Em maio de 2024, quando as enchentes interromperam cidades inteiras do Rio Grande do Sul, a propaganda liberal sobre autonomia individual encontrou a lama. O entregador sem rota, a diarista sem casa para limpar, o operário com a fábrica fechada, a professora sem escola, o aposentado sem acesso ao banco e a família que perdeu documentos não puderam resolver a catástrofe por meio de planejamento financeiro, esforço ou espírito empreendedor. A vida só voltou a adquirir alguma sustentação porque houve abrigos, equipes do Sistema Único de Saúde, Defesa Civil, escolas públicas convertidas em espaços de acolhimento, benefícios emergenciais, servidores, voluntários e redes de assistência. Onde o mercado interrompeu seu circuito, a proteção coletiva apareceu como condição elementar de sobrevivência.

Esse episódio permite enxergar o Estado de bem-estar social fora da definição de manual. Ele não é um adorno civilizado acrescentado a uma economia que funcionaria perfeitamente sozinha. É aquilo que impede que a venda da força de trabalho seja a única medida do direito de alguém existir. Para quem depende do salário, do bico, da corrida de aplicativo ou da aposentadoria para atravessar o mês, saúde, educação, previdência, assistência e proteção diante do desemprego não são serviços complementares. São o limite concreto contra a transformação da desgraça em destino privado.

A enchente retirou o verniz da independência individual

O capitalismo gosta de apresentar cada trabalhador como uma pequena empresa de si mesmo. O motorista de aplicativo deve calcular riscos; a manicure deve montar reserva; o microempreendedor deve se reinventar; o trabalhador informal deve ser resiliente. Essa linguagem, repetida por bancos, plataformas, coaches e governos neoliberais, oculta um fato simples: o risco social não é distribuído de modo individual. A chuva que invade um bairro, a doença que interrompe o trabalho, a demissão provocada por uma crise ou a velhice não obedecem ao mérito de ninguém. E seus efeitos recaem com brutal desigualdade sobre quem mora em áreas precárias, não possui patrimônio e precisa trabalhar amanhã para comer hoje.

Nas enchentes, a diferença entre classes não desapareceu sob a imagem abstrata de uma população igualmente atingida. Proprietários de grandes empresas puderam acionar seguros, estoques, crédito e contatos institucionais. Muitos trabalhadores perderam, no mesmo movimento, moradia, instrumentos de trabalho, documentos, transporte e renda. Aquele que pedala para entregar comida não tinha como converter a bicicleta submersa em capital de emergência; quem vive de faxina não podia vender sua mão de obra a uma casa também desalojada; quem depende de atendimento contínuo no SUS precisava que a rede pública funcionasse justamente quando todos os trajetos e rotinas haviam colapsado.

É nesse ponto que a ideologia meritocrática revela sua crueldade. Ela chama de fracasso pessoal aquilo que é exposição desigual a uma crise coletiva. Marx mostrou que o trabalhador é livre em um sentido muito particular: livre para vender sua força de trabalho e livre dos meios que lhe permitiriam viver sem vendê-la. Na calamidade, essa liberdade vazia aparece sem disfarce. Se a renda depende da circulação diária do trabalho, basta a cidade parar para que milhões de pessoas se vejam diante da ausência de qualquer autonomia material. A proteção pública não elimina essa dependência capitalista, mas reduz sua violência imediata.

O que sustenta a vida não cabe na lógica da plataforma

O caso gaúcho também expôs a falsidade da promessa tecnológica segundo a qual plataformas privadas seriam capazes de organizar a vida social com mais eficiência que instituições públicas. Aplicativos podem redirecionar entregas e vender serviços; não planejam evacuação, não garantem vacinação, não abrem leitos, não pagam benefício a quem ficou sem renda nem mantêm uma escola como abrigo. Sua racionalidade é a extração de valor a partir de cada transação. Quando a transação deixa de ser possível, a plataforma se retrai ou transfere o risco para o trabalhador cadastrado.

Heidegger identificava na técnica moderna uma forma de revelar o mundo como fundo disponível, como reserva a ser mobilizada e explorada. O trabalhador de aplicativo conhece essa experiência no corpo: é geolocalização, meta, nota, bloqueio, preço dinâmico. Em uma emergência, porém, a vida não pode ser tratada como recurso calculável. É preciso decidir que alguém será atendido mesmo sem poder pagar, que uma família terá renda mesmo sem produzir, que uma criança seguirá tendo escola ainda que sua casa tenha desaparecido. Essa decisão é política, e só pode assumir forma duradoura por instituições submetidas, ainda que de modo limitado e contraditório, à pressão social e ao dever público.

Não há romantismo nisso. O Estado brasileiro foi lento, desigual e frequentemente insuficiente em sua resposta a desastres, porque carrega a marca de uma sociedade fundada na concentração de terra, renda e poder. Seus serviços chegam de maneira diferente à periferia e aos bairros ricos; sua burocracia pode humilhar exatamente quem mais necessita dela; seus orçamentos são disputados por interesses empresariais. Mas apontar essas falhas para defender menos Estado equivale a observar um hospital superlotado e concluir que a doença seria melhor tratada sem hospital. A crítica consequente exige ampliar, financiar, democratizar e tornar mais capaz a proteção pública, não entregá-la à seletividade do mercado.

Austeridade é uma escolha de classe contra a proteção coletiva

O bem-estar social brasileiro é permanentemente atacado não porque seja inútil, mas porque desloca uma parte da riqueza social para necessidades que não rendem lucro privado imediato. Cada posto de saúde, escola, benefício previdenciário ou política de assistência afirma que a reprodução da vida não pode depender integralmente da rentabilidade. Por isso, o vocabulário da austeridade chama direitos de gastos, servidores de privilégios e políticas universais de desperdício. Enquanto isso, isenções, renegociações de dívidas e formas variadas de socorro ao grande capital costumam ser tratadas como racionalidade econômica.

Alysson Mascaro insiste que o Estado não está acima das classes, como um árbitro neutro pronto para corrigir os excessos do mercado. Ele integra a própria reprodução da sociabilidade capitalista. Essa formulação ajuda a evitar duas ilusões opostas: a de que basta eleger um governo para que o Estado se torne automaticamente instrumento dos trabalhadores, e a de que toda política pública é irrelevante porque o Estado é burguês. Os direitos sociais existem nesse terreno contraditório. São conquistas arrancadas por lutas, institucionalizadas de modo parcial e continuamente ameaçadas por forças que desejam convertê-las em negócio ou reduzi-las a caridade focalizada.

Quando a assistência é apresentada como favor, seu destinatário precisa agradecer e provar merecimento. Quando é entendida como direito, a pergunta muda: por que a riqueza produzida socialmente não assegura proteção suficiente a todos? Essa mudança importa para a trabalhadora que enfrenta uma fila, para o desempregado que solicita um benefício e para o usuário do SUS que ouve que está custando caro aos cofres públicos. Ele não é um peso externo sobre a economia. Ele é parte da classe que produz a riqueza da qual o orçamento público e os lucros privados dependem.

Depois da lama, reconhecer o conflito que organiza os direitos

Enxergar o Estado de bem-estar social a partir de uma enchente muda a escala do problema. O leitor deixa de ver saúde pública, escola, previdência e assistência como departamentos isolados ou despesas abstratas. Passa a vê-los como uma infraestrutura de solidariedade material sem a qual a liberdade prometida pelo mercado é reservada a quem já possui propriedade e proteção privada. A questão não é apenas garantir socorro quando ocorre uma catástrofe; é construir condições para que uma doença, uma demissão, uma maternidade, uma velhice ou uma chuva extrema não lancem trabalhadores à ruína.

Isso também impede que a gratidão substitua a política. Abrigo, atendimento médico e renda emergencial salvam vidas, mas não devem produzir súditos agradecidos diante de governantes benevolentes. Devem fortalecer a consciência de que direitos só permanecem vivos quando organizados, exigidos e defendidos contra cortes, privatizações e a captura empresarial do fundo público. A lama de 2024 mostrou que ninguém se sustenta apenas com empreendedorismo. O que resta decidir é se essa evidência será esquecida quando a água baixa ou se servirá para disputar uma sociedade em que viver não seja um privilégio condicionado à capacidade de continuar trabalhando.