A pós-verdade não descreve um mundo em que os fatos deixaram de existir. Descreve um regime em que a verdade perde sua força pública porque sua circulação é subordinada à disputa política, ao lucro das plataformas e à produção industrial de ressentimento. No Brasil, o bolsonarismo ofereceu um caso exemplar: durante a pandemia, a defesa da cloroquina, a suspeita contra vacinas e a desconfiança fabricada sobre instituições não foram simples erros individuais de informação. Foram operações ideológicas que transformaram a ignorância em identidade política e o medo em obediência.

A pós-verdade como mercadoria política

O senso comum costuma tratar a pós-verdade como uma falha moral do indivíduo que compartilha uma mentira. Essa explicação é confortável porque desloca o problema das estruturas para o comportamento privado. O trabalhador que recebe no celular uma montagem sobre urnas eletrônicas aparece como alguém irracional, enquanto permanecem invisíveis as empresas que organizam a distribuição do conteúdo, os grupos políticos que o financiam e a forma econômica que recompensa o escândalo.

Marx ajuda a deslocar o olhar. A ideologia não é apenas uma coleção de ideias falsas inventadas por pessoas mal-intencionadas; ela é uma forma social que apresenta relações históricas como se fossem naturais. A pós-verdade opera nesse terreno: não precisa convencer todos de uma mesma mentira. Basta dissolver a possibilidade de um mundo comum, no qual a experiência coletiva possa corrigir o delírio privado. Se tudo é opinião, a força passa a parecer argumento.

As plataformas digitais aceleram essa dissolução porque convertem atenção em valor econômico. O conteúdo que provoca raiva, medo ou humilhação tem maior capacidade de retenção do que a explicação paciente de um processo histórico. A técnica não aparece apenas como ferramenta neutra. Ela organiza o ambiente perceptivo, seleciona o que ganha visibilidade e transforma reações humanas em dados, perfis e oportunidades de monetização. A mentira não precisa ser verdadeira; precisa ser rentável, repetível e capaz de mobilizar.

Do fato negado ao inimigo inventado

O bolsonarismo entendeu essa lógica antes de muitos de seus adversários. Sua comunicação não dependia de apresentar um programa coerente para a vida social. Dependia de produzir inimigos: a imprensa, os professores, as universidades, o Supremo Tribunal Federal, o sistema eleitoral, a esquerda, os comunistas imaginários. A cada crise, a responsabilidade era deslocada para uma ameaça moral. A precariedade do trabalho, a violência cotidiana e o abandono dos serviços públicos eram convertidos em ressentimento contra minorias, instituições e direitos.

Durante a pandemia, esse mecanismo tornou-se brutalmente visível. A existência do vírus e a necessidade de proteção coletiva foram submetidas a uma guerra cultural. A máscara passou a ser tratada por setores bolsonaristas como sinal de submissão; a vacina, como suspeita; a ciência, como instrumento de uma conspiração. O objetivo não era provar consistentemente que uma alternativa médica funcionava. Era produzir uma comunidade de crença capaz de reconhecer seus próprios sinais e rejeitar qualquer autoridade externa.

Gustave Le Bon, apesar dos limites políticos de sua psicologia das multidões, percebeu que a massa não se organiza prioritariamente pela demonstração racional, mas pela repetição de imagens, palavras de ordem e afetos compartilhados. O bolsonarismo atualizou esse mecanismo por meio de grupos de mensagens, vídeos curtos e transmissões permanentes. A multidão não precisa estar reunida numa praça: ela pode ser sincronizada por notificações. Sua unidade é produzida pela circulação incessante do mesmo inimigo.

A verdade como disputa de classe

A pós-verdade também revela uma desigualdade material no acesso à interpretação do mundo. Um entregador que atravessa a cidade sob chuva, submetido à avaliação de clientes e ao bloqueio arbitrário de uma plataforma, não vive a mesma realidade de quem descreve o trabalho como empreendedorismo livre. A ideologia meritocrática pode chamar essa exaustão de oportunidade, mas a experiência concreta insiste em desmenti-la. A pós-verdade entra justamente quando a linguagem dominante consegue neutralizar essa contradição.

O trabalhador precarizado é convidado a interpretar seu sofrimento como falha pessoal. Se não alcança a renda prometida, faltou esforço; se adoece, faltou disciplina; se contesta a plataforma, é inimigo do progresso. O mesmo método aparece na política: a crise social é apresentada como resultado da corrupção moral de indivíduos, nunca como efeito de relações econômicas. A mentira mais eficaz não é a que inventa um fato isolado, mas a que oferece uma explicação falsa para uma dor verdadeira.

É nesse ponto que a crítica de Guy Debord à sociedade do espetáculo permanece decisiva. O espetáculo não é simplesmente um conjunto de imagens que distrai a população. É uma relação social mediada por imagens, na qual a experiência direta perde autoridade e a aparência passa a organizar a vida. O cidadão não é apenas informado sobre a política; ele é conduzido a consumi-la como conflito visual, indignação instantânea e identificação de grupo. A política vira torcida, e a torcida dispensa a realidade que poderia contrariar seu pertencimento.

O Estado, a técnica e a fabricação do consenso

A crítica à pós-verdade não pode terminar numa defesa abstrata da informação correta. Quem controla os meios de produção e circulação das narrativas possui uma vantagem política sobre quem apenas reage a elas. Alysson Mascaro mostra que o Estado, no capitalismo, não paira acima dos conflitos sociais como árbitro neutro: ele organiza juridicamente as condições de reprodução do capital. Isso ajuda a compreender por que a regulação das plataformas, a proteção do trabalho e a responsabilização de agentes econômicos encontram tantos obstáculos enquanto a culpa é devolvida ao usuário.

Heidegger permite perceber outra camada do problema. A técnica moderna não é somente um conjunto de aparelhos; é uma forma de desvelar o mundo como estoque disponível. Pessoas tornam-se dados, atenção torna-se recurso, indignação torna-se tráfego e opinião torna-se mercadoria. A plataforma não pergunta primeiro se uma mensagem é verdadeira, justa ou emancipadora. Ela mede sua capacidade de circular. Nessa lógica, a verdade é rebaixada a uma variável entre outras, subordinada ao desempenho do conteúdo.

Isso não significa que todos os discursos tenham o mesmo peso ou que a verdade seja impossível. Significa o contrário: a disputa pela verdade exige reconhecer as condições materiais que permitem que certas falsificações se tornem públicas, persistentes e politicamente eficazes. A mentira do cidadão comum não possui a mesma escala que a mentira disseminada por autoridades, influenciadores, empresas de tecnologia e organizações partidárias. Falar em responsabilidade individual sem falar em poder é apenas uma maneira elegante de proteger os poderosos.

Romper a máquina da pós-verdade

Romper com a pós-verdade exige reconstruir formas coletivas de verificar a experiência. Isso passa por jornalismo público, educação crítica e transparência algorítmica, mas não se reduz a essas medidas. Enquanto o trabalho permanecer organizado pela insegurança, enquanto a vida social for atravessada pelo endividamento e enquanto as plataformas puderem explorar atenção sem controle democrático, o terreno afetivo da manipulação continuará intacto.

O combate ao bolsonarismo não será vencido apenas desmentindo cada boato que surgir. A mentira política encontra força porque se apoia em frustrações reais, ainda que ofereça respostas falsas. É preciso disputar essas frustrações no local de trabalho, na escola, no bairro e nas instituições, mostrando quem lucra com a precariedade e quem fabrica os inimigos convenientes. A verdade socialmente eficaz não é uma lista de fatos isolados: é a capacidade de conectar a experiência vivida à estrutura que a produz.

A pós-verdade prospera quando a sociedade perde os instrumentos para compreender a própria existência. Seu antídoto não é exigir que indivíduos sejam mais virtuosos diante de uma máquina desenhada para capturar sua atenção. É retirar a produção do conhecimento, da informação e da vida comum da lógica que transforma tudo em mercadoria. Enquanto a realidade puder ser administrada por quem controla o capital e as plataformas, a mentira continuará aparecendo não como desvio, mas como método de governo.