Valor de uso é a qualidade concreta pela qual uma coisa serve para satisfazer uma necessidade humana: o alimento nutre, a moradia abriga, o transporte desloca, um computador permite trabalhar ou comunicar-se. Em Karl Marx, ele não se confunde com preço nem com lucro. Uma mercadoria só encontra comprador porque possui alguma utilidade, mas, no capitalismo, essa utilidade é submetida ao valor de troca: não basta que algo seja necessário; é preciso que possa ser vendido de modo rentável.

De onde vem o conceito

Marx desenvolve o conceito ao analisar a mercadoria em O capital. Toda mercadoria possui uma dupla dimensão. De um lado, é valor de uso: tem propriedades materiais ou práticas que respondem a necessidades. De outro, é valor de troca: entra numa relação quantitativa com outras mercadorias e, no mercado, aparece como preço. O valor de uso diz respeito à qualidade e à finalidade concreta de algo; o valor de troca, à sua circulação como equivalente de outras coisas.

Isso não quer dizer que o valor de uso tenha nascido com o capitalismo. Pessoas sempre fizeram e usaram objetos úteis, cultivaram alimentos, construíram abrigos e cuidaram umas das outras. A especificidade capitalista está em transformar uma parcela crescente dessas atividades e objetos em mercadorias. A produção deixa de ser orientada primordialmente pelo uso direto e passa a ser organizada pela valorização do capital. Produz-se para vender; vende-se para realizar lucro; o lucro volta ao processo como capital ampliado.

Também as necessidades não são uma lista fixa ditada pela natureza. Há necessidades elementares, como alimentação e moradia, mas as formas de viver, cuidar, comunicar-se e deslocar-se são históricas e sociais. O capitalismo explora isso: cria desejos, modela hábitos e converte carências coletivas em mercados. Ainda assim, reconhecer que necessidades são socialmente formadas não permite tratar como irrelevantes a fome, o aluguel impagável ou a falta de atendimento de saúde. A crítica marxista começa justamente pela distância entre a capacidade social de atender necessidades e a forma capitalista que restringe esse atendimento.

Como o valor de uso é subordinado

Uma mercadoria sem valor de uso dificilmente se vende. Mas sua utilidade, para o capital, interessa sobretudo como condição para a venda. Um remédio precisa tratar ou aliviar algo; uma geladeira precisa conservar alimentos; um aplicativo de entrega precisa conectar consumidores, restaurantes e entregadores. Porém, a decisão de produzir, distribuir e manter esses bens e serviços não é comandada pela necessidade social em si. É comandada pela expectativa de retorno financeiro.

Daí decorre uma contradição elementar: pode haver comida suficiente e gente com fome, imóveis vazios e famílias sem moradia, conhecimento técnico para ampliar o cuidado e serviços públicos precarizados. Não falta necessariamente valor de uso; falta acesso mediado por dinheiro. Aquilo que é útil permanece fora do alcance de quem não consegue pagar, enquanto aquilo que rende pode ser produzido mesmo quando é supérfluo, descartável ou socialmente danoso.

A obsolescência programada expõe bem essa lógica. Um produto poderia durar mais, ser reparável ou compatível com peças antigas, mas sua durabilidade pode contrariar a rotação acelerada das vendas. O uso efetivo é encurtado para estimular nova compra. A utilidade concreta do objeto é sacrificada à necessidade de realizar valor. A publicidade ajuda a operar essa conversão, apresentando a troca frequente como atualização pessoal, liberdade de escolha ou sinal de sucesso.

Valor de uso no Brasil de hoje

No Brasil, a subordinação do uso à troca aparece em situações ordinárias. O entregador de aplicativo realiza uma atividade de valor de uso evidente: transporta comida, remédios e compras, permitindo que outras pessoas resolvam necessidades imediatas. Mas a plataforma organiza esse serviço segundo metas, tarifas variáveis, avaliações e algoritmos voltados à extração de receita. A utilidade do serviço não elimina a precariedade de quem o executa; ao contrário, ela pode servir de justificativa para naturalizar jornadas extensas e remunerações instáveis.

O mesmo vale para o professor submetido a metas administrativas, plataformas educacionais e contratos frágeis. Ensinar tem valor de uso porque participa da formação humana e da produção coletiva de conhecimento. Quando a educação é tratada como produto, porém, sua qualidade tende a ser reduzida a indicadores vendáveis, certificados, desempenho mensurável e corte de custos. No call center, a pessoa atendente pode resolver um problema real de quem está do outro lado da linha, mas o trabalho é cronometrado e vigiado para reduzir o tempo de atendimento e elevar a produtividade.

Na habitação, a contradição é especialmente visível. Uma casa tem valor de uso porque possibilita morar. Mas, como imóvel, ela também funciona como ativo, fonte de renda e objeto de especulação. A valorização de bairros e terrenos pode expulsar trabalhadores das áreas onde trabalham e vivem, ainda que existam prédios desocupados. A cidade é organizada menos pela pergunta “onde as pessoas precisam morar?” do que pela rentabilidade da terra, do aluguel e dos empreendimentos.

Uma crítica à aparência do mercado

A ideologia capitalista costuma apresentar o mercado como simples encontro entre necessidades individuais e ofertas úteis. Essa aparência apaga quem trabalha, quem controla os meios de produção e quem fica sem acesso ao que foi produzido. O consumidor parece escolher livremente, mas sua escolha é limitada pela renda, pela oferta disponível e por necessidades previamente moldadas pela própria dinâmica mercantil.

Falar em valor de uso permite recolocar uma pergunta incômoda: útil para quem e decidido por quem? Uma sociedade orientada pelas necessidades sociais teria de organizar produção, tecnologia e trabalho a partir do acesso à alimentação, moradia, saúde, educação, mobilidade e tempo livre, e não da rentabilidade privada. O conceito de Marx revela que a utilidade das coisas existe, mas sua apropriação, sob o capitalismo, é atravessada pela desigualdade de classe.