O 8 de Janeiro de 2023 não pode ser tratado como uma excentricidade de gente fantasiada de patriota, nem como o desfecho pitoresco de uma eleição turbulenta. A destruição das sedes dos três Poderes em Brasília foi a cena mais visível de uma operação que havia sido preparada em discursos contra as urnas, em acampamentos diante de quartéis, em bloqueios de estradas e na circulação industrial de mentiras pelas plataformas digitais. Sua força não residia apenas nos homens que quebraram vidraças e obras de arte. Ela dependia de empresários que financiaram a agitação, de autoridades que hesitaram ou colaboraram, de dispositivos de comunicação e, sobretudo, de uma base social convencida de que a violência poderia restaurar uma ordem perdida.
Essa ordem, porém, nunca foi a ordem da maioria que trabalha. Era a imagem de um país hierárquico, no qual o patrão manda sem freio, a polícia encontra inimigos internos à vontade e direitos sociais aparecem como favor indevido aos pobres. O bolsonarismo ofereceu a milhões de pessoas uma ficção de pertencimento: mesmo sem patrimônio, segurança ou poder político, o trabalhador poderia se imaginar parte de uma nação ameaçada por comunistas, professores, jornalistas, indígenas e movimentos populares. A promessa de ordem serviu para deslocar a raiva que deveria alcançar os donos da riqueza para alvos mais frágeis e mais próximos.
Brasília foi o ponto de chegada de uma pedagogia autoritária
Depois da derrota eleitoral de Jair Bolsonaro em 2022, a recusa em reconhecer o resultado não apareceu do nada. Por anos, ataques às instituições eleitorais haviam habituado parcelas da população à suspeita permanente. A cada fala sobre fraude sem prova, o terreno comum da realidade era corroído. A cada vídeo editado, transmissão e mensagem encaminhada, a mentira ganhava a aparência de investigação independente. Debord ajuda a entender esse mecanismo: na sociedade do espetáculo, a relação com o mundo é mediada por imagens que não apenas representam os fatos, mas passam a organizá-los. A tela do celular oferecia ao sujeito uma sensação de acesso direto à verdade, ao mesmo tempo que o encerrava num circuito de propaganda.
O resultado foi uma multidão que se julgava desperta justamente porque havia sido capturada por uma máquina de repetição. Le Bon descreveu como a multidão pode reduzir o julgamento crítico e amplificar afetos; a extrema direita contemporânea acrescentou a esse processo a velocidade algorítmica, a segmentação publicitária e o grupo de WhatsApp da família. Não se trata de supor que os participantes do 8 de Janeiro fossem marionetes sem responsabilidade. Eles agiram e devem responder por seus atos. Mas a responsabilidade individual não elimina a estrutura que tornou a ação pensável, financiável e, para alguns, moralmente meritória.
O roteiro golpista se alimentou também da conivência seletiva. Quem exigia rigor absoluto contra uma manifestação de sem-terra ou uma greve aceitava como legítima a concentração de veículos diante de quartéis e os bloqueios que impediam gente comum de chegar ao trabalho, ao hospital ou à escola. A legalidade, para a direita autoritária, vale quando preserva propriedade e disciplina os de baixo; torna-se obstáculo desprezível quando limita seus próprios privilégios. É essa assimetria que faz do golpe uma possibilidade concreta dentro de instituições que continuam exibindo seus ritos.
O trabalhador precarizado é convocado a defender quem o explora
O entregador que aguarda uma corrida sob chuva não precisa de um tanque na rua para experimentar a fragilidade da vida política. Sua jornada é comandada por um aplicativo que altera tarifas, distribui pedidos e bloqueia contas sem explicação suficiente. Ele é chamado de empreendedor, mas não define o preço do seu trabalho, não controla a plataforma e arca sozinho com bicicleta, moto, combustível, acidente e tempo morto. A liberdade prometida pelo neoliberalismo chega na forma de disponibilidade integral: trabalhar quando quiser significa, na prática, trabalhar quando o algoritmo permitir que se ganhe o mínimo.
O mesmo ocorre com a atendente de call center monitorada por metas e pausas cronometradas, com o professor que transforma noites em correção e burocracia, com a auxiliar terceirizada cuja renda depende de contratos que podem sumir a qualquer momento. A experiência cotidiana é de impotência. Marx chamou de alienação essa separação entre quem produz e as condições, o processo e o resultado de sua produção. No capitalismo de plataforma, a separação assume a aparência amigável de uma interface: a ordem não vem de um capataz visível, mas de uma notificação.
É nesse vazio que a extrema direita opera. Em vez de nomear a empresa que extrai mais valor do trabalho, ela oferece um culpado cultural. Em vez de organizar a luta por direitos, ensina o trabalhador a desprezar sindicato, serviço público e política social. Em vez de perguntar por que a riqueza produzida por todos se concentra tão brutalmente, celebra o indivíduo que “vence” sozinho. A meritocracia converte uma estrutura de exploração em defeito de caráter: se a corrida não paga, se o salário não fecha o mês, se a fila do SUS demora, a falha pareceria ser de quem não se esforçou bastante ou de algum inimigo que estaria recebendo proteção indevida.
O autoritarismo não chega à classe trabalhadora apenas de farda. Ele chega como conselho de empreendedorismo, como desprezo pelo direito e como convite para transformar desamparo em ódio.
Por isso a aventura golpista não era uma negação do neoliberalismo, mas seu complemento político em situação de crise. A democracia social exige direitos, organização coletiva e alguma capacidade popular de interferir nas decisões que moldam a economia. Já o mercado desregulado precisa de trabalhadores isolados, concorrendo entre si e dispostos a aceitar a redução de sua proteção como destino. Quando o conflito social ameaça aparecer com nitidez, o fascismo oferece uma saída: não redistribuir poder e riqueza, mas produzir inimigos, silenciar dissenso e blindar os de cima.
Defender a democracia é disputar as condições materiais da vida
Há uma leitura confortável do 8 de Janeiro segundo a qual a democracia teria sido salva porque os prédios foram recuperados, os responsáveis foram investigados e o calendário institucional seguiu seu curso. Essas respostas são necessárias, mas insuficientes. Punir a cadeia de comando, apurar financiadores e impedir a reincidência são tarefas decisivas. Ainda assim, nenhuma democracia está segura enquanto a maioria vive sob medo de perder a renda, enquanto a informação é monopolizada por plataformas privadas e enquanto a extrema direita pode transformar abandono social em combustível político.
Alysson Mascaro insiste que o Estado e o direito não pairam acima das relações materiais: eles se formam no interior da sociabilidade capitalista e carregam suas contradições. Isso não torna irrelevante a defesa das instituições democráticas; torna-a mais exigente. A lei pode conter a violência golpista, mas não resolve sozinha a precarização que ajuda a fabricar sua base social. Quando a defesa da democracia se limita à cerimônia institucional, ela deixa intacta a fábrica de ressentimento operada por salários baixos, jornadas exaustivas, moradia cara e abandono dos serviços públicos.
Depois de enxergar o golpe por esse ângulo, muda a pergunta que fazemos diante de cada nova mentira sobre fraude, cada apelo por “ordem” e cada ataque a direitos. Já não basta perguntar se um discurso é grosseiro ou se um ato ultrapassou uma linha formal. É preciso perguntar a quem serve a destruição da confiança coletiva, quem ganha quando o trabalhador teme o vizinho mais do que o patrão e qual vida concreta se torna impossível quando a violência política avança. A defesa consequente da democracia começa aí: na recusa de entregar a raiva legítima de quem trabalha aos arquitetos de sua própria submissão.
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