Nas enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul em maio de 2024, uma pergunta apareceu com a violência discreta das frases que parecem apenas práticas: por que essas pessoas moravam ali? Ela vinha, às vezes, acompanhada de sua irmã moralmente mais apresentável: por que não saíram antes? Sob a aparência de preocupação, as duas perguntas realizavam uma operação política conhecida. Tiravam do centro a destruição de sistemas de proteção, a ocupação desigual do solo urbano, a especulação imobiliária, a insuficiência habitacional e a demora institucional diante do desastre. No lugar disso, instalavam o indivíduo acuado, molhado, sem renda e sem casa como réu de sua própria tragédia.

O caso gaúcho importa não porque a catástrofe seja excepcional, mas porque tornou visível, em escala brutal, a regra cotidiana da vida trabalhadora brasileira. Quem depende do salário não escolhe livremente onde mora, quando interrompe a jornada, nem por quais ruas pode circular. Escolhe dentro de uma faixa estreita desenhada pelo preço do aluguel, pela distância ao trabalho, pelo transporte ruim, pela ausência de creches, pela dívida e pela ameaça permanente de perder a renda. Chamar isso de escolha individual é dar o nome de liberdade à administração capitalista da falta de alternativas.

A cidade vende segurança a quem pode comprá-la

Porto Alegre e sua região metropolitana não foram atingidas por uma água politicamente neutra. As chuvas e a cheia produziram danos num território organizado durante décadas por decisões públicas e interesses privados. A moradia bem localizada, perto de infraestrutura, emprego e serviços, é uma mercadoria cara. À classe trabalhadora restam, com frequência, bairros afastados, áreas baixas, margens de cursos d'água, regiões cuja infraestrutura é precária ou vulnerável. Não se trata de uma falha de planejamento que acontece por acidente: é a forma urbana de uma sociedade em que a propriedade e o lucro definem quem pode se proteger.

Quando se pergunta a uma família por que ela não deixou uma casa ameaçada, convém devolver a pergunta à cidade: para onde ela iria? Com que dinheiro pagaria depósito, aluguel antecipado, frete e a interrupção do trabalho? Que abrigo acolheria idosos, crianças, animais, documentos, móveis, remédios e a memória material de uma vida? A ordem para evacuar, quando não vem acompanhada de renda, transporte, acolhimento digno e garantia de retorno, pode ser correta como medida emergencial, mas não cria por si só uma saída social. Exigir que o despossuído faça sozinho essa travessia é converter abandono em responsabilidade pessoal.

O trabalhador não escolhe entre a segurança e o risco; quase sempre escolhe entre riscos diferentes, impostos por uma vida organizada para garantir a renda de outros.

Essa inversão protege os verdadeiros responsáveis de uma cobrança mais difícil. É mais confortável discutir se uma moradora foi previdente do que discutir orçamento público, obras de contenção, política de habitação, fiscalização ambiental e o poder de empresas sobre o uso do solo. É mais simples atribuir imprudência a quem perdeu tudo do que reconhecer que a cidade foi construída como uma máquina de separar vidas protegidas de vidas sacrificáveis. A culpa individual é um anestésico: impede que a dor se transforme em acusação coletiva.

O trabalho impede até a fuga

A culpabilização da vítima não começa quando a água sobe. Ela já está presente na rotina de quem acorda cedo para atravessar a cidade, registra ponto, atende metas ou liga o aplicativo para começar a trabalhar. Durante uma emergência, o empregado teme faltar e perder o dia, sofrer punição, não renovar um contrato precário ou ser substituído. O entregador que depende das corridas teme desligar o celular porque cada hora parada é renda que não volta. A trabalhadora terceirizada, o caixa de supermercado, o auxiliar de limpeza, o operador de call center e o professor da rede privada sabem que a linguagem empresarial da “responsabilidade” pode ser acionada contra eles justamente quando suas condições materiais entram em colapso.

A empresa costuma celebrar a resiliência individual enquanto trata a vida concreta de sua força de trabalho como um custo externo. Se a rua alaga, é problema do trabalhador chegar. Se a casa foi atingida, cabe a ele reorganizar a vida sem prejudicar a produtividade. Se não há internet, transporte ou condições emocionais, a cobrança por resultado reaparece como se a calamidade fosse uma questão de planejamento doméstico. A mesma racionalidade que, em dias comuns, chama a precariedade de empreendedorismo, nos dias de desastre chama o desamparo de falta de prevenção.

Marx ajuda a enxergar o núcleo dessa violência: a força de trabalho é tratada como mercadoria, e sua reprodução — moradia, descanso, alimentação, saúde, deslocamento, proteção contra desastres — é empurrada para as costas de quem vende essa força. O capital quer o trabalhador disponível no horário, mas não assume integralmente as condições para que ele exista e se mantenha vivo. Quando essas condições falham, a ideologia oferece sua sentença: faltou esforço, organização, responsabilidade, mérito. A linguagem muda; a transferência da conta permanece.

Do espetáculo da solidariedade à absolvição dos responsáveis

Houve solidariedade real nas enchentes gaúchas: pessoas resgatando desconhecidos, cozinhas coletivas, abrigos organizados por voluntários, redes de doação e trabalhadores sustentando serviços em circunstâncias extremas. Isso não deve ser diminuído. Mas a sociedade do espetáculo, descrita por Guy Debord, sabe transformar até a solidariedade em imagem suficiente de si mesma. A foto do gesto heroico pode circular mais facilmente do que a pergunta sobre o poder público; a emoção diante do resgate pode substituir a exigência de prevenção; a campanha de doação pode encobrir a obrigação permanente de garantir direitos.

Não há problema na doação, que muitas vezes é urgente. O problema surge quando ela vira a única linguagem admitida. Se a sociedade responde ao desastre apenas com caridade, quem perdeu a casa aparece como destinatário de compaixão, não como sujeito de direito. E quem tinha dever de impedir ou reduzir o dano recebe uma espécie de absolvição silenciosa. A vítima deve agradecer; o Estado e os proprietários do poder econômico não precisam responder pela estrutura que tornou sua sobrevivência tão frágil.

Essa operação é particularmente útil ao neoliberalismo. Sua ideologia reduz toda relação social a desempenho, cálculo e mérito. Assim, uma casa situada em área vulnerável parece resultado de uma decisão privada; uma demissão depois da calamidade parece problema de adaptabilidade; uma família sem reserva financeira parece prova de irresponsabilidade. Desaparece a classe. Desaparece a história. Desaparece o fato elementar de que milhões trabalham muito e ainda assim não acumulam sequer a segurança necessária para atravessar uma semana de ruptura.

Enxergar a culpa deslocada muda a pergunta

Depois de reconhecer esse mecanismo, não basta trocar piedade por indignação abstrata. Muda-se o modo de olhar para a cena. Diante do entregador que atravessa chuva forte para não perder renda, a pergunta deixa de ser por que ele aceitou a corrida e passa a ser por que uma plataforma pode organizar o trabalho de modo que recusar seja economicamente impossível. Diante da família que vive onde a água invade, não cabe perguntar por que não se mudou, mas por que moradia segura continua subordinada à renda e à especulação. Diante do trabalhador que não conseguiu sair a tempo, a questão é: quem lhe garantiu salário, transporte, abrigo e proteção para fazê-lo?

Essa mudança não inocenta agressores concretos nem nega que decisões individuais existam. Ela recusa, isto sim, que a decisão do oprimido seja examinada fora das coerções que a produzem. Há uma diferença decisiva entre reconhecer a agência de alguém e atribuir a ele a culpa pelo sistema que estreita sua vida. A primeira atitude trata pessoas como sujeitos; a segunda usa sua vulnerabilidade para justificar a ordem que as vulnerabiliza.

Ver a culpabilização da vítima é deixar de aceitar que o sobrevivente carregue também a explicação moral de seu sofrimento. É deslocar o foco do comportamento isolado para as relações de propriedade, para o Estado, para os empregadores e para a estrutura urbana que distribui proteção conforme a classe. A enchente, então, deixa de ser apenas um evento natural e a precariedade deixa de parecer um destino pessoal. Ambas passam a ser aquilo que são: problemas políticos, produzidos por uma sociedade que lucra com a desigualdade e depois cobra de suas vítimas que saibam nadar.