O bolsonarismo não chegou ao poder apenas com um programa reacionário. Chegou oferecendo uma figura de comando para uma sociedade atravessada por medo, desemprego, endividamento, descrédito dos partidos e ressentimento contra instituições que, para grande parte da população, só aparecem para cobrar, punir ou negar direitos. Jair Bolsonaro apresentou-se como alguém exterior a esse sistema: o homem comum contra Brasília, o presidente sem mediações contra o Congresso, os tribunais, a imprensa e os partidos. Mas essa encenação de um chefe diretamente ligado ao povo não suspendeu a ordem social brasileira. Ela a protegeu em um momento de crise, dando à exploração uma linguagem de guerra moral.
É nesse terreno que o bonapartismo importa menos como verbete e mais como método de leitura. Não se trata de pendurar um rótulo histórico em qualquer governo autoritário, nem de fingir que o Brasil reproduziu mecanicamente a França analisada por Marx em O 18 de Brumário de Luís Bonaparte. Trata-se de perceber uma operação política: quando as classes dominantes, os partidos e as instituições já não conseguem organizar consensos estáveis, uma chefia pode se oferecer como árbitro nacional, falando em nome de uma unidade imaginária. A aparência é a de um poder que se ergue acima dos interesses. Sua função real é reorganizar a sociedade sem tocar no fundamento que produz seus conflitos: propriedade privada, desigualdade e exploração do trabalho.
A crise convertida em espetáculo de comando
A pandemia expôs essa operação no Brasil com uma nitidez brutal. Diante de uma doença que exigia coordenação pública, proteção coletiva e reconhecimento material de quem não podia parar de trabalhar, Bolsonaro fez da própria autoridade uma cena permanente. Desautorizou orientações sanitárias, atacou governadores, tratou a morte como obstáculo político, mobilizou apoiadores contra instituições e falou como se a economia e a vida fossem escolhas abstratas entre liberdade e tirania. A pergunta decisiva — quem pode se isolar e quem precisa se expor para sobreviver? — foi deliberadamente substituída por outra: quem está com o presidente e quem está contra ele?
Debord ajuda a entender a eficácia dessa substituição. Na sociedade do espetáculo, a relação social é mediada por imagens, e a política pode converter a destruição concreta em uma sucessão de gestos, transmissões, motociatas, frases de efeito e inimigos visíveis. O entregador que atravessava a cidade para garantir uma refeição que não podia consumir, a trabalhadora de supermercado submetida ao contato contínuo, a auxiliar de limpeza sem opção de teletrabalho não apareciam como sujeitos de direitos. Apareciam, quando apareciam, como soldados de uma economia nacional abstrata. A exposição ao risco era chamada de coragem; a falta de proteção, de liberdade; a necessidade, de escolha individual.
O auxílio emergencial revelou igualmente o mecanismo. A pressão social e parlamentar elevou o valor inicialmente proposto pelo governo, e milhões de pessoas dependeram dele para não cair ainda mais fundo na fome e na dívida. Depois, o poder presidencial tentou transformar a sobrevivência financiada pelo fundo público em dádiva pessoal do chefe. A política social, que deveria afirmar um direito diante de uma emergência, tornou-se peça de propaganda de uma relação direta entre governante e população. Não era a sociedade organizando recursos para proteger quem trabalha; era o líder distribuindo proteção enquanto exigia lealdade simbólica.
O povo abstrato contra a classe que trabalha
O núcleo da manobra bonapartista é fabricar um “povo” sem classes. Nesse povo cabem, de modo imaginário, o empresário que lucra com a redução de custos, o proprietário que especula, o policial que reprime, o autônomo endividado e o jovem que pedala doze horas para um aplicativo. Todos seriam vítimas equivalentes de uma mesma elite difusa, identificada conforme a conveniência com políticos profissionais, jornalistas, professores, artistas, ministros do Supremo ou “comunistas”. Ao apagar a diferença entre quem vende sua força de trabalho e quem compra trabalho para extrair lucro, o discurso oferece pertencimento aos de baixo sem lhes entregar poder.
O trabalhador de plataforma conhece essa fraude no próprio corpo. Ele é chamado de empreendedor, recebe metas que não definiu, é avaliado por clientes e algoritmos que não controla, paga pelo instrumento de trabalho e pode ser desligado sem negociação efetiva. Quando reclama de tarifa, bloqueio ou acidente, não encontra o Estado forte prometido nos palanques. Encontra a velha ordem: contrato assimétrico, empresa protegida por sua forma jurídica, polícia pronta a defender a propriedade e legislação insuficiente diante da nova forma de comando. A retórica do chefe antipolítica não reduz essa subordinação; ela a torna menos nomeável, porque troca a luta por direitos pela obrigação de provar mérito, patriotismo e obediência.
Há aqui uma lição marxista que não cabe em moralismo sobre eleitores enganados. A adesão a um líder autoritário não nasce simplesmente de ignorância. Ela cresce onde a experiência social é fragmentada. O professor pressionado por indicadores, o atendente de call center cronometrado, o motorista submetido a tarifas variáveis e o pequeno comerciante esmagado por dívidas vivem a insegurança como problema individual. Sem organizações capazes de ligar essas experiências a uma estrutura comum, a revolta procura um rosto para culpar e outro para obedecer. O chefe bonapartista oferece ambos: inimigos para o ódio e uma autoridade para a esperança.
As instituições atacadas e a propriedade preservada
Isso não significa que os conflitos entre Bolsonaro, Congresso, Supremo, governadores e setores da imprensa fossem teatrais ou irreais. Eles existiram e produziram riscos concretos para a democracia. O erro é concluir que qualquer ataque às instituições representa uma ruptura com a classe dominante. O bonapartismo pode hostilizar frações do poder, constranger burocracias e mobilizar massas contra o sistema político precisamente para reforçar a ordem de conjunto. A relativa autonomia do Estado, observada por Marx em determinadas crises, não é independência em relação ao capital: é a capacidade de agir, em certas condições, para garantir que a dominação de classe sobreviva às disputas entre suas frações.
No Brasil, a agressão bolsonarista à democracia conviveu com a preservação de privilégios empresariais, com a exaltação da disciplina no local de trabalho e com a normalização da precariedade. Seu discurso contra “Brasília” jamais significou controle popular sobre bancos, grandes empresas, terra ou plataformas digitais. Ao contrário: quando a questão chegava à propriedade e à exploração, a fúria antissistema encontrava seu limite. A ordem precisava ser limpa de mediações incômodas, mas não transformada em sua base material. É por isso que o bolsonarismo não pode ser entendido só como extravagância de um líder ou desvio cultural de seus seguidores. Ele foi uma resposta política à crise de representação em favor de uma sociedade ainda mais desigual.
Depois de reconhecer o truque
Enxergar essa dinâmica muda o sentido das palavras que circulam no trabalho e na política. Quando um governante promete cortar a “burocracia”, convém perguntar para qual lado: para liberar o trabalhador da humilhação ou para livrar empresas de obrigações? Quando invoca o povo contra instituições, é preciso perguntar que povo é esse e quem continua decidindo sobre salário, jornada, aluguel, crédito e preço da comida. Quando pede união nacional em nome da ordem, importa descobrir quem deve se unir e quem continuará mandando.
O antídoto não é nostalgia de instituições que já falhavam com os de baixo, nem a fantasia de que bastaria substituir um chefe por outro mais civilizado. É recompor a classe trabalhadora como força política onde o capitalismo a fragmenta: no bairro, no sindicato, na escola, na empresa, na plataforma e nos serviços públicos. Para o entregador, a liberdade não será a liberdade de aceitar qualquer corrida; será poder recusar sem fome, negociar coletivamente e existir fora da chantagem algorítmica. Depois de ver o bonapartismo operando, o leitor pode reconhecer que a promessa de um salvador acima das classes é sempre um convite para que quem trabalha permaneça abaixo delas.
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