As enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul em maio de 2024 foram uma catástrofe material, humana e climática. Casas desapareceram, bairros inteiros foram evacuados, serviços públicos colapsaram e milhares de pessoas tiveram sua vida interrompida. Seria obsceno tratar essa devastação como mera metáfora política. Mas seria igualmente falso imaginar que a emergência, por ser real, suspendeu as relações de classe. Ela as expôs com uma nitidez brutal. Enquanto a água avançava, a pergunta que dividia a população não era abstrata: quem poderia parar de trabalhar sem perder a renda, e quem precisaria continuar circulando, entregando, limpando, carregando, atendendo?
O reconhecimento formal do estado de calamidade permitiu ao poder público mobilizar recursos e flexibilizar procedimentos. Isso era necessário diante da escala do desastre. O problema começa quando se percebe que a suspensão da normalidade não atinge todos da mesma maneira. Para empresas, proprietários e grandes interesses econômicos, a emergência costuma abrir canais rápidos de socorro, negociação de dívidas, reordenamento de contratos e pressão por retomada. Para a trabalhadora desalojada, para o entregador que perdeu a moto, para a caixa de supermercado que precisa atravessar uma cidade parcialmente inundada, a mesma emergência aparece como uma ordem: volte assim que for possível — e frequentemente antes que seja seguro.
A catástrofe não aboliu a exploração
O estado de exceção se torna visível não somente quando uma garantia é formalmente suspensa, mas quando a urgência fornece ao poder uma justificativa para decidir quais vidas podem aguardar e quais devem se expor. A enchente criou uma situação extraordinária; a resposta social, contudo, seguiu hierarquias bastante ordinárias. Havia pessoas com reservas financeiras, seguros, redes familiares e possibilidade de trabalho remoto. Havia outras cuja sobrevivência dependia do pagamento daquela semana, da diária, da corrida aceita no aplicativo, do comércio reaberto ou da fábrica retomando a produção.
Na linguagem empresarial, a retomada aparece como reconstrução. Na vida de quem vende sua força de trabalho, ela pode significar a volta antecipada a um ambiente sem transporte regular, sem água, com escolas fechadas e com a própria moradia ainda ameaçada. Não se trata de negar a necessidade de reconstruir cidades e empregos. Trata-se de perguntar quem define o ritmo dessa reconstrução e quem suporta seu custo. Quando a urgência econômica vale mais que a segurança e a reprodução da vida, a exceção deixa de ser uma medida limitada pela calamidade: ela se converte em autorização prática para tornar o trabalhador ainda mais disponível.
Marx mostrou que, no capitalismo, o trabalhador não vende simplesmente horas de seu dia; vende sua capacidade de viver, produzir e obedecer ao comando alheio durante essas horas. Em uma calamidade, essa dependência se torna mais severa. Quem perdeu a casa não perde apenas um bem: perde a base material a partir da qual poderia recusar uma jornada insegura, procurar outra ocupação ou exigir condições dignas. A catástrofe reduz a margem de recusa. E um sistema baseado na necessidade do trabalhador reconhece rapidamente nessa redução uma oportunidade.
O aplicativo não declara calamidade
O entregador por aplicativo condensa essa violência. Ele não recebe ordem direta de um chefe visível, mas é comandado por tarifas, avaliações, bloqueios e pela necessidade de aceitar corridas para fazer o dia render. Durante e depois de eventos extremos, a plataforma pode se apresentar como simples mediadora tecnológica: ela não obriga ninguém a sair de casa, apenas oferece demandas. Essa ficção jurídica é uma das formas contemporâneas de alienação. A empresa organiza preços, distribuição de pedidos, punições e incentivos; depois chama de autonomia a decisão tomada por alguém que precisa pagar aluguel e comida.
A emergência intensifica esse mecanismo. Se as ruas estão perigosas, a circulação é mais difícil e os serviços escasseiam, a entrega se torna ainda mais indispensável para uma parte da população e mais arriscada para quem pedala ou pilota. O risco climático entra na conta do trabalhador como se fosse uma escolha individual. Se ele não trabalha, não recebe. Se trabalha e sofre um acidente, a plataforma tende a tratar o episódio como contingência externa. A tecnologia, que poderia organizar proteção coletiva, vira instrumento de dispersão: cada entregador enfrenta sozinho a água, o trânsito, o cansaço e o algoritmo.
Heidegger advertia que a técnica moderna não é apenas um conjunto neutro de ferramentas; ela tende a enquadrar tudo como recurso disponível. Sob a lógica das plataformas, o trabalhador aparece exatamente assim: uma unidade acionável de circulação, substituível e mensurável. A enchente não interrompe esse enquadramento. Ela o radicaliza. A cidade em crise exige disponibilidade, e a plataforma transforma essa exigência em notificações, bônus e metas. O desastre ambiental encontra uma forma de trabalho já treinada para naturalizar a insegurança.
Quando a solidariedade substitui o Estado
No Rio Grande do Sul, a solidariedade popular foi decisiva. Voluntários resgataram pessoas, organizaram abrigos, separaram doações, improvisaram cozinhas e redes de informação. Esse movimento revelou o melhor da capacidade coletiva de uma sociedade. Mas ele também revelou uma armadilha política: a celebração da sociedade civil pode encobrir a insuficiência estrutural do Estado e transformar heroísmo popular em substituto permanente de direitos. Não é justo que a sobrevivência de uma população dependa da exaustão de voluntários, enquanto a organização econômica que agravou a vulnerabilidade climática preserva seus mecanismos de lucro.
Alysson Mascaro insiste que o Estado não paira acima das classes como árbitro neutro. Sua forma está ligada à própria reprodução das relações capitalistas. Isso não significa que toda ação estatal seja inútil ou que direitos não importem; significa que a disputa por direitos ocorre dentro de uma estrutura que protege propriedade, contratos e acumulação como pilares da ordem. Em uma emergência, essa estrutura aparece sem maquiagem. O socorro chega como favor, cadastro, fila e condicionalidade; a propriedade aparece como direito organizado e garantido. A trabalhadora que perdeu tudo deve provar sua necessidade. O patrimônio empresarial é rapidamente reconhecido como assunto de interesse econômico geral.
É nesse ponto que a exceção se torna método. Não porque todo decreto de calamidade seja ilegítimo, mas porque a emergência permite que decisões de cima para baixo pareçam inevitáveis. Cortes, remoções, flexibilizações trabalhistas, contratação precária e prioridade a setores empresariais podem ser apresentados como imperativos técnicos. A política desaparece do discurso justamente quando decide quem será protegido. Debord descreveu uma sociedade em que a realidade social é mediada por imagens; na catástrofe, a imagem da reconstrução pode cumprir função semelhante. Ela produz unidade emocional em torno de pontes, obras e retomadas, enquanto deixa fora do quadro a pergunta sobre salário, moradia, jornada, endividamento e controle popular.
Enxergar a regra dentro da emergência
A tragédia gaúcha não foi criada apenas pela chuva. Ela encontrou cidades marcadas por desigualdade urbana, moradia vulnerável, infraestrutura tratada como custo e uma economia que já havia convertido direitos trabalhistas em obstáculos à competitividade. A emergência climática encontrou uma população que, antes da água subir, já vivia sob outra inundação: a da precarização. O call center que mede pausas, a professora sobrecarregada, o terceirizado sem estabilidade, o motorista endividado e o entregador governado por algoritmo conhecem uma exceção cotidiana. Seus direitos existem no papel, mas podem ser contornados pela meta, pelo contrato temporário, pela terceirização ou pela ameaça do desemprego.
Depois de enxergar isso, a calamidade deixa de parecer um intervalo lamentável entre duas normalidades. A questão não é apenas reconstruir o que havia antes, porque o que havia antes já distribuía proteção e desamparo de maneira desigual. Defender auxílio amplo, moradia segura, renda garantida, transporte público, serviços estatais robustos e direitos para trabalhadores de plataforma não é acrescentar ideologia a uma crise técnica. É recusar que a emergência seja usada para restaurar, com mais velocidade e menos resistência, a mesma ordem que torna tanta gente descartável. A exceção perde parte de seu poder quando deixamos de aceitá-la como destino e reconhecemos nela uma decisão de classe.
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