O bolsonarismo não pode ser compreendido apenas pelo resultado das urnas, pelos discursos de Jair Bolsonaro ou pelas cenas espetaculares de seus seguidores em atos de rua. Ele continua operando quando o patrão chama o empregado de “colaborador” para lhe negar vínculo, quando o entregador é tratado como empresário de si mesmo apesar de não controlar preço, rota ou tempo, e quando a professora que denuncia o abandono da escola pública é acusada de doutrinação. Sua força está menos numa doutrina coerente do que numa prática social: converter a violência produzida pelo capitalismo em ressentimento contra aqueles que também sofrem essa violência.

Um caso recente ajuda a ver esse mecanismo fora da abstração. Durante a eleição municipal de São Paulo em 2024, a campanha de Pablo Marçal transformou as plataformas digitais em palco de uma pedagogia da brutalidade. Não era necessário que ele ocupasse formalmente o lugar de Bolsonaro para mobilizar a gramática bolsonarista: a exaltação do homem que se faz sozinho, o desprezo pela mediação política, a provocação permanente como prova de autenticidade, a mentira lançada como método de desgaste e a conversão do debate público numa disputa de humilhações. A agressão televisionada contra ele, no fim, não interrompeu o espetáculo; tornou-se mais uma mercadoria de circulação, corte, torcida e monetização.

O episódio não foi um desvio folclórico da política. Ele expôs a forma pela qual o bolsonarismo se adapta quando não detém integralmente a máquina federal: espalha-se como linguagem disponível para empresários de influência, candidatos oportunistas, administradores de plataforma e chefes que desejam uma força de trabalho dócil. A política deixa de ser discussão sobre transporte, moradia, salário, saúde e escola; passa a ser um teste incessante de força individual. Quem hesita é fraco. Quem pede prova é burocrata. Quem reivindica direito é parasita. Quem denuncia uma mentira é inimigo da liberdade.

A humilhação como método de governo social

Para quem trabalha, essa linguagem não fica confinada ao celular. O entregador de aplicativo conhece a versão material da retórica do “esforço”: precisa aceitar chamadas para não comprometer seus ganhos, enfrenta chuva, trânsito e risco de acidente, arca com instrumentos de trabalho e ainda ouve que é livre porque pode ligar ou desligar o aplicativo. A liberdade prometida é a liberdade de assumir sozinho todos os custos. Se não consegue pagar as contas, a explicação oferecida não é a remuneração rebaixada nem o poder da plataforma sobre sua jornada; é sua falta de disciplina, de mentalidade ou de coragem para empreender.

Aí o bolsonarismo encontra o neoliberalismo e lhe oferece uma alma rancorosa. O neoliberalismo já havia dissolvido a ideia de que desemprego, endividamento e precarização são problemas estruturais; o bolsonarismo acrescenta que a pessoa atingida por eles deve encontrar um culpado mais fraco e mais próximo. A raiva que poderia se dirigir à empresa que reduz custos mediante terceirização, ao Estado que permite a desproteção ou à classe que lucra com o trabalho alheio é desviada para o professor, a mulher que reivindica autonomia, o pobre que recebe política pública, o imigrante, o militante de esquerda, o servidor público ou o suposto comunista que habita toda fantasia conspiratória.

Marx mostrou que a exploração capitalista não depende de o trabalhador se perceber explorado. Ela funciona precisamente quando a relação social aparece como relação entre coisas: salário como preço natural do trabalho, lucro como mérito natural de quem investe, aplicativo como mera ferramenta técnica. No capitalismo de plataforma, essa aparência é reforçada por telas, notas, metas e mapas. O trabalhador não vê o proprietário da empresa; vê um comando automático que lhe informa onde ir, quanto receber e com que rapidez deve obedecer. A técnica parece neutra porque oculta a decisão econômica que a organiza.

Heidegger alertava que a técnica moderna não é apenas um conjunto de máquinas, mas uma forma de enquadrar o mundo como reserva disponível. A plataforma enquadra o entregador como disponibilidade geolocalizada, o motorista como unidade substituível, o professor como produtor mensurável de desempenho, o atendente de call center como voz cronometrada. O bolsonarismo dá cobertura afetiva a esse enquadramento: se a pessoa é tratada como recurso, que aceite a condição com orgulho; se adoece, que não “vitimize”; se protesta, que seja substituída por alguém mais grato.

O espetáculo substitui a experiência comum

Debord escreveu que, na sociedade do espetáculo, a relação entre pessoas é mediada por imagens. A campanha paulista de 2024 condensou essa lógica em tempo real. Não importava apenas o que um candidato propunha, mas o que podia render vídeo, indignação, meme, corte e circulação. A mentira não precisava convencer todos literalmente. Bastava ocupar a atenção, impor uma suspeita e obrigar adversários, jornalistas e eleitores a viverem em seu ritmo. A falsidade ganha eficácia não por ser crível em sentido rigoroso, mas porque transforma o espaço público numa sucessão de impactos sem memória.

É nessa atmosfera que o trabalhador isolado reconhece no milionário performático uma espécie de espelho deformado. Ambos são convocados a vender a própria imagem, a provar energia ininterrupta, a confundir exposição com reconhecimento. Mas a semelhança é fraudulenta. O influenciador que vende a narrativa do risco individual dispõe de capital, equipe, rede de negócios e proteção que o trabalhador precarizado não possui. A ideologia meritocrática apaga essas condições e oferece uma ficção moral: os vencedores venceram porque mereceram; os derrotados devem ter falhado em algum ponto de sua disposição interior.

Esse autoengano tem consequência política. Ao imaginar a própria sobrevivência como empresa particular, o trabalhador passa a enxergar o colega como concorrente e o sindicato como obstáculo. A solidariedade parece atraso; a organização coletiva, privilégio; a legislação trabalhista, custo excessivo. O que se chama de “liberdade” é, muitas vezes, a perda do poder de recusar condições degradantes. Alysson Mascaro insiste que o Estado e o direito não pairam acima das classes: eles organizam e estabilizam relações sociais determinadas. Quando o bolsonarismo ataca direitos sociais em nome da eficiência, não está apenas reduzindo regras; está fortalecendo a posição de quem já possui propriedade, comando e recursos para suportar o risco.

O fascismo cotidiano não exige uniforme

Chamar o bolsonarismo de fascista não significa repetir automaticamente imagens históricas nem supor que todo eleitor seja membro de uma milícia ideológica. Significa identificar uma tendência concreta: a mobilização do medo e da frustração popular para proteger hierarquias sociais, destruir inimigos imaginados e deslegitimar toda instituição que possa limitar o mando dos poderosos. Seu autoritarismo aparece no desejo de eliminar o adversário, mas também na cena banal em que a chefia exige disponibilidade total e chama isso de cultura; na família que trata a filha desempregada como fracasso moral; no grupo de trabalho que ri da doença de alguém porque “quem quer, dá um jeito”.

Le Bon observava que a multidão pode reduzir a capacidade crítica individual e intensificar afetos compartilhados. As redes não criaram esse fenômeno do nada, mas lhe deram velocidade, segmentação e recompensa. A multidão bolsonarista não precisa estar fisicamente reunida: ela se recompõe em grupos de mensagem, transmissões, comentários e correntes. Cada participante recebe a sensação de protagonismo ao repassar uma peça de propaganda, enquanto a produção de medo e ressentimento permanece concentrada em estruturas muito mais poderosas. A participação é real; o controle sobre seus efeitos, não.

Enxergar isso muda a pergunta feita diante do bolsonarismo. Em vez de perguntar apenas por que tanta gente “cai” em mentiras, é preciso perguntar que vida social torna a mentira útil, consoladora e organizada. Quem volta exausto de uma jornada fragmentada, endividado e sem horizonte coletivo procura uma explicação para sua perda de poder. A extrema direita oferece uma explicação simples e um inimigo pronto. A esquerda precisa recusar tanto o desprezo moral por esse trabalhador quanto a conciliação com a ideologia que o captura. Combater o bolsonarismo é reconstruir, nas condições concretas do trabalho e da vida, a capacidade de reconhecer que o inimigo não é o colega igualmente precarizado, mas a ordem que transforma ambos em peças descartáveis.

Depois de perceber essa operação, a próxima bravata de um candidato, empresário ou influenciador deixa de parecer apenas ruído. Ela pode ser lida como parte de uma política que educa para aceitar a desigualdade e odiar quem tenta contestá-la. A disputa não se resolve na correção de uma postagem falsa, embora ela importe. Resolve-se também na defesa do direito de trabalhar menos, ganhar com dignidade, adoecer sem ser descartado, estudar sem vigilância ideológica e organizar-se sem ser tratado como inimigo. É nesse terreno que a promessa bolsonarista de ordem revela seu conteúdo: ordem para o lucro, insegurança para quem vive do próprio trabalho.