privada, o professor é pressionado por metas, avaliações e disponibilidade permanente; no depósito, cada movimento pode ser acompanhado por sistemas de produtividade. O capitalismo muda seus instrumentos, mas conserva a relação que transforma a atividade humana em fonte de lucro.

É por isso que o comunismo não deve ser reduzido à distribuição posterior de renda. A desigualdade nasce antes da folha de pagamento, na separação entre quem possui os meios de produção e quem precisa vender sua capacidade de trabalhar. Uma política que apenas compense a pobreza sem alterar essa estrutura pode aliviar sofrimentos reais, mas não elimina a dependência. O trabalhador segue obrigado a aceitar condições impostas por quem controla o investimento, a contratação e a tecnologia.

O trabalho alienado aparece quando a atividade que deveria permitir a realização humana se converte em força estranha, comandada por objetivos que o trabalhador não define. O entregador corre para cumprir uma rota que não desenhou. O professor prepara aulas sob a ameaça de metas que não discutiu. O funcionário de escritório responde mensagens fora do expediente para preservar uma posição sempre instável. A alienação não é um problema psicológico isolado; é a experiência subjetiva de uma relação social em que o produto, o processo e a finalidade do trabalho pertencem a outros.

Por que o anticomunismo precisa de um inimigo permanente

No Brasil, o comunismo costuma ser convocado como ameaça justamente quando trabalhadores reivindicam direitos concretos. A palavra aparece para desqualificar a greve, a reforma agrária, a defesa dos serviços públicos, a taxação dos mais ricos ou a proteção ambiental. O conteúdo da acusação pouco importa. Comunista pode ser o professor que critica a militarização da escola, a mulher que exige autonomia reprodutiva ou o entregador que pede vínculo trabalhista. O rótulo funciona como atalho para dispensar qualquer argumento.

O bolsonarismo explorou esse mecanismo com especial agressividade. Ao apresentar universidades, movimentos sociais, artistas e jornalistas como partes de uma conspiração vermelha, transformou conflitos sociais em guerra cultural. A operação foi eficiente porque ofereceu uma explicação emocional para inseguranças produzidas pelo próprio capitalismo: o emprego desaparece, o serviço público se deteriora, o futuro se estreita, mas a culpa é atribuída a um inimigo abstrato. O anticomunismo protege a ordem existente ao ensinar o trabalhador a odiar aqueles que questionam a sua precariedade.

Essa fabricação do inimigo se aproxima daquilo que a psicologia das multidões descreve como substituição da análise por imagens simples e afetos compartilhados. O medo de perder a propriedade pessoal é mobilizado para defender propriedades bilionárias que o indivíduo jamais controlará. A multidão é convocada a proteger a liberdade do proprietário enquanto aceita a própria submissão no trabalho. A propaganda não precisa provar que uma ameaça existe; basta repetir seus sinais até que a suspeita pareça experiência direta.

Comunismo não é culto ao Estado

Outra confusão útil ao conservadorismo identifica comunismo com qualquer forma de Estado forte. Essa equivalência é historicamente e teoricamente insuficiente. Estados que se declararam socialistas tiveram experiências distintas, contradições internas, burocracias e formas de coerção que precisam ser analisadas sem idealização. Reconhecer esses problemas não obriga a aceitar a narrativa liberal segundo a qual o mercado representaria liberdade e o Estado seria a única ameaça.

O Estado capitalista não é árbitro neutro entre indivíduos iguais. Ele organiza juridicamente uma sociedade desigual, protege contratos, propriedade e formas de acumulação. Como mostra a crítica materialista do direito, a igualdade formal entre comprador e vendedor da força de trabalho encobre uma desigualdade concreta: um possui capital e o outro precisa trabalhar para viver. O Estado pode garantir direitos, limitar abusos e ser disputado por movimentos populares, mas sua estrutura está vinculada às relações sociais que administra.

Por isso, comunismo não significa simplesmente aumentar o poder de uma burocracia sobre a população. Significa transformar as relações de produção e ampliar o controle coletivo sobre as decisões que hoje parecem econômicas, técnicas ou privadas. Quem decide o que será produzido? Para quem? Com quais recursos? Em que ritmo? Sob quais condições? Quando essas perguntas saem das salas dos acionistas e entram na vida democrática dos trabalhadores, começa a aparecer o conteúdo real da palavra.

O comunismo como ruptura com a lógica do mérito

A ideologia do mérito afirma que cada pessoa ocupa seu lugar por esforço, talento e disciplina. Ela ignora que crianças nascem em famílias com recursos diferentes, que escolas distribuem oportunidades de modo desigual e que a propriedade permite a alguns viver do trabalho alheio. No mundo dos aplicativos, o mérito é substituído por estrelas, pontuações e rankings, mas a lógica permanece: se o trabalhador fracassa, a culpa é individual; se a empresa lucra, o sistema é tratado como eficiente.

O comunismo recusa essa moralização da desigualdade. Isso não significa negar diferenças de capacidade ou o valor do esforço, mas impedir que essas diferenças sejam convertidas em poder de exploração. Uma sociedade comunista teria de organizar a produção para satisfazer necessidades coletivas, não para premiar quem conseguiu monopolizar recursos fundamentais. O tempo liberado da competição poderia ser destinado à educação, à cultura, ao cuidado, à participação política e ao descanso — atividades hoje comprimidas pela jornada e pela insegurança.

Essa possibilidade não é uma promessa automática inscrita na história. A emancipação exige organização, conflito e consciência política. Nenhum aplicativo, eleição ou reforma administrativa produz sozinho uma sociedade sem classes. Mas a ausência de garantia automática não torna o horizonte menos necessário. O capitalismo já mostra diariamente sua incapacidade de subordinar a riqueza às necessidades humanas: produz tecnologia avançada e trabalho exaustivo, abundância material e fome, conectividade e isolamento.

O comunismo é a pergunta que o anticomunismo tenta interditar: por que aqueles que produzem a riqueza não controlam as condições de sua produção? No Brasil, essa pergunta está no corpo do entregador que pedala sem proteção, na voz do professor submetido a metas, na rotina do trabalhador de call center e na ansiedade de quem precisa vender cada hora do dia. Mais do que um fantasma eleitoral, comunismo é a negação prática de que a vida deva continuar organizada para ampliar o patrimônio de poucos. É a disputa para que a riqueza social deixe de aparecer como poder privado e se torne capacidade coletiva de decidir sobre o próprio destino.