Quando as águas cobriram cidades do Rio Grande do Sul em 2024, a palavra Estado voltou ao centro da cena. Ela apareceu no helicóptero que resgatava famílias, na Defesa Civil, nos abrigos improvisados, nas escolas transformadas em depósitos, nos hospitais sob pressão, nas tropas mobilizadas, nas medidas emergenciais e nas entrevistas de autoridades. Também apareceu, de modo menos televisionado, na ausência de prevenção suficiente, na ocupação desigual do território, na demora que pesa diferentemente conforme o CEP e na exigência de que milhões retomassem depressa a rotina de produzir, vender, entregar, atender, limpar e reconstruir.
A catástrofe não autoriza a simplificação de dizer que “o Estado falhou”, como se uma máquina neutra tivesse apresentado defeito técnico. Nem permite a resposta liberal, ainda mais cínica, de que tudo se resolveria pela iniciativa privada, pelo voluntariado e pela caridade empresarial. O que as enchentes mostraram foi o Estado capitalista em operação: indispensável quando a ordem social ameaça desabar, seletivo na distribuição de proteção e orientado por uma estrutura em que a propriedade e a rentabilidade têm prioridade sobre a vida de quem depende de vender sua força de trabalho.
A enchente não atingiu uma sociedade vazia
A água caiu sobre uma geografia já produzida por decisões políticas. Morar em área vulnerável, depender de um ônibus que deixou de circular, perder documentos, ferramentas e móveis, não ter reserva financeira para passar semanas sem trabalhar: nada disso começou com a chuva. Para a trabalhadora de limpeza que não pôde chegar à casa onde presta serviço, para o empregado do comércio com o local de trabalho fechado, para o entregador cuja bicicleta ou moto foi perdida, a emergência teve uma forma imediata: sobreviver sem salário suficiente, sem patrimônio e sem certeza de retorno.
É nesse ponto que a abstração ganha corpo. A ordem jurídica reconhece todos como cidadãos, mas a sociedade capitalista os organiza materialmente como proprietários e não proprietários. Uns podem atravessar a crise com seguro, poupança, segunda residência, rede de contatos e capacidade de suspender operações. Outros atravessam a crise em ginásios, filas, aplicativos e ônibus precários. A igualdade perante a lei não elimina a desigualdade perante a água, o aluguel, o banco e o mercado de trabalho. Ela frequentemente fornece a linguagem formal pela qual essa desigualdade continua sendo administrada.
Isso não diminui o valor de cada servidor público, bombeiro, profissional de saúde, assistente social, educador e voluntário que sustentou vidas no momento mais brutal. Ao contrário: revela a contradição. O trabalho coletivo, frequentemente público, é aquilo que impede o desastre de se converter em barbárie integral. Mas esse trabalho é organizado por instituições submetidas a orçamentos, prioridades e limites definidos numa sociedade em que a riqueza social é apropriada privadamente. A dedicação concreta de quem salva não prova a neutralidade da forma estatal; mostra que há, dentro dela, trabalho humano e disputa política contra suas próprias amarras.
Socorro, crédito e a obrigação de voltar a produzir
Nas crises, o Estado é convocado a suspender parcialmente a normalidade mercantil. Abre abrigos, organiza resgates, facilita benefícios, altera prazos, recompõe infraestrutura, cria linhas de apoio. São medidas necessárias, e tratá-las como irrelevantes seria uma pose sectária diante de necessidades reais. Uma família desalojada precisa de renda, comida, atendimento médico e moradia agora, não de uma aula sobre a pureza doutrinária da revolução.
Mas é preciso perguntar qual normalidade se procura restaurar. A reconstrução tende a ser apresentada como retorno à circulação: lojas abertas, estradas liberadas, empresas funcionando, pagamentos retomados, crédito liberado, consumo reativado. Para o capital, a interrupção é prejuízo; para quem trabalha, a interrupção pode ser fome. Essa diferença explica por que a pressão pela retomada recai com tamanha violência sobre os de baixo. O trabalhador é chamado de resiliente quando aceita converter a perda de sua casa, de seus objetos e de seu descanso em mais uma prova de disponibilidade ao emprego.
O crédito, solução celebrada em toda calamidade, condensa esse mecanismo. Ele pode aliviar uma urgência, mas também transforma a reconstrução da vida em dívida. Quem perdeu bens essenciais não recebe apenas ajuda: é frequentemente reconduzido à condição de devedor, obrigado a pagar pelo direito de recompor o mínimo. A linguagem do empreendedorismo entra em cena para converter desamparo em oportunidade individual. O pequeno comerciante deve “se reinventar”; o autônomo deve buscar alternativas; o entregador deve voltar à plataforma assim que puder. A estrutura que produziu a vulnerabilidade desaparece, e sobra o indivíduo convocado a administrar sozinho o próprio naufrágio.
A polícia da ordem e a ordem da propriedade
O Estado não se resume ao socorro. Ele também é a força que preserva a ordem quando a crise torna visível que essa ordem é frágil. Leis, tribunais, burocracias, forças de segurança e governos não atuam acima das classes, como um juiz exterior à partida. Eles organizam uma sociedade fundada na separação entre quem possui os meios de produzir e quem, para viver, precisa trabalhar para quem os possui. Alysson Mascaro insiste que o Estado não deve ser entendido apenas pela intenção deste ou daquele governante, mas pela forma social que torna possível a reprodução do capitalismo.
Isso ajuda a escapar de duas ilusões. A primeira é imaginar que bastaria eleger administradores moralmente bons para que o aparelho estatal se transformasse em instrumento neutro de justiça. Governos importam, e muito: podem ampliar direitos, proteger renda, fortalecer serviços públicos ou, como o bolsonarismo fez de modo sistemático, sabotar políticas, alimentar o desprezo pela ciência e transformar a morte em instrumento de guerra ideológica. Não há equivalência entre projetos políticos. Mas a segunda ilusão é supor que um governo progressista, por si só, dissolve os limites de uma máquina construída para compatibilizar a vida social com a acumulação privada.
As medidas de emergência podem salvar vidas e devem ser defendidas contra a austeridade, o negacionismo e a privatização. Ainda assim, elas chegam a uma população já treinada para aceitar a precariedade como destino. Décadas de neoliberalismo ensinararam que serviço público é gasto, que imposto é roubo e que qualquer proteção coletiva é privilégio. Quando chega o desastre, os mesmos discursos descobrem subitamente a necessidade de bombeiros, hospitais, universidades, meteorologia, assistência e logística pública. Querem o Estado máximo na hora do resgate e mínimo na hora de financiar, planejar e garantir direitos.
O espetáculo do auxílio e a disputa pela memória
Debord descreveu uma sociedade em que a experiência social é mediada por imagens que se apresentam como a própria realidade. Na enchente, isso apareceu na sucessão de vídeos de resgate, autoridades em coletes, empresários distribuindo doações e influenciadores convertendo solidariedade em audiência. A imagem pode mobilizar recursos e informar perigos; o problema começa quando ela substitui a pergunta pelas causas. A cena do barco heroico é mais confortável do que a discussão sobre planejamento urbano, orçamento público, moradia, trabalho informal e a captura privada das decisões coletivas.
O bolsonarismo prospera nessa redução espetacular. Sua política transforma todo problema estrutural em culpa de um inimigo imediato: o servidor, o pobre, o ambientalista, o governador adversário, a suposta “ideologia”. É uma técnica de desorganização da consciência de classe. Em vez de perguntar por que bairros populares acumulam riscos e por que a prevenção perde para a lógica imobiliária e fiscal, a multidão é convidada a procurar culpados isolados e a celebrar a brutalidade como eficiência. Le Bon observava a facilidade com que multidões podem ser capturadas por imagens e afetos; a extrema direita industrializou essa captura nas plataformas digitais.
A memória da catástrofe é, por isso, um campo de luta. Se ela for reduzida a uma tragédia natural seguida de superação individual, nada essencial muda. A próxima chuva encontrará as mesmas casas frágeis, a mesma terceirização, o mesmo trabalho por diária, a mesma chantagem do salário e a mesma política de cortes. Se for compreendida como revelação de uma ordem de classe, a pergunta deixa de ser apenas quem socorreu ontem e passa a ser quem decide onde se constrói, para onde vai o orçamento, quem controla a infraestrutura e por que a vida de tantos vale menos que a continuidade dos negócios.
Depois de ver, não cabe voltar à inocência
Enxergar o Estado nessa chave não exige desprezar o serviço público nem abandonar a disputa por políticas imediatas. Exige defendê-los com mais radicalidade: contra a austeridade, contra a privatização e contra a ideia de que direitos dependem de caridade ou de desempenho individual. Exige entender que o auxílio emergencial, a moradia pública, a renda protegida, a prevenção ambiental e o fortalecimento do trabalho estatal não são favores administrativos. São conquistas arrancadas da lógica que prefere socializar riscos e privatizar ganhos.
Para quem trabalha, essa percepção altera a maneira de ler a própria vida. A demora no atendimento, o aplicativo que não paga durante a paralisação, a dívida usada para recompor a casa, a escola pública convertida em abrigo e depois devolvida à falta de recursos não são episódios desconexos. São momentos de uma mesma organização social. O Estado pode ser pressionado, disputado e arrancado de sua rotina de classe por mobilização popular; mas não deve ser confundido com uma entidade paterna que corrigirá espontaneamente a desigualdade que ajuda a administrar. A primeira defesa contra a alienação política é abandonar essa inocência. A segunda é transformar a necessidade comum, revelada na catástrofe, em organização coletiva capaz de exigir mais do que o retorno à velha normalidade.
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