Em janeiro de 2025, a mentira de que o governo cobraria imposto sobre cada transferência por Pix atravessou grupos de família, balcões de comércio, conversas de entregadores e telas de pequenos empreendedores. Não era uma dúvida técnica surgida espontaneamente diante de uma medida tributária complexa. A Receita Federal havia ampliado regras de prestação de informações por instituições financeiras e de pagamento, sem instituir imposto sobre transferências. Mas a distorção foi politicamente mais rentável do que o fato: transformou fiscalização em confisco, registro em cobrança e Estado em ladrão. Diante da avalanche, o governo revogou a norma. O episódio expôs o funcionamento material da milícia digital: não apenas a circulação de uma falsidade, mas sua capacidade de impor custos à política pública por meio do pânico organizado.
Seria cômodo reduzir tudo a um vídeo viral, a influenciadores inescrupulosos ou ao algoritmo de uma plataforma. Esses elementos importam, mas não explicam a força do fenômeno. A mentira prosperou porque encontrou uma população submetida ao endividamento, à informalidade e à insegurança permanente. Para quem vende marmita, faz corrida por aplicativo, presta serviço sem contrato ou recebe por fora para completar o salário, qualquer notícia de maior controle estatal parece imediatamente uma ameaça à sobrevivência. A extrema direita não inventou esse medo do nada. Ela o recolhe da experiência real de uma classe trabalhadora desprotegida e o devolve como ódio contra o Estado, contra os pobres e contra qualquer projeto de redistribuição.
A mentira encontra uma vida já precarizada
O entregador que pedala doze horas por dia sabe que sua renda oscila conforme chuva, demanda, bloqueios da plataforma e disposição física. Ele não dispõe de contador, férias, salário garantido ou tempo para decifrar normas da Receita. Quando recebe no celular uma mensagem dizendo que o Pix será taxado, a informação chega embalada como explicação simples para uma angústia concreta: o dinheiro mal entra e já parece destinado a sair. A mensagem oferece ainda um culpado imediato, geralmente o governo, a esquerda ou uma abstração chamada “sistema”. É uma operação ideológica de alta eficiência porque substitui a compreensão das estruturas por uma narrativa personalizada de perseguição.
Marx mostrou que a ideologia não é uma mentira que paira acima da sociedade; ela organiza a aparência das relações sociais e torna natural aquilo que tem história e interesse de classe. O trabalhador informal não é vulnerável à mentira por falta de inteligência ou por algum defeito moral. Ele está inserido numa ordem que lhe nega estabilidade e, depois, exige que administre individualmente os riscos que o capital e o Estado neoliberal lhe impõem. A milícia digital explora essa solidão. Ela apresenta o trabalhador como um pequeno proprietário sitiado, não como parte de uma classe expropriada por bancos, plataformas, aluguéis, juros e jornadas sem limite.
É por isso que a conversa sobre Pix raramente permanece no Pix. A falsidade técnica abre passagem para uma visão de mundo: o empresário é sempre vítima; o trabalhador informal é um empreendedor heroico; impostos são sempre roubo; direitos sociais são privilégios; sindicatos são entraves; e qualquer controle sobre fluxos econômicos é preparação para uma ditadura comunista imaginária. O resultado é uma forma de alienação particularmente cruel. A pessoa que sofre com a exploração passa a defender as forças que aprofundam sua vulnerabilidade, desde que elas lhe ofereçam um inimigo mais visível do que o patrão, o banco ou a plataforma.
Da plataforma ao comando político
Não é preciso alegar que cada perfil que repetiu a falsidade integrava formalmente uma organização criminosa para reconhecer uma dinâmica de milícia digital. A questão decisiva é a existência de circuitos de produção, legitimação e amplificação que convertem uma peça de propaganda em senso comum. Perfis com grande alcance lançam uma moldura emocional; canais, páginas e influenciadores a recortam em vídeos curtos; grupos fechados a fazem chegar ao cotidiano; usuários comuns a reenviam, convencidos de que estão apenas protegendo amigos e clientes. Ao final, a mentira parece ter nascido em toda parte e, por isso, parece verdadeira.
A técnica das plataformas favorece essa cadeia. O conteúdo que provoca medo, indignação e sensação de revelação secreta retém atenção, produz comentário, encaminhamento e permanência na tela. Debord descreveu uma sociedade em que a relação social aparece mediada por imagens. Nas redes, essa mediação se radicaliza: a imagem não somente representa o conflito político, mas passa a organizar o próprio modo pelo qual ele é vivido. Um vídeo de poucos minutos, com voz grave, legendas enfáticas e gestos de indignação, pode parecer mais confiável do que uma explicação institucional porque oferece uma experiência afetiva imediata. A verdade, que exige contexto e tempo, perde para o espetáculo, que oferece certeza instantânea.
Heidegger advertiu que a técnica moderna não é apenas um conjunto neutro de ferramentas; ela enquadra o mundo segundo formas específicas de disponibilidade e cálculo. A plataforma não obriga alguém a mentir, mas estrutura incentivos que fazem da atenção uma mercadoria e da reação um dado negociável. Nessa arquitetura, o ressentimento é matéria-prima barata. O medo de pagar uma taxa, de perder um benefício ou de ser enganado pelo Estado torna-se tráfego; o tráfego se torna visibilidade; a visibilidade se transforma em poder político e, em certos casos, em receita. A milícia digital é a forma politicamente organizada dessa economia da atenção: uma indústria que lucra com a corrosão da confiança coletiva.
O bolsonarismo como gestão do desamparo
O bolsonarismo aprendeu a falar com o desamparo sem jamais enfrentar suas causas. Sua promessa não é ampliar a proteção social, regular plataformas ou reduzir a dependência do trabalhador diante de bancos e grandes empresas. Sua promessa é oferecer pertencimento por meio da guerra cultural. Quem está sozinho diante da tela encontra uma comunidade que compartilha suspeitas, inimigos e palavras de ordem. Le Bon, ao analisar as multidões, observou a potência do contágio e da sugestão. As redes contemporâneas dão a esse contágio uma infraestrutura permanente: a multidão não precisa ocupar uma praça; ela pode habitar o bolso do trabalhador durante toda a jornada.
Essa comunidade, porém, não é solidária. Ela mobiliza o comerciante contra o consumidor pobre, o trabalhador formal contra o beneficiário de programa social, o motorista de aplicativo contra qualquer regra que possa limitar a exploração da empresa. A linguagem da liberdade encobre uma política de abandono. Quando a extrema direita grita contra uma imaginária taxação do Pix, ela não está defendendo o ambulante contra a carga tributária regressiva que pesa sobre consumo e renda baixa. Está capturando sua revolta para preservá-la longe dos grandes proprietários, dos rentistas e das corporações digitais que efetivamente extraem valor de seu trabalho.
Alysson Mascaro insiste que o Estado não está acima das relações capitalistas como árbitro puro, mas é atravessado por suas formas e limites. Isso não autoriza a fantasia liberal de que todo Estado é inimigo idêntico da população. Ao contrário: disputar políticas públicas, fiscalização democrática e proteção do trabalho importa precisamente porque o mercado não protege ninguém. A mentira sobre o Pix conseguiu inverter esse problema. Fez parecer que a ameaça vinha exclusivamente de uma norma estatal, enquanto a exploração cotidiana realizada por aplicativos, bancos e atravessadores permanecia invisível, como se fosse parte da natureza.
Responder à milícia é reconstruir vínculos de classe
O combate à milícia digital não se resume a apagar publicações, embora transparência algorítmica, responsabilização de financiadores e limites à monetização da mentira sejam indispensáveis. Tratar a questão apenas como desinformação individual deixa intacto o terreno social que torna a fraude persuasiva. Uma comunicação pública que fale de modo claro é necessária, mas não basta quando a vida material ensina diariamente que o trabalhador está por sua conta. A correção de uma mentira chega tarde se o salário continua insuficiente, se a jornada continua exaustiva e se uma doença ou uma semana fraca de entregas pode destruir o orçamento doméstico.
O antídoto duradouro é político: direitos para quem trabalha por plataforma, renda e serviços públicos que reduzam o terror da sobrevivência, organização coletiva nos locais de trabalho e formas de comunicação que não tratem a população como audiência passiva. A milícia digital cresce onde a classe se vê fragmentada em indivíduos concorrentes e assustados. Enfraquecê-la exige devolver nome ao que parece destino pessoal. O medo do Pix não era apenas ignorância sobre uma regra; era a expressão deformada de uma vida tornada insegura pelo capitalismo brasileiro. Enquanto essa insegurança for administrada como oportunidade de negócio e combustível eleitoral, haverá sempre alguém pronto para vender uma nova mentira com aparência de proteção.
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