Antipetismo significa, em seu sentido político mais preciso, a transformação da rejeição ao Partido dos Trabalhadores em uma visão de mundo: o PT deixa de ser um partido concreto, passível de crítica por seus governos, alianças e limites, para virar a explicação absoluta de quase todo mal brasileiro. Corrupção, violência, desemprego, falência dos serviços públicos, crise moral e até ameaças imaginárias à família passam a ser reunidos sob um mesmo inimigo. Não se trata, portanto, de simples discordância eleitoral nem de crítica de esquerda aos governos petistas. Trata-se de uma ideologia que personaliza contradições históricas do capitalismo brasileiro e as deposita num alvo conveniente.

Essa operação foi decisiva para reorganizar a direita no país e abrir caminho ao bolsonarismo. Ela fez com que parcelas da população aceitassem políticas contrárias aos seus próprios interesses materiais, desde que apresentadas como uma derrota do inimigo petista. O trabalhador que perde direitos, o morador da periferia exposto à violência policial e o pequeno comerciante esmagado por juros podem, sob essa lógica, imaginar que seu problema principal é a existência de Lula ou do PT, e não a estrutura econômica e estatal que os subordina.

Antipetismo significado não é o mesmo que crítica ao PT

Confundir antipetismo com crítica ao PT interessa justamente aos antipetistas. Há razões legítimas para discutir os governos petistas: a conciliação com frações do grande capital, as alianças com oligarquias regionais, os limites da política de segurança, a preservação de mecanismos financeiros que transferem renda pública aos detentores de riqueza e a incapacidade de alterar profundamente a estrutura agrária e tributária. Uma crítica marxista não precisa apagar essas questões; ao contrário, precisa examiná-las para compreender os limites de um reformismo administrado dentro da ordem capitalista.

O antipetismo faz o oposto. Ele não investiga mediações, classes sociais ou instituições. Não pergunta por que a desigualdade persiste sob governos de orientações distintas, por que bancos acumulam poder, por que o Congresso funciona como barreira a reformas populares ou por que a polícia mata sobretudo pobres e negros. Ele substitui análise por ressentimento. Se um escândalo envolve empresários, partidos, órgãos de controle e contratos públicos, a narrativa antipetista reduz tudo a uma essência petista. Se a economia piora depois de uma mudança de governo, a culpa ainda é atribuída a uma herança sem fim. O partido torna-se uma espécie de pecado original da República.

Essa simplificação é politicamente útil porque absolve os poderes permanentes. Grandes grupos econômicos, proprietários de meios de comunicação, cúpulas burocráticas e forças conservadoras aparecem como espectadores virtuosos de uma corrupção cuja causa estaria concentrada no adversário. A corrupção, porém, não é um vício que caiu do céu sobre uma sigla. Ela se relaciona a um Estado moldado por interesses privados, ao financiamento empresarial que por muito tempo estruturou campanhas, à contratação pública em uma economia concentrada e à própria mercantilização da política. Isolar o PT como encarnação exclusiva do problema é ocultar a máquina social que torna o problema recorrente.

Do descontentamento social à fabricação de um inimigo

O antipetismo ganhou força ao capturar insatisfações reais. Quem enfrentava filas no posto de saúde, transporte precário, salário curto ou serviços públicos degradados não estava inventando seu mal-estar. Mas a experiência imediata não se explica sozinha. Sem organização política e sem leitura das relações de classe, ela pode ser conduzida por quem oferece um culpado simples. A indústria cultural, as redes sociais e setores da imprensa tiveram papel central nessa condensação: acontecimentos distintos foram convertidos, dia após dia, numa narrativa moral sobre um inimigo único.

Guy Debord ajuda a compreender esse mecanismo. Na sociedade do espetáculo, a relação com a política é mediada por imagens repetidas, personagens e escândalos que substituem a investigação das relações sociais. A política vira uma série dramática: de um lado, os cidadãos supostamente honestos; de outro, um partido apresentado como quadrilha onipotente. Nesse roteiro, a concentração de riqueza não é uma relação de poder; é cenário. A exploração no trabalho não é questão pública; é infortúnio individual. E o empresário que reduz salários ou terceiriza setores aparece com mais facilidade como gerador de empregos do que como agente de extração de mais-valia.

O entregador de aplicativo ilustra a perversidade dessa deslocação. Sua jornada é organizada por uma plataforma que define preços, distribui chamadas, bloqueia perfis e transfere os custos da atividade para ele: bicicleta ou moto, combustível, manutenção, seguro e risco de acidente. Ainda assim, a ideologia antipetista pode ensiná-lo a ler sua precariedade apenas como efeito de impostos, burocracia ou de um passado atribuível ao PT. A empresa que controla seu trabalho por algoritmo desaparece da narrativa. O capital ganha anonimato; o inimigo partidário recebe todos os rostos.

Lawfare, moralismo seletivo e a crise da representação

A ascensão do antipetismo não pode ser separada da centralidade que a linguagem judicial assumiu na disputa política brasileira. O termo lawfare designa o uso estratégico de procedimentos jurídicos e de sua publicidade para produzir efeitos de guerra política. Não implica negar a necessidade de apuração de crimes ou tratar qualquer investigado como inocente por definição. Implica reconhecer que instituições não atuam fora da história e que seletividade, vazamentos, espetacularização e calendários políticos podem deslocar a justiça de sua finalidade declarada.

Quando a suspeita é convertida em espetáculo contínuo, a condenação social pode anteceder e sobreviver ao próprio processo. O problema não é apenas jurídico: é ideológico. A repetição de imagens de prisões, delações e manchetes cria uma atmosfera na qual a política popular se torna sinônimo de crime, enquanto a violência cotidiana do mercado preserva seu verniz de normalidade. Demitir milhares em nome da rentabilidade, cobrar juros extorsivos ou lucrar com a fome não gera a mesma indignação ritualizada. A moral pública é treinada para enxergar certos delitos e ignorar outras formas, mais estruturais, de expropriação.

Alysson Mascaro insiste que o Estado e o direito não são ferramentas neutras pairando acima das classes. Eles são formas sociais do capitalismo, capazes de absorver conflitos e reproduzir a ordem da mercadoria. Isso não significa que toda decisão estatal seja idêntica ou que direitos sejam irrelevantes para os trabalhadores. Significa que não basta confiar na forma jurídica para explicar a política. O antipetismo floresceu quando essa forma foi tratada como verdade pura e a disputa social foi rebaixada a uma cruzada de purificação moral.

Por que o antipetismo serviu ao bolsonarismo

O bolsonarismo não criou o antipetismo, mas levou suas premissas às últimas consequências. Se o PT é apresentado como inimigo absoluto, qualquer força que prometa destruí-lo pode reivindicar licença para atacar instituições, difundir mentiras, defender tortura, militarizar a vida pública ou ameaçar eleições. A passagem da indignação ao autoritarismo ocorre porque o inimigo não é visto como adversário político, mas como ameaça existencial. A extrema direita oferece então uma fantasia de limpeza: eliminar o partido, silenciar professores, perseguir movimentos sociais, armar a população e restaurar uma ordem imaginária.

Essa fantasia tem traços fascistas porque substitui conflito social por unidade nacional forçada, e desigualdade por ódio a grupos convertidos em inimigos. O trabalhador não é chamado a reconhecer sua posição diante do patrão; é convocado a se identificar com uma pátria abstrata, com a polícia ou com o empresário. O professor de escola pública, que trabalha sob pressão por resultados, falta de recursos e desvalorização, pode ser acusado de doutrinação. O atendente de call center, monitorado por segundos de pausa e metas inalcançáveis, é levado a odiar uma caricatura de esquerda em vez de questionar a empresa que compra seu tempo e regula até sua voz.

O antipetismo também sobrevive quando o bolsonarismo perde eleições porque não depende apenas de um líder. Ele se alimenta de redes de comunicação, de interesses econômicos e de uma formação social marcada por escravidão, autoritarismo e anticomunismo. Sua persistência revela uma dificuldade brasileira de nomear os verdadeiros centros de poder. É mais fácil culpar um partido por tudo do que admitir que a desigualdade é produzida por uma classe dominante que atravessa governos, financia campanhas, influencia o Estado e transforma necessidades humanas em oportunidades de negócio.

Recusar o inimigo fácil para recuperar a política

Enfrentar o antipetismo não exige santificar o PT, nem esquecer suas concessões e contradições. Exige recusar a fraude de que toda crítica ao capitalismo brasileiro deva terminar na demonização de um partido. A pergunta decisiva é outra: quem controla a riqueza, quem define as condições de trabalho, quem lucra com a precarização e quais instituições protegem esse poder? Sem essas perguntas, a política vira torcida moral e o povo é convocado a combater sintomas enquanto as causas permanecem intocadas.

O significado político do antipetismo está precisamente nessa inversão. Ele promete crítica, mas protege a ordem; promete combate à corrupção, mas naturaliza a apropriação privada da riqueza social; promete libertação, mas prepara terreno para o autoritarismo. Desarmar essa ideologia é recolocar no centro aquilo que ela tenta esconder: a luta de classes, a exploração do trabalho e a necessidade de uma democracia que não se reduza à alternância administrada entre gestores do mesmo capitalismo.