Em janeiro de 2025, a mentira de que o governo cobraria uma taxa sobre o Pix se espalhou com a velocidade própria das redes que fizeram da indignação um negócio. Não era necessário que a acusação viesse acompanhada de lei, portaria ou demonstração técnica. Bastava um vídeo de tom peremptório, uma frase recortada, a imagem de alguém aparentemente comum dizendo que o Estado passaria a vigiar e a confiscar o dinheiro de quem faz pequenos recebimentos. A falsidade encontrou terreno pronto: a insegurança de uma população que depende de transferências imediatas para vender marmita, fazer uma corrida, receber uma diária, pagar o aluguel ou recompor o caixa de um pequeno comércio.
O episódio não foi um simples mal-entendido digital, nem uma prova de que brasileiros seriam especialmente ingênuos. Foi uma cena concentrada da política contemporânea: a emoção coletiva substituindo a verificação, a suspeita valendo mais que o documento e a mentira adquirindo aparência de verdade porque circula em massa. O contágio mental, aí, não paira acima da sociedade como defeito psicológico. Ele tem condições materiais, agentes interessados e vítimas que pagam a conta.
O medo não circulou por acaso
A discussão sobre o Pix se apoiou em uma medida real de ampliação do monitoramento de movimentações financeiras para fins de fiscalização, mas a transformou em ficção de cobrança automática sobre cada transferência. A distinção entre acompanhar informações e criar um imposto foi soterrada por mensagens que apresentavam qualquer explicação como confirmação da conspiração. Quando as autoridades revogaram o ato normativo em meio à campanha, a decisão não dissolveu o boato; para muitos, tornou-se mais um sinal de que a pressão havia impedido um ataque iminente. Esta é uma das forças do contágio: ele organiza antecipadamente uma defesa contra toda evidência que o contrarie.
Gustave Le Bon observou que a multidão pode adquirir uma disposição em que a sugestão se impõe com intensidade desproporcional. Mas limitar o problema a uma psicologia das massas é insuficiente. A multidão digital brasileira não se reúne espontaneamente numa praça; ela é formada por plataformas que recompensam o conteúdo que retém atenção, por redes políticas profissionalizadas e por empresários de influência que convertem ressentimento em alcance. A mensagem mais eficaz não é a mais demonstrada, mas a que oferece uma explicação simples para um mal-estar real: “vão tirar o pouco que você tem”.
O bolsonarismo construiu parte decisiva de sua força nessa máquina afetiva. Não precisa governar para governar o clima social. Ao longo de anos, alimentou a identificação entre Estado, corrupção, ameaça moral e perseguição ao trabalhador, ao mesmo tempo em que protegeu as relações econômicas que de fato comprimem sua vida. A extrema direita apresenta o imposto como inimigo absoluto, mas raramente mobiliza seu público contra os juros, a concentração bancária, a jornada exaustiva, a terceirização ou a remuneração rebaixada nas plataformas. Seu antissistema é cuidadosamente compatível com o sistema que explora.
Para quem trabalha por conta, o boato vira custo
O Pix não é uma abstração para o entregador que recebe gorjetas, para a manicure que confirma horários, para o pedreiro que cobra parte da obra, para a professora particular ou para quem vende comida na porta de casa. Ele integra a infraestrutura cotidiana da sobrevivência sob a precarização. O trabalhador informal não possui um departamento financeiro, reserva confortável ou advogado para atravessar qualquer instabilidade. Uma onda de medo pode levá-lo a adiar uma venda, desconfiar de um recebimento, discutir com clientes, buscar alternativas mais caras ou simplesmente gastar horas tentando separar verdade de manipulação.
A ideologia neoliberal chama essa pessoa de empreendedora e celebra sua autonomia. Na prática, ela transfere para indivíduos isolados os riscos que deveriam ser socialmente enfrentados. O motorista de aplicativo administra o custo do carro, do combustível, da doença e do tempo parado; o microvendedor administra também a insegurança produzida por uma campanha política que pode alterar a confiança no instrumento de pagamento de um dia para outro. A falsa notícia encontra, assim, uma classe já treinada a imaginar que está sozinha diante de ameaças permanentes.
Marx ajuda a localizar o núcleo do problema: a alienação não é apenas um erro de consciência, mas uma forma de vida em que os produtos e relações criados pelos próprios seres humanos se apresentam como poderes estranhos que os dominam. O sistema financeiro digital, as regras fiscais, os aplicativos e os algoritmos aparecem ao trabalhador como uma caixa-preta incontornável. Sem tempo, informação acessível e poder coletivo sobre essas estruturas, ele é empurrado a preencher a lacuna com a narrativa mais disponível. A mentira não vence apesar da alienação; vence porque a alienação já tornou opaca a maquinaria que ordena a vida social.
A plataforma não é um canal neutro
Debord escreveu que, na sociedade do espetáculo, a relação social entre pessoas é mediada por imagens. O pânico do Pix mostra uma atualização brutal dessa tese. A imagem do sujeito indignado diante da câmera parece mais próxima do que uma nota técnica porque simula intimidade. O vídeo curto oferece o conforto de uma causa e de um culpado; a explicação cuidadosa exige atenção, comparação e alguma confiança em instituições que foram sistematicamente desmoralizadas. A plataforma privilegia a primeira forma não por acidente, mas porque o conflito simplificado, o temor e a certeza total mantêm pessoas conectadas.
Heidegger alertava que a técnica não é apenas um conjunto de ferramentas: ela instaura um modo de revelar o mundo, no qual tudo tende a aparecer como recurso disponível. Nas plataformas, até o medo se torna matéria-prima: engajamento a ser extraído, audiência a ser monetizada, base política a ser acionada. A pessoa que compartilha uma mensagem alarmista acredita estar protegendo os seus; ao fazê-lo, fornece trabalho gratuito de distribuição a uma infraestrutura empresarial e política. Seu afeto é capturado e reconduzido como poder de terceiros.
Isso não absolve quem fabrica deliberadamente a falsidade. Há responsáveis políticos, perfis lucrativos e redes que conhecem a eficácia da mentira repetida. Mas atribuir tudo a indivíduos mal-intencionados permite esquecer a estrutura que os torna tão potentes. A indústria da desinformação prospera onde o trabalho fragmentado enfraquece vínculos coletivos, onde a comunicação é concentrada e onde a democracia é reduzida à disputa incessante por visibilidade. A mentira prospera, sobretudo, onde a experiência comum de exploração não encontra linguagem e organização capazes de explicá-la.
Ver o mecanismo muda a posição diante da mensagem
Enxergar o contágio mental não significa assumir a pose superior de quem jamais seria enganado. Essa pose é outra defesa individualista, e costuma falhar na primeira mensagem feita para confirmar uma convicção querida. Significa perguntar, antes do compartilhamento, que medo está sendo acionado, quem ganha com ele e por que uma alegação tão grave chega sem a prova proporcional à sua gravidade. Significa também recusar a falsa escolha entre acreditar cegamente no governo e acreditar no influenciador que grita contra ele. Crítica não é credulidade invertida; é a reconstrução paciente das mediações que uma mensagem quer apagar.
Para quem trabalha, a consequência política é maior que checar um link. É reconhecer que o medo individual de perder alguns reais pode ser convertido em força contra os próprios interesses de classe. O problema não é apenas uma taxa inexistente no Pix, mas a ordem que permite que milhões vivam suficientemente inseguros para que essa ameaça pareça imediatamente plausível. Enquanto cada trabalhador enfrentar sozinho a opacidade técnica, a precariedade e o bombardeio de imagens, haverá sempre um novo pânico pronto para ocupar o vazio. Romper o contágio exige informação rigorosa, mas exige também organização, solidariedade e disputa sobre quem controla a tecnologia e a riqueza produzida por todos.
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