Abstenção não é apenas a ausência registrada pela Justiça Eleitoral no dia da votação. É também o nome de uma relação rompida entre parcelas da classe trabalhadora e uma democracia que lhes exige presença ritual, mas lhes oferece precariedade como regra. Quando o debate público trata quem não vota como ignorante, irresponsável ou naturalmente inclinado ao autoritarismo, transforma uma questão política em defeito individual. É um expediente confortável para as elites partidárias, empresariais e midiáticas: em vez de perguntar por que tanta gente deixou de reconhecer sua vida nas instituições, culpa-se quem já foi privado de poder.
Isso não significa romantizar a não participação. A abstenção pode favorecer candidaturas reacionárias organizadas, máquinas religiosas, grupos econômicos e redes de desinformação que mobilizam seus próprios eleitorados com disciplina. Mas é precisamente por isso que ela precisa ser compreendida, e não insultada. Quem deixa de votar não compõe um bloco homogêneo, muito menos uma vanguarda espontânea. Há desinteresse, há repulsa, há impedimento material, há descrença, há cálculo e há cansaço. Reduzir tudo à preguiça cívica serve para preservar intactas as condições que produzem esse afastamento.
A abstenção começa antes da urna
O trabalhador de aplicativo que passa o domingo conectado para alcançar uma meta não vive a eleição como o cidadão abstrato dos manuais escolares. Ele vive sob a pressão de uma plataforma que altera tarifas, distribui corridas opacamente e pune a recusa de trabalho sem lhe reconhecer vínculo empregatício. O entregador pode até chegar à seção eleitoral; o problema mais fundo é que a urna aparece para ele como uma interrupção de uma rotina governada por empresas que nenhum voto parece constranger. A política institucional fala em empreendedorismo, inovação e liberdade; sua jornada fala em risco transferido, custo de manutenção e renda incerta.
O mesmo vale para a atendente de call center submetida a pausas cronometradas, para a professora sobrecarregada por metas e burocracias, para o auxiliar que gasta horas em ônibus e para a mãe que não encontra com quem deixar os filhos. O voto é obrigatório no plano jurídico, mas a participação democrática exige tempo, estabilidade, informação e a experiência de que a voz produz efeitos. Sob o neoliberalismo, esses recursos são distribuídos de forma brutalmente desigual. A classe dominante dispõe de dinheiro, assessoria, jornais, fundações, lobistas e acesso direto a gabinetes. Ao trabalhador, oferece-se uma breve passagem pela cabine eleitoral e a fábula de que esse gesto, isoladamente, iguala todos.
Marx não tratava o Estado moderno como uma esfera pairando acima das classes. A forma política da igualdade convive com a desigualdade real da produção e da propriedade. Cada eleitor vale formalmente um voto; mas alguns financiam campanhas, controlam meios de comunicação, especulam sobre políticas públicas e definem o horizonte do aceitável. A abstenção cresce no terreno dessa contradição: a pessoa é reconhecida como soberana por alguns minutos, enquanto permanece submetida, todos os dias, ao poder do patrão, do credor, do proprietário e da plataforma.
Quando a democracia aparece como espetáculo
Guy Debord escreveu que o espetáculo não é uma coleção de imagens, mas uma relação social mediada por imagens. A campanha eleitoral contemporânea confirma essa tese com precisão incômoda. A disputa é convertida em cortes de vídeo, frases de efeito, escândalos calibrados por algoritmo e personagens que precisam parecer autênticos diante da câmera. Problemas materiais — aluguel, tarifa, fila de saúde, salário, endividamento — viram cenários para a performance de candidatos. A política se apresenta como consumo de identidades: escolhe-se o gestor eficiente, o homem comum, a mãe corajosa, o empresário salvador, o justiceiro.
Nesse ambiente, o eleitor que se afasta não está necessariamente fora da política; frequentemente está saturado de sua versão espetacular. Ele percebe que promessas se sucedem e que seu bairro continua sem transporte digno, sua escola sem estrutura e seu posto de saúde sem equipe suficiente. A percepção pode ser difusa e até assumir formas conservadoras, como o desprezo genérico por “políticos”. Ainda assim, ela nasce de uma experiência real de separação entre governantes e governados. O erro da esquerda é abandonar essa experiência ao discurso antipolítico da extrema direita, que captura a revolta contra as instituições para destruir justamente os poucos instrumentos coletivos capazes de limitar o capital.
O bolsonarismo prosperou nesse vazio ao converter frustração social em guerra moral. Ele não enfrentou os poderes econômicos que organizam a precarização; ofereceu inimigos mais fáceis, como professores, movimentos sociais, artistas, pessoas negras, mulheres, indígenas e servidores públicos. Sua promessa de ruptura era uma encenação autoritária: atacava o sistema enquanto protegia privilégios, celebrava a violência estatal e naturalizava a submissão do trabalho. Para parte dos abstencionistas, a recusa em votar pode ser uma distância crítica dessa encenação; para outra parte, pode ser a porta de entrada para o cinismo que torna o fascismo possível. A diferença não se resolve com sermão eleitoral.
O moralismo contra quem falta protege quem manda
A reação habitual à abstenção é moralista porque ela evita a crítica da representação. Comentaristas perguntam por que o cidadão não cumpriu seu dever, mas raramente perguntam por que partidos se profissionalizaram em torno de mandatos, fundos e acordos que mal atravessam a vida popular. Cobram confiança em instituições que, em muitos territórios, só aparecem como polícia, cobrança, despejo ou promessa de campanha. Exigem fé democrática de quem aprende cedo que direitos dependem de humilhação administrativa, favor pessoal ou decisão judicial inacessível.
Alysson Mascaro insiste que o direito e o Estado não são recipientes neutros, disponíveis em igual medida para todos os interesses. Eles pertencem à forma social capitalista e operam dentro de seus limites estruturais. Isso não autoriza desistir das eleições ou desprezar conquistas institucionais; autoriza, isto sim, recusar a ilusão de que a democracia se esgota nelas. Defender a participação eleitoral sem enfrentar a captura econômica do Estado é pedir que a população confirme periodicamente uma ordem que a mantém sem moradia, sem trabalho protegido e sem poder sobre a produção.
A urna pode barrar derrotas e abrir brechas; ela não substitui a organização capaz de transformar brechas em força social.
Há uma diferença decisiva entre criticar a democracia liberal e abandonar o campo democrático aos seus inimigos. O primeiro gesto exige ampliar direitos, enfrentar a concentração de riqueza, democratizar a comunicação, proteger organização sindical e reconstruir serviços públicos. O segundo aceita que a descrença popular seja administrada por bilionários, pastores-políticos, operadores de desinformação e candidatos que vendem ordem como sinônimo de repressão. A extrema direita sabe mobilizar ressentimentos porque fala, ainda que de modo fraudulento, à sensação de abandono. A esquerda precisa falar dela sem mentir sobre suas causas.
Transformar ausência em conflito organizado
A resposta à abstenção não é uma campanha publicitária para tornar a política mais simpática. É fazer a política voltar a incidir sobre a vida concreta. Um trabalhador não recupera confiança porque recebeu uma notificação lembrando a data da eleição; recupera-a quando percebe que sua organização conquistou aumento, reduziu jornada, impediu uma remoção, garantiu creche, conteve uma privatização ou derrotou uma violência patronal. A participação não nasce de uma palestra sobre cidadania. Nasce da experiência coletiva de que os poderosos podem ser enfrentados.
Isso inclui disputar eleições, especialmente onde elas podem impedir o avanço fascista e defender condições mínimas de sobrevivência. Mas inclui não mentir sobre seus limites. A democracia brasileira será tanto mais viva quanto menos depender do eleitor solitário e quanto mais for sustentada por sindicatos combativos, associações de bairro, movimentos de moradia, coletivos estudantis e organizações capazes de ligar demandas imediatas a uma crítica do capitalismo.
A abstenção é um alarme, não um argumento automático. Ela revela que a promessa de representação perdeu credibilidade para uma parte da população; revela também que o capital conseguiu fragmentar o tempo, a atenção e os vínculos de quem trabalha. Escutar esse alarme significa rejeitar a culpa fácil e reconstruir poder popular onde hoje há isolamento. Sem isso, cada eleição continuará convocando cidadãos formalmente iguais para retornar, no dia seguinte, à desigualdade que torna sua voz tão frágil.
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