Na eleição de 2022, o voto útil não foi uma abstração de comentarista nem uma manobra de bastidor. Ele atravessou a conversa de família, o grupo de WhatsApp do trabalho, a pausa curta do call center, o intervalo da escola, a espera do entregador na porta do restaurante. Muita gente que preferia outra candidatura, que tinha críticas concretas ao lulismo, ao arranjo de conciliação e aos limites do programa apresentado, escolheu Lula já no primeiro turno ou passou a defendê-lo como única alternativa aceitável. Não porque tivesse desaparecido a divergência, mas porque a continuidade de Jair Bolsonaro no poder carregava uma ameaça imediata: mais violência política, mais destruição ambiental, mais arma nas mãos do bolsonarismo, mais ataque às instituições públicas e mais autorização social para a brutalidade contra pobres, negros, mulheres, indígenas e dissidentes.
Convém dizer sem a covardia da falsa equivalência: derrotar Bolsonaro era necessário. O bolsonarismo não era uma preferência conservadora comum em competição com projetos equivalentes. Era, e continua sendo, uma forma brasileira de neofascismo, capaz de transformar ressentimento social em licença para perseguir, mentir, eliminar direitos e tratar a morte dos outros como espetáculo. O voto útil de 2022 teve, nesse sentido, uma dimensão defensiva legítima. Mas a necessidade daquela defesa não obriga ninguém a celebrar o mecanismo que a tornou necessária. Pelo contrário: é preciso perguntar por que a democracia brasileira chega repetidamente a uma situação em que milhões de trabalhadores precisam votar sob a pressão de impedir uma catástrofe.
2022 foi uma eleição sob chantagem social
O eleitor que antecipou seu voto em Lula não agia apenas diante das pesquisas ou das análises televisivas sobre chance de vitória. Agia sob uma experiência material acumulada. Depois da pandemia administrada com desprezo criminoso pela vida, da inflação corroendo a compra no mercado, do desemprego e da informalidade, da explosão do trabalho por aplicativo e da deterioração dos serviços públicos, a eleição parecia menos uma ocasião para escolher um projeto e mais uma barricada mínima. Para quem precisava rodar doze horas numa motocicleta para pagar aluguel, para quem atendia clientes monitorado por metas impossíveis, para a professora que via a escola pública atacada por cortes e militarização ideológica, a promessa bolsonarista de ordem significava desamparo com farda, Bíblia e arma.
A chantagem não vinha somente de Bolsonaro. Ela era produzida por uma estrutura política que reduz a possibilidade de representação antes mesmo do dia da votação. Campanhas custam caro, partidos dependem de máquinas, o tempo de televisão e a cobertura jornalística distribuem viabilidade como quem distribui crédito. O que aparece ao trabalhador como escolha individual — abandonar ou manter sua candidatura preferida — já foi moldado por instituições, dinheiro, pesquisas e pelos interesses das classes dominantes. A urna registra uma decisão; não registra as condições estreitas em que ela foi tomada.
É aí que o voto útil deixa de ser apenas uma tática eleitoral e aparece como sintoma. Ele mostra uma democracia em que o campo do possível foi administrado de tal forma que uma parcela da população só se sente livre para escolher o mal menor. A liberdade formal do voto permanece: ninguém é obrigado juridicamente a apertar um número. Mas a liberdade concreta é comprimida pela ameaça real de que o outro resultado abra caminho para a perseguição, a fome, a destruição e a violência. Marx mostrou que a aparência de liberdade no capitalismo convive com relações materiais que submetem os indivíduos a necessidades que eles não controlam. Também na eleição, a escolha pode ser livre na forma e coagida no conteúdo.
O trabalhador aprende a votar como aprende a sobreviver
O capitalismo brasileiro educa sua força de trabalho para a adaptação permanente. O entregador é chamado de empreendedor, embora o aplicativo determine preço, trajeto, bloqueio e ritmo. A operadora de telemarketing é cobrada por desempenho, embora não controle o sistema que mede cada segundo de sua fala. O professor recebe mais tarefas e menos condições, enquanto lhe dizem que tudo depende de esforço individual. Essa pedagogia da precariedade ensina que não há tempo, segurança ou força coletiva para desejar muito: é preciso aceitar a corrida disponível, o bico disponível, o salário disponível.
O voto útil pode reproduzir, no plano eleitoral, essa mesma lógica de sobrevivência. Não se trata de acusar o eleitor que fez o cálculo defensivo; seria uma perversidade exigir pureza política de quem estava diante de um perigo efetivo. Trata-se de perceber que a sociedade que obriga alguém a aceitar qualquer corrida para não passar fome é parecida com a sociedade que, a cada pleito, exige que ele esqueça seu programa preferido para impedir o pior. Em ambos os casos, a emergência devora o horizonte. A vida fica organizada pela administração do dano.
Guy Debord descreveu uma sociedade em que a experiência social é mediada por imagens e representações separadas da vida real. A eleição-espetáculo acentua essa separação. Debates viram recortes, candidatos viram marcas, pesquisas viram placar de campeonato e a política aparece como torcida entre personagens. Em 2022, a urgência antifascista era concreta, mas sua circulação espetacular também transformou a disputa em uma contagem ansiosa de chances. A pergunta decisiva — que forças sociais podem mudar as condições de vida de quem trabalha? — foi frequentemente substituída por outra, mais estreita: quem consegue vencer?
Essa substituição interessa à ordem existente. Quando a política se limita a encontrar o nome capaz de derrotar o adversário mais perigoso, os problemas que produzem o perigo ficam em segundo plano. A concentração de renda, o poder das plataformas, o agronegócio predatório, a financeirização do Estado, o controle privado da comunicação e a fragilização sindical continuam operando. O fascismo não cai do céu como uma loucura coletiva sem base social. Ele cresce onde a insegurança material encontra desorganização política, onde o trabalhador é abandonado por instituições que prometiam proteção e onde o ressentimento pode ser dirigido contra inimigos mais frágeis em vez de contra os donos do poder.
A derrota de Bolsonaro não eliminou a máquina que o produziu
O resultado de 2022 interrompeu uma ofensiva autoritária e impediu que Bolsonaro usasse a reeleição para aprofundar seu projeto. Isso importa, e muito. A defesa da democracia não é um luxo liberal: para sindicatos, movimentos populares, povos indígenas, universidades, jornalistas e trabalhadores perseguidos, o espaço democrático é condição de luta. Só que defender esse espaço não significa confundir sua preservação com transformação social. A democracia burguesa pode permitir a troca de governos enquanto mantém intacta a dominação do capital sobre o trabalho.
Alysson Mascaro insiste que o Estado e o direito não são terrenos neutros pairando acima das classes. Eles organizam e estabilizam as relações sociais do capitalismo, ainda que também possam ser disputados e arrancados por pressão popular. Essa percepção impede duas ilusões contrárias. A primeira é achar que basta eleger um governo progressista para que as estruturas se curvem espontaneamente à maioria. A segunda é desprezar a eleição como se toda disputa institucional fosse inútil. O problema não está em votar para barrar a extrema direita; está em entregar à urna, sozinha, a tarefa que depende de organização cotidiana, conflito social e construção de poder dos de baixo.
Quando o voto útil se torna hábito sem resto, ele produz uma espécie de rebaixamento preventivo da política. Programas mais ambiciosos são tratados como inconvenientes, candidaturas de esquerda fora do centro são vistas apenas como ameaça à contabilidade eleitoral, e toda crítica ao governo eleito pode ser denunciada como ajuda ao fascismo. A extrema direita ganha duas vezes: primeiro, pelo terror que espalha; depois, por fazer com que seus adversários aceitem viver para sempre em função dela. Uma sociedade que só consegue imaginar a política como contenção do pior abandona a tarefa de construir o melhor.
Enxergar a necessidade sem transformar medo em destino
Depois de 2022, a pergunta não deveria ser se o eleitor fez certo ao impedir Bolsonaro. Fez. A pergunta mais difícil é o que ele percebe quando entende que aquela decisão foi também uma resposta a uma estrutura de medo. Ele deixa de tratar a própria escolha como defeito moral ou como heroísmo individual. Vê que sua urgência foi compartilhada por milhões de pessoas submetidas a condições semelhantes, e que essa experiência pode se tornar ponto de partida para uma política menos solitária.
Isso muda o sentido do próximo voto. Ele continua podendo ser instrumento de defesa quando a ameaça fascista exigir. Mas deixa de ser apresentado como o único ato político possível e como substituto de um projeto de classe. O trabalhador que identifica a chantagem do voto útil pode cobrar programa, recusar a idolatria de candidatos, sustentar críticas ao governo que ajudou a eleger e reconhecer que a luta contra o bolsonarismo passa pelo salário, pela moradia, pelo transporte, pelo trabalho regulado nas plataformas e pela reconstrução de formas coletivas de organização.
O voto de 2022 salvou um terreno democrático que Bolsonaro queria devastar. Esse terreno não será ampliado por gratidão permanente nem por uma política reduzida ao pânico eleitoral. Ele só ganha outro conteúdo quando quem trabalha deixa de ser chamado à urna apenas para impedir o abismo e passa a disputar, com autonomia, as condições que fazem o abismo parecer inevitável.
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