O ataque às sedes dos Três Poderes, em Brasília, em 8 de janeiro de 2023, não foi uma irrupção inexplicável de loucura coletiva. Foi um episódio de organização política reacionária que utilizou, com eficiência, os mecanismos da psicologia das multidões. A imagem de milhares de pessoas vestidas de verde e amarelo, tomadas por uma certeza compartilhada e agindo contra a realidade mais elementar — a eleição havia terminado, o resultado era público, não havia golpe comunista em curso — permite enxergar algo decisivo: uma multidão não nasce do nada, nem se sustenta apenas na credulidade de indivíduos isolados. Ela é produzida, treinada, convocada e dirigida.

Gustave Le Bon percebeu que, na multidão, o julgamento individual pode ceder lugar ao contágio afetivo, à sugestão e à identificação com uma força coletiva. Mas sua formulação carregava o medo conservador das massas populares que emergiam na Europa. Para ele, a multidão aparecia frequentemente como ameaça irracional à ordem. Uma crítica marxista precisa inverter a pergunta: não basta dizer que a massa se deixa conduzir; é preciso investigar quem possui os meios materiais e simbólicos para conduzi-la, quais medos são acionados e por que parcelas da classe trabalhadora podem ser empurradas a defender projetos que aprofundam sua própria exploração.

O 8 de Janeiro não foi uma explosão sem autores

O bolsonarismo passou anos construindo uma comunidade de crença. Lives presidenciais, correntes de WhatsApp, canais de vídeo, cultos transformados em palanque, empresários financiando deslocamentos e uma máquina profissional de comunicação compuseram uma infraestrutura de mobilização. Não se trata de imaginar uma sala secreta que controla cada gesto de quem vai à rua. A operação é mais eficiente e mais difusa: repete-se uma linguagem, selecionam-se inimigos, fabricam-se urgências, recompensa-se socialmente a adesão e chama-se de coragem aquilo que, em outro contexto, seria reconhecido como submissão a uma cadeia de comando.

No acampamento golpista e na invasão de Brasília, o indivíduo encontrava uma comunidade que lhe oferecia pertencimento, missão e uma explicação simples para angústias reais. A perda de renda, o medo do desemprego, o endividamento, o abandono dos serviços públicos e a sensação de desorientação não eram nomeados como produtos do capitalismo brasileiro. Em seu lugar, apareciam fantasmas convenientes: o comunismo, os professores, os artistas, o Supremo, a imprensa, os pobres que acessam políticas públicas, qualquer figura que pudesse concentrar a culpa pelo mal-estar social.

Essa substituição é o núcleo ideológico do processo. A extrema direita não inventa a precariedade que mobiliza seus seguidores; ela a sequestra. Quando um trabalhador é levado a acreditar que seu problema é a suposta corrupção moral de uma minoria ou a existência de direitos sociais, ele deixa de mirar o patrão, o rentista, a plataforma, o banco e o Estado organizado para garantir a reprodução da propriedade privada. A multidão reacionária é uma forma política de desvio da luta de classes.

O ressentimento tem jornada, meta e salário atrasado

É cômodo tratar todo participante de uma manifestação bolsonarista como se fosse apenas um sujeito excepcionalmente ignorante ou perverso. Isso absolve as estruturas que fabricam desamparo e, ao mesmo tempo, conserva uma distância moral estéril. Há empresários, militares, quadros políticos e operadores digitais que cumprem funções conscientes na engrenagem fascistizante. Mas há também trabalhadores capturados por ela. Entender a captura não significa inocentar quem praticou violência ou aderiu a um projeto golpista; significa recusar a explicação preguiçosa que atribui um fenômeno social de grande escala a defeitos individuais.

O entregador de aplicativo que pedala sob chuva, sem salário garantido, sem proteção efetiva e sob o comando invisível de um algoritmo, vive uma experiência cotidiana de impotência. O aplicativo lhe vende a palavra parceiro, enquanto altera ganhos, bloqueia contas e distribui corridas segundo critérios que ele não controla. O operador de call center é vigiado pelo tempo de pausa, pela duração de cada atendimento e por avaliações automáticas; o professor acumula turmas, formulários e a obrigação de provar continuamente sua produtividade; a trabalhadora terceirizada pode não saber, até o fim do mês, se continuará no posto.

Essas situações não produzem automaticamente consciência de classe. Marx já mostrava que a exploração não se apresenta de modo transparente: as relações entre pessoas assumem a aparência de relações naturais entre coisas, contratos, notas e preços. No capitalismo de plataforma, essa opacidade ganha a interface agradável do celular. O trabalhador recebe ordens da máquina e é convidado a chamar aquilo de liberdade. Quando não consegue sobreviver, escuta que faltou mérito, disposição empreendedora ou fé.

O bolsonarismo encontra terreno fértil justamente nesse sujeito isolado. Ele oferece uma identidade forte em troca da renúncia à análise. Em vez de reconhecer a empresa como relação de poder, aprende a odiar o Estado apenas quando este cobra impostos ou limita o arbítrio patronal. Em vez de exigir jornada menor e direitos, é chamado a admirar quem trabalha até a exaustão. Em vez de formar sindicato, é convidado a integrar uma multidão digital que compartilha vídeos de humilhação, slogans patrióticos e promessas de purificação nacional.

Da tela ao corpo, a indústria do contágio

Debord escreveu que o espetáculo não é uma coleção de imagens, mas uma relação social mediada por imagens. Isso ajuda a compreender por que a multidão bolsonarista não começa na praça nem termina no ato público. Ela é ensaiada diariamente na tela. O vídeo curto, o áudio alarmista e a transmissão ao vivo não apenas informam ou desinformam; eles organizam ritmos afetivos. Indignação, medo, nojo e euforia passam a circular numa velocidade que dificulta a interrupção reflexiva. A repetição cria a sensação de evidência: se todos no grupo dizem que uma fraude ocorreu, a ausência de prova pode ser tomada como prova de conspiração.

As plataformas lucram com atenção e interação, não com a qualidade democrática do debate. Conteúdos que excitam hostilidade e certeza tendem a manter as pessoas conectadas, e a arquitetura técnica oferece alcance desproporcional a quem aprendeu a transformar ressentimento em entretenimento. Não é necessário afirmar que um algoritmo, sozinho, produz fascismo. Ele não substitui partidos, empresários, igrejas, polícias, lideranças e financiamento. Mas integra uma maquinaria que reduz a política a estímulo e reação, tornando o adversário uma presença abstrata a ser eliminada.

Heidegger advertiu que a técnica moderna não é somente um conjunto de ferramentas neutras: ela enquadra o real, dispondo pessoas e coisas como reserva disponível para uso. A plataforma faz isso com o trabalhador e também com o usuário político. Um é convertido em dado de desempenho; o outro, em dado de engajamento. Ambos são administrados por sistemas que se apresentam como inevitáveis. A extrema direita aprendeu a habitar esse ambiente, fazendo da circulação incessante de conteúdo uma disciplina coletiva sem quartel visível.

A multidão pode ser disputada, mas não pela fantasia liberal do indivíduo soberano

O liberalismo costuma responder ao problema da massa com uma lição abstrata de responsabilidade individual: cada pessoa deveria checar fatos, moderar emoções e votar racionalmente. Há responsabilidade pessoal, sem dúvida, sobretudo quando a adesão se converte em violência. Mas essa resposta é insuficiente porque imagina indivíduos plenamente autônomos em uma sociedade que os fragmenta materialmente, os esgota no trabalho e os bombardeia com propaganda profissional. Não se derrota uma máquina de fabricação de crença apenas pedindo serenidade a quem foi socialmente treinado para sobreviver na insegurança.

A alternativa tampouco é desprezar toda ação coletiva como se multidão fosse sinônimo de barbárie. Greves, manifestações por moradia, mobilizações antirracistas e organizações populares também reúnem pessoas e produzem identificação comum. A diferença política está em seu conteúdo e em sua organização. Uma massa dirigida contra os de baixo, contra a democracia e contra direitos sociais reforça a dominação. Uma coletividade que reconhece as causas materiais do sofrimento e se organiza contra a exploração pode romper o isolamento que alimenta o ressentimento.

O que o 8 de Janeiro expôs foi a urgência de disputar as condições da vida comum. Não haverá imunidade ao fascismo enquanto milhões dependerem de bicos, metas impossíveis e dívidas, ouvindo que seu fracasso é pessoal e que qualquer proteção coletiva é privilégio. A psicologia das multidões deixa de ser uma curiosidade sobre comportamentos extremos quando se percebe que a solidão competitiva do neoliberalismo prepara, todos os dias, a fome por pertencimento que o bolsonarismo sabe explorar. Contra a multidão disciplinada pelo ódio, a tarefa é reconstruir organização de classe, linguagem comum e poder material para que trabalhadores deixem de ser matéria-prima de projetos que os mantêm ajoelhados.