Perguntar o que é comunista no Brasil exige desconfiar da própria pergunta. Durante décadas, a palavra foi retirada do campo da teoria política e transformada em acusação moral: comunista seria qualquer pessoa que defenda uma política social, critique bilionários, denuncie a fome ou se oponha ao autoritarismo. No bolsonarismo, o termo virou uma peça de guerra cultural, capaz de designar professores, artistas, jornalistas, ministros do Supremo, organizações populares e até adversários liberais. A operação é conveniente porque substitui a discussão sobre propriedade, trabalho e poder por um espantalho.
Ser comunista, em sentido político e histórico, não é gostar de um governo específico, admirar burocracias estatais ou defender uma caricatura de igualdade em que todos receberiam o mesmo salário. É reconhecer que a sociedade capitalista se organiza pela apropriação privada dos meios de produção e pela exploração de quem precisa vender sua força de trabalho para sobreviver. A questão comunista começa quando se pergunta por que uma minoria decide o destino da riqueza produzida coletivamente.
O que é comunista além do insulto eleitoral
Marx não definiu o comunismo como uma distribuição piedosa da riqueza existente. O núcleo da crítica está na relação social que separa aqueles que controlam fábricas, terras, bancos, plataformas e tecnologias daqueles que só podem trabalhar sob condições impostas. O trabalhador não vende um produto qualquer: vende sua capacidade de trabalhar durante determinado tempo. Nesse processo, produz mais valor do que recebe em salário. A diferença, a mais-valia, sustenta o lucro e a reprodução da classe proprietária.
Essa relação não desaparece porque o trabalhador usa um aplicativo, veste uma camisa com a palavra empreendedor ou recebe um crachá de empresa moderna. O entregador que espera pedidos na calçada, arca com combustível, manutenção e risco de acidente, e ainda depende de uma pontuação algorítmica não é um empresário no sentido pleno. Ele não controla a plataforma, não define o preço da corrida, não conhece os critérios que determinam sua visibilidade e não negocia em condições equivalentes. A linguagem do empreendedorismo mascara uma subordinação real.
O comunismo, nesse sentido, não é uma fantasia sobre pessoas sem conflitos. É um projeto de superar a separação entre quem trabalha e quem controla as condições do trabalho. Isso implica socializar os meios de produção e submeter a economia à decisão coletiva, em vez de deixá-la obedecer à rentabilidade privada. A forma concreta dessa sociedade não está pronta num manual. O que existe é uma crítica material das relações que produzem desigualdade, dependência e alienação.
A alienação aparece no cotidiano brasileiro
Uma professora que precisa acumular turmas, preencher plataformas, responder mensagens fora do expediente e preparar aulas em casa conhece a alienação sem precisar usar esse nome. Seu tempo, sua inteligência e sua capacidade de cuidar são convertidos em metas, relatórios e indicadores. O trabalho que deveria produzir formação humana passa a ser medido por produtividade. A instituição cobra resultados, mas não entrega as condições necessárias para realizá-los. Quando o fracasso chega, ele é apresentado como insuficiência individual.
Algo semelhante acontece no call center. A voz do atendente precisa parecer espontânea, mas segue um roteiro; a pausa para respirar pode ser registrada; a conversa é avaliada por métricas que transformam sofrimento em desempenho. O trabalhador vende não apenas seus gestos, mas sua disposição emocional. A empresa chama isso de excelência no atendimento. Marx chamaria atenção para o fato de que a atividade do trabalhador aparece como força estranha, pertencente a outro, orientada por uma finalidade que ele não controla.
É nesse ponto que o comunismo se separa de uma simples defesa de salários maiores, embora salários maiores sejam indispensáveis. A reivindicação comunista pergunta quem decide o que será produzido, para quem, em que ritmo e com quais consequências. Uma escola pode receber mais recursos e continuar submetida a uma lógica autoritária de metas. Um entregador pode receber uma tarifa ligeiramente maior e continuar sem controle sobre a plataforma. A melhoria imediata não elimina a estrutura que transforma a vida em instrumento de acumulação.
O anticomunismo protege relações muito concretas
No Brasil, chamar alguém de comunista frequentemente serve para proteger relações que nada têm de abstratas. O latifundiário pode defender a propriedade sem limites, o empresário pode rejeitar direitos trabalhistas e o influenciador pode atacar políticas de redistribuição como ameaça à liberdade. A propriedade privada aparece como direito natural, enquanto a propriedade do trabalhador sobre sua própria vida é tratada como exigência excessiva.
O discurso bolsonarista explorou essa inversão com eficácia. Ao associar comunismo a uma conspiração cultural permanente, produziu um inimigo difuso capaz de justificar a defesa da família tradicional, da autoridade policial e do mercado sem controle. O medo funciona como técnica de mobilização. A multidão não precisa conhecer a história do movimento comunista; basta reconhecer o sinal de perigo oferecido pelo líder. Le Bon ajuda a compreender a lógica: em uma massa politicamente excitada, imagens simples e repetidas ocupam o lugar da análise. O bolsonarismo não precisou provar que seus adversários eram comunistas. Precisou apenas fazê-los parecer ameaçadores.
Essa fabricação do inimigo também reorganiza a percepção da classe trabalhadora. O entregador precarizado pode ser levado a odiar o sindicato que reivindica direitos, a professora pode ser convencida de que uma discussão sobre gênero é mais urgente que sua jornada exaustiva, e o desempregado pode imaginar o empresário como um aliado natural. A ideologia funciona quando apresenta interesses de classe como escolhas individuais ou conflitos morais. O trabalhador passa a defender a estrutura que o mantém vulnerável porque aprende a interpretar sua própria exploração como prova de mérito insuficiente.
Comunismo não é culto ao Estado
Uma crítica comunista consequente não transforma todo Estado em instrumento de emancipação. O Estado moderno administra conflitos dentro de uma sociedade fundada na propriedade privada e, como analisa Alysson Mascaro, sua forma jurídica apresenta indivíduos desiguais como sujeitos formalmente livres e iguais. O contrato de trabalho parece uma troca entre equivalentes, embora uma parte possua os meios de produção e a outra dependa do salário para viver.
Por isso, estatizar uma empresa não basta para abolir a alienação. Se o trabalhador continua sem participar das decisões, submetido à hierarquia, à meta e à disciplina produtivista, a propriedade mudou de forma sem que a relação social tenha sido superada. Também não faz sentido chamar de comunista qualquer regime que controle a economia por meio de uma burocracia e impeça a organização autônoma dos trabalhadores. O nome de uma experiência histórica não resolve, por si só, o problema de quem decide e quem obedece.
O comunismo precisa ser avaliado pelo movimento concreto de emancipação: redução da jornada sem perda de renda, controle democrático da produção, acesso universal aos bens necessários, proteção contra a chantagem do desemprego e superação da propriedade que concentra poder social. A técnica poderia diminuir o trabalho penoso, mas no capitalismo ela frequentemente serve para intensificar o ritmo, vigiar condutas e dispensar pessoas. O problema não está na máquina isolada, e sim na finalidade social que a governa.
A palavra que o capitalismo teme
Comunista não é quem acredita que o Estado resolverá magicamente a exploração, nem quem repete uma bandeira por identidade cultural. Comunista é quem identifica na propriedade capitalista a origem de uma dominação que atravessa o salário, a escola, a moradia, a tecnologia e a política. É quem não aceita que a riqueza produzida por milhões seja apropriada como propriedade particular de poucos.
O rótulo continuará sendo usado como ameaça porque nomear a classe e a exploração desorganiza a fantasia de que todos competem em igualdade de condições. Quando um motorista de aplicativo, uma professora, um operário ou um atendente de call center percebem que seus problemas não são falhas privadas, mas efeitos de uma relação social, a culpa muda de lugar. A palavra deixa de ser insulto e retorna ao terreno que a propaganda tentou interditar: o conflito entre trabalho coletivo e apropriação privada.
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