A democracia liberal brasileira costuma ser celebrada como um terreno neutro: cidadãos formalmente iguais escolhem representantes, instituições independentes moderam conflitos e a Constituição protege direitos. Essa imagem tem uma função ideológica precisa. Ela separa a política da economia como se o voto de uma trabalhadora de call center, depois de uma jornada submetida a metas e vigilância, tivesse o mesmo peso material que a influência cotidiana de um banco, de uma mineradora ou de uma plataforma digital. A igualdade jurídica é real em seu plano formal; a igualdade de poder, não. E é justamente nesse abismo que a democracia liberal se torna compatível com uma sociedade profundamente desigual.
Não se trata de desprezar eleições, liberdades civis ou o direito de organização popular em nome de uma abstração revolucionária. No Brasil, onde a ditadura empresarial-militar deixou tortura, censura e uma máquina estatal treinada para tratar pobres como inimigos, a preservação dessas garantias importa concretamente. O problema começa quando a democracia é reduzida ao seu procedimento eleitoral, como se votar a cada dois anos pudesse controlar as relações que mandam no tempo, no salário, na moradia e até no acesso à palavra pública. A urna escolhe governos; raramente escolhe os limites estruturais dentro dos quais eles são autorizados a governar.
A democracia liberal começa onde a desigualdade já decidiu muito
Marx percebeu que a liberdade contratual entre patrão e trabalhador encobre uma coerção decisiva: quem não possui os meios de vida precisa vender sua força de trabalho. A democracia liberal herda essa contradição e lhe dá uma forma política. Todos chegam à seção eleitoral como indivíduos portadores de um voto, mas não chegam ao debate público com os mesmos recursos, tempo, educação, redes de influência ou capacidade de sobreviver a uma derrota. O entregador de aplicativo pode escolher um candidato, mas não define unilateralmente a tarifa paga pela plataforma, o bloqueio algorítmico que corta sua renda ou o custo da gasolina. Sua cidadania política convive com uma quase impotência no local em que passa a maior parte da vida: o trabalho.
O neoliberalismo aprofundou esse deslocamento. Em vez de reconhecer a exploração como conflito entre classes, transforma o trabalhador em microempresa de si mesmo. O entregador vira “parceiro”; a professora sobrecarregada é chamada a inovar apesar da falta de condições; a atendente avaliada a cada segundo deve demonstrar resiliência diante de uma gestão que mede sua voz, suas pausas e seu desempenho. A democracia liberal aparece então como compensação simbólica para uma vida econômica sem democracia. Pode-se escolher entre candidaturas, comentar a política e indignar-se nas redes, mas não deliberar sobre o algoritmo que distribui trabalho, sobre o orçamento submetido ao rentismo ou sobre a propriedade concentrada dos meios de comunicação.
Essa dissociação não é uma falha acidental que um governo bem-intencionado resolveria por boa administração. Como formula Alysson Mascaro, o Estado e o direito não pairam acima das relações sociais: são formas históricas implicadas na reprodução do capitalismo. O Estado pode regular, distribuir renda, ampliar direitos e conter violências — e tais disputas importam enormemente —, mas opera numa sociedade em que a propriedade privada dos meios de produção estabelece fronteiras muito duras. Quando políticas sociais ameaçam interesses dominantes, a linguagem da responsabilidade fiscal, da segurança jurídica e da confiança do mercado entra em cena como se fosse técnica, não política.
O bolsonarismo não caiu de fora da democracia liberal
O caso brasileiro desmonta a fantasia de que fascismo e democracia liberal são polos externos, separados por uma muralha institucional. O bolsonarismo cresceu dentro do sistema eleitoral, da indústria de comunicação, de setores empresariais, de parcelas das corporações armadas e da normalização cotidiana da violência contra pobres, negros, indígenas e trabalhadores. Não foi produzido por uma irracionalidade inexplicável que invadiu uma ordem antes saudável. Foi a forma brutal assumida por uma crise social administrada durante décadas por desemprego, precarização, medo e ressentimento.
Isso não significa dizer que todo eleitor de Bolsonaro seja fascista ou que as instituições sejam irrelevantes. Significa recusar a explicação confortável que atribui o fenômeno apenas à ignorância individual, às fake news ou ao mau caráter de um líder. A desinformação foi instrumento central, mas encontrou terreno onde a vida já era organizada pela competição e pelo desamparo. Quando o Estado aparece ao trabalhador apenas como polícia, fila, humilhação burocrática ou serviço público deteriorado, e o mercado aparece como ameaça permanente, a promessa autoritária de ordem encontra aderência. Le Bon, com todos os limites de sua teoria das multidões, ajuda a notar como afetos coletivos podem condensar-se em imagens e palavras de comando; mas o problema brasileiro não é uma massa naturalmente irracional. É a produção material e midiática de uma multidão frustrada, isolada e treinada a procurar inimigos em vez de relações sociais.
Os ataques de 8 de janeiro de 2023 foram uma expressão concentrada dessa dinâmica. A invasão das sedes dos Poderes não foi uma crítica popular à insuficiência da democracia; foi uma tentativa reacionária de impedir que o resultado eleitoral produzisse efeitos. Ainda assim, seria superficial encerrar a análise na condenação moral dos invasores. A mesma sociedade que viu grupos pedirem intervenção militar também aceita, quase sempre sem alarde, que o poder econômico vete políticas, que territórios indígenas sejam sacrificados à expansão predatória e que milhões de pessoas vivam sob a disciplina de trabalhos sem estabilidade. A democracia liberal reage com razão ao golpe explícito, mas frequentemente tolera o golpe permanente da desigualdade.
Quando o espetáculo substitui a participação
Debord descreveu uma sociedade em que a relação entre pessoas é mediada por imagens. No ambiente digital brasileiro, a política foi acelerada por essa lógica. A experiência coletiva se converte em fluxo de vídeos curtos, frases de efeito, escândalos e personagens. A plataforma recompensa atenção, não elaboração; o conflito social aparece como torcida. Não é apenas uma degradação cultural: é um modelo de negócios que transforma indignação em dado, permanência em tela em lucro e polarização em circulação.
Assim, a democracia liberal passa a ser vivida como consumo de posicionamentos. O cidadão é convocado a reagir incessantemente, mas raramente a organizar poder durável no bairro, no sindicato, na escola ou no local de trabalho. A participação parece intensa porque a fala é contínua; ela é fraca porque quase nada é decidido por quem fala. A publicidade política e o empreendedorismo digital completam a operação: a questão de classe se dissolve numa sucessão de identidades de consumo, especialistas de ocasião e líderes que prometem representar diretamente uma vontade popular que eles próprios fabricam como imagem.
Heidegger alertava que a técnica moderna não é mero conjunto de ferramentas neutras, mas um modo de enquadrar o real como reserva disponível. As plataformas fazem isso com trabalhadores, usuários e política. O entregador é geolocalização e desempenho; o eleitor é segmento; a revolta é métrica de engajamento. Não basta, por isso, pedir educação midiática como se o problema fosse apenas o uso correto de aparelhos. É preciso enfrentar a propriedade e a lógica econômica das infraestruturas que organizam a visibilidade pública.
Defender direitos sem chamar o limite de vitória
A esquerda não deve entregar a defesa das liberdades democráticas aos liberais que as invocam seletivamente. Defender eleições, imprensa livre, direito de greve, garantias processuais, universidades e movimentos sociais é defender condições reais para que os de baixo possam lutar. Mas tratar a restauração institucional posterior ao bolsonarismo como solução suficiente é confundir interrupção da catástrofe com superação de suas causas.
Uma democracia digna desse nome exige avançar sobre o espaço que o liberalismo declara privado: o comando da produção, a organização do trabalho, a concentração dos meios de comunicação e a submissão da vida ao lucro. Exige sindicatos capazes de alcançar trabalhadores de plataforma, serviços públicos que não sejam esmola residual, tributação que enfrente privilégios e formas coletivas de decisão que sobrevivam ao calendário eleitoral. A democracia liberal pode ser um campo de defesa e disputa; não é o horizonte final da emancipação. Enquanto a maioria votar sem controlar as condições materiais de sua existência, a igualdade política continuará sendo, para muitos, a cerimônia periódica de uma liberdade que o capitalismo já havia restringido antes da abertura das urnas.
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