Quando Jair Bolsonaro subiu em motocicletas, convocou atos de massa e se apresentou como o homem comum sitiado por Brasília, pelo Supremo, pela imprensa e por uma elite abstrata, não estava apenas fazendo propaganda eleitoral. Operava uma máquina de identificação política. O presidente procurava oferecer a milhões de pessoas uma explicação imediata para uma experiência real: a de trabalhar mais, dever mais, depender de aplicativos, enfrentar preços altos e ouvir que seu sofrimento é culpa de algum inimigo distante. A força do populismo bolsonarista não esteve em inventar essa insatisfação. Esteve em capturá-la, deslocando seu alvo.

O entregador que passa horas sob sol e chuva, o motorista que arca com combustível, manutenção e risco, a operadora de telemarketing medida por segundos, o professor submetido a metas e plataformas: todos conhecem uma vida social em que decisões fundamentais parecem vir de cima e de fora. O valor da corrida muda por um algoritmo opaco; o aluguel sobe; a jornada invade a noite; uma demissão pode ser anunciada por uma tela. Há, nessa experiência, uma distância concreta entre quem trabalha e quem manda. Mas a política populista de direita não conduz essa percepção até as empresas, os proprietários, os fundos e a estrutura estatal que protege a acumulação. Ela entrega um atalho: o problema seriam os políticos profissionais, os técnicos, os juízes, os artistas, os professores, a esquerda, qualquer grupo capaz de figurar como inimigo do “brasileiro de bem”.

O capacete não apaga a classe

As motociatas bolsonaristas condensaram essa operação. A motocicleta podia aparecer como símbolo de liberdade, trabalho duro e independência: o veículo de quem entrega, vende, se desloca para ganhar a vida e não quer ser tratado como dependente do Estado. Na imagem espetacular, o presidente de capacete se misturava ao povo motorizado contra os supostos parasitas do país. O problema é que a mesma moto que serve de emblema de autonomia pode ser, para o trabalhador de aplicativo, instrumento de subordinação extrema. Ela é propriedade formal do trabalhador, mas seu uso é comandado por plataformas que definem preços, distribuem chamadas, aplicam bloqueios e transferem custos.

Marx ajuda a enxergar o que a foto da multidão oculta. A aparência de posse dos meios de trabalho não elimina a exploração quando o trabalhador depende de vender continuamente sua força de trabalho sob regras que não controla. O entregador pode possuir a moto, assim como o pequeno vendedor possui seu celular, mas não possui a plataforma, os dados, a clientela organizada pelo aplicativo nem o poder de estabelecer o preço de seu serviço. A linguagem do empreendedorismo transforma essa relação em mérito individual: se a renda não basta, faltou esforço; se ocorre um acidente, foi azar pessoal; se a conta é bloqueada, trata-se de falha do indivíduo. O populismo de direita acrescenta uma compensação moral a essa solidão: você pode estar desprotegido no trabalho, mas pertence ao povo virtuoso que tem um chefe para defendê-lo.

O populismo autoritário não precisa negar o sofrimento popular. Ele precisa impedir que esse sofrimento reconheça seus responsáveis materiais.

A revolta contra Brasília que poupa a empresa

Na campanha de 2022, a redução de tributos federais sobre combustíveis foi apresentada por Bolsonaro como uma defesa direta do consumidor e do trabalhador que dependia do veículo para sobreviver. O alívio imediato no preço tinha apelo óbvio para quem via a renda ser engolida no posto. Mas esse tipo de resposta também revela o limite político do populismo: trata a emergência como cena de salvamento pessoal e preserva a estrutura que converte necessidades coletivas em fonte privada de lucro. O motorista e o entregador seguem individualmente expostos à variação dos custos, à falta de proteção trabalhista e ao poder de empresas que organizam toda a cadeia de circulação.

Não se trata de desprezar o peso concreto do combustível no orçamento de quem trabalha. A esquerda que responde à angústia popular com superioridade moral abre espaço para o reacionarismo. A questão é outra: por que a sobrevivência de tanta gente depende de um favor fiscal ocasional, de um anúncio presidencial ou de uma promessa de campanha? Por que o custo da mobilidade recai sobre o trabalhador que presta um serviço indispensável, enquanto plataformas podem se apresentar como meras intermediárias tecnológicas? A resposta exige falar de propriedade, regulação, direitos, salário, transporte público e poder empresarial. Exige, em suma, falar de classe. É precisamente essa conversa que o populismo bolsonarista substitui pela guerra permanente contra inimigos culturais.

Guy Debord descreveu uma sociedade em que a relação social aparece mediada por imagens. A motociata é uma dessas imagens: o presidente e a multidão parecem abolir a distância entre governante e governados numa coreografia de motores, bandeiras e transmissão digital. Só que a proximidade visual não é controle popular sobre o poder. A multidão vê a si mesma reconhecida no líder e recebe em troca a sensação de participação. Fora do enquadramento, continuam intocados os contratos de trabalho precários, a concentração de renda, a pressão sobre serviços públicos e a disciplina empresarial. O espetáculo não mente apenas quando inventa fatos; ele também mente ao tornar invisível aquilo que organiza a vida.

O chefe como solução para a impotência

É por isso que reduzir o bolsonarismo a ignorância ou manipulação externa não basta. Há um núcleo afetivo e social em sua adesão. Gustave Le Bon, apesar de seus limites conservadores, observou que a multidão pode buscar no líder uma certeza que a vida individual fragmentada não oferece. No capitalismo de plataformas, essa fragmentação ganha novas formas. Cada trabalhador é convertido em unidade concorrente: avaliado separadamente, remunerado por tarefa, monitorado por geolocalização e incentivado a se imaginar como empresa de si mesmo. A solidariedade se torna difícil quando todos disputam a mesma chamada, a mesma promoção ou o mesmo posto escasso.

O líder autoritário oferece uma comunidade pronta, definida menos por direitos comuns do que por inimigos compartilhados. Ele promete que o cidadão abandonado deixará de ser invisível porque sua voz será a voz do chefe. Daí o caráter profundamente antidemocrático dessa identificação: discordar do líder passa a parecer trair o povo; instituições que limitam seu poder passam a ser tratadas como obstáculos ilegítimos; organizações autônomas de trabalhadores são vistas com suspeita. O populismo se torna uma forma de concentrar a fala de muitos numa única figura, enquanto a vida material desses muitos permanece sem poder coletivo.

Alysson Mascaro insiste que o Estado não paira acima das classes como árbitro neutro. Essa chave é decisiva contra a fantasia de que bastaria trocar os ocupantes de Brasília para que a máquina social passasse a servir aos de baixo. O Estado capitalista pode conceder alívios, mediar conflitos e criar direitos, mas opera em uma ordem estruturada pela propriedade privada e pela reprodução do capital. O bolsonarismo explorou a desconfiança popular contra instituições que frequentemente de fato falham com os pobres, mas transformou essa desconfiança em ataque seletivo à democracia, nunca em enfrentamento consequente ao capital. Sua fúria contra o sistema terminava antes da porta das grandes empresas.

Depois de reconhecer o mecanismo

Ver esse mecanismo muda a pergunta que cada trabalhador pode fazer diante de uma promessa de “defender o povo”. Não basta indagar se o candidato fala simples, usa os mesmos símbolos ou denuncia corruptos. É preciso perguntar: quem controla as condições do meu trabalho? Quem fixa o preço da minha jornada? Quem lucra com meus dados, meu deslocamento e meu cansaço? Que direitos coletivos essa política amplia, e quais organizações independentes ela fortalece? Um governo que convoca o povo apenas para aplaudir o chefe não devolve poder a ninguém.

O antídoto para a captura populista não é uma tecnocracia que despreza a linguagem popular, nem uma esquerda que se refugia em abstrações. É transformar a experiência dispersa da precarização em organização e consciência de classe: entregadores que se reconhecem como trabalhadores, professores que recusam ser reduzidos a indicadores, operadores de call center que identificam a violência por trás das metas, moradores que ligam o preço do transporte à estrutura de suas cidades. Quando a revolta deixa de procurar um salvador e passa a localizar relações de exploração, o “povo” deixa de ser plateia de um líder. Pode começar a tornar-se força política contra quem realmente o mantém de capacete, correndo e pagando a conta.