Há uma imagem conveniente do capitalismo brasileiro: a de que ele avançaria por inovação, investimento, empreendedorismo e eficiência. Nessa narrativa, a violência pertence a um passado remoto, às cercas erguidas no campo, à escravidão, às expulsões que prepararam a formação do mercado de trabalho. Maceió desmente essa fábula. O afundamento do solo provocado pela exploração de sal-gema pela Braskem não é apenas uma catástrofe urbana nem somente um caso de dano ambiental a ser administrado por técnicos, advogados e comunicados corporativos. É a exposição brutal de um mecanismo capitalista ainda ativo: para que uma empresa extraia riqueza, uma população trabalhadora pode ser separada de suas casas, de sua vizinhança, de suas rotas de trabalho e das redes materiais que tornam a vida possível.

Os bairros atingidos não eram um vazio geográfico à espera de uso econômico. Eram lugares onde a sobrevivência tinha endereço. Havia gente que vivia perto do emprego, da escola dos filhos, do posto de saúde, do mercado fiado, da igreja, da parentela que cuidava das crianças enquanto alguém enfrentava um turno de trabalho. Quando o chão racha e a área é evacuada, não desaparecem apenas imóveis registrados em cartório. Desaparece uma infraestrutura popular construída por décadas, frequentemente sem o reconhecimento que o mercado atribui a empreendimentos de alto padrão. A indenização pode calcular paredes, metragem e documentos; ela não recompõe a vida coletiva que permitia a uma diarista aceitar serviço em outro bairro, a um idoso contar com a vizinha ou a um pequeno comerciante conhecer cada cliente pelo nome.

Quando a casa deixa de ser abrigo e vira ativo sacrificável

O caso de Maceió torna visível algo que costuma ficar oculto pela linguagem empresarial. A mineração não retirou somente sal-gema do subsolo: retirou segurança e permanência de quem morava acima dele. A empresa operou durante anos sobre um território habitado, e as consequências da exploração recaíram sobre pessoas que não participaram dos lucros nem decidiram os rumos da atividade. Quando a instabilidade se tornou incontornável, a discussão pública passou a girar em torno de acordos, valores, reassentamentos e responsabilidades administrativas. Tudo isso importa, mas pode também reduzir uma violência social a uma planilha de compensações.

É precisamente aí que a acumulação primitiva deve ser compreendida como processo presente, e não como capítulo escolar encerrado. Em Marx, a formação do capitalismo exigiu que multidões fossem afastadas dos meios pelos quais viviam. Não bastava que existissem pessoas dispostas a trabalhar; era necessário produzir pessoas obrigadas a vender sua força de trabalho porque já não controlavam terra, ferramentas, moradia ou condições autônomas de subsistência. Em Maceió, não se trata de repetir mecanicamente a história dos cercamentos ingleses. Trata-se de reconhecer a mesma lógica sob formas brasileiras contemporâneas: a riqueza privada avança porque o custo de desorganizar a vida dos outros é empurrado para os próprios atingidos e, em seguida, para o poder público.

O morador removido não chega a uma nova casa como quem simplesmente troca um bem por outro. Ele enfrenta aluguel, deslocamentos mais longos, perda de clientela, interrupção de estudos, adoecimento e a quebra dos apoios cotidianos. Para quem trabalha por diária, por comissão, por entrega, por escala ou por produtividade, a distância não é um detalhe urbanístico. Uma hora adicional de ônibus pode significar menos corrida aceita, menos descanso, menos tempo de cuidado e mais gasto com transporte. A expropriação se prolonga no corpo: ela reorganiza o sono, a alimentação, o orçamento e a possibilidade de recusar um trabalho ruim.

A indenização não devolve o território social

O capitalismo possui uma capacidade notável de converter perdas irreparáveis em operações aparentemente solucionáveis. Um valor é depositado, um contrato é assinado, uma família é deslocada e a máquina jurídica registra que houve reparação. Mas a forma monetária não mede tudo o que ela destrói. O dinheiro é necessário para quem perdeu sua moradia e não se deve romantizar a precariedade em nome de uma comunidade abstrata. O problema é outro: apresentar o pagamento como encerramento total do dano permite que a vida comum seja tratada como mercadoria substituível.

Uma casa situada perto de uma rede de parentes, serviços e oportunidades de trabalho tem um valor social que não se confunde com seu preço de mercado. Quando uma população é espalhada pela cidade, essa rede é desfeita. Quem tinha uma pequena venda perde fluxo; quem fazia comida para fora perde freguesia; quem dependia da avó no quarteirão para trabalhar precisa pagar por cuidado ou abandonar parte da renda. A expulsão, nesse sentido, produz uma nova dependência. Trabalhadores que já viviam sob salários baixos ou ocupações informais tornam-se ainda mais vulneráveis à chantagem do mercado: aceitam piores jornadas porque precisam refazer, às pressas, as condições mínimas de viver.

Não por acaso, a linguagem do empreendedorismo aparece tão pronta para ocupar esses escombros. Diante da destruição, recomenda-se resiliência, adaptação, reinvenção individual. A pessoa que perdeu bairro, clientela e tempo de deslocamento é convocada a “enxergar oportunidades”. Trata-se da ideologia neoliberal em seu ponto mais cruel: uma violência produzida por uma grande empresa e tolerada por estruturas estatais é devolvida à vítima como teste de atitude. Se ela não se recompõe, o problema parece ser falta de planejamento pessoal; se consegue sobreviver, sua sobrevivência é convertida em prova de que o sistema funciona.

O Estado não está fora da máquina de expropriação

Seria confortável imaginar uma oposição simples entre empresa predadora e Estado reparador. A realidade é mais dura. Como insiste Alysson Mascaro ao analisar a forma estatal no capitalismo, o Estado não paira acima das classes como árbitro neutro: sua própria estrutura organiza e garante as relações sociais capitalistas. Isso não significa que toda ação pública seja idêntica, nem que direitos e disputas judiciais sejam inúteis. Significa que a reparação chega dentro de uma ordem em que a propriedade, a continuidade dos negócios e a estabilidade dos investimentos têm peso estrutural muito maior do que a autodeterminação das populações atingidas.

Em Maceió, licenças, fiscalização, órgãos públicos, perícias e acordos não são elementos externos ao desastre. Eles compõem o terreno institucional no qual uma atividade de alto risco pôde operar sob uma cidade. Quando a crise explode, o Estado administra seus efeitos: delimita áreas, conduz negociações, oferece serviços emergenciais e busca tornar governável uma devastação que não impediu. A conta não é paga apenas pela empresa. Ela é absorvida por redes públicas de saúde, assistência, habitação e mobilidade, enquanto trabalhadores arcam com a parte não contabilizada: medo, perda de renda, isolamento e trabalho adicional para reconstruir a rotina.

Essa é uma das formas pelas quais a classe dominante conserva sua posição. O lucro se concentra; os riscos se distribuem. A empresa apresenta resultados como fruto de gestão e capacidade técnica, mas os danos de sua operação são socializados quando atingem bairros inteiros. O espetáculo corporativo, no sentido de Debord, oferece então a imagem da responsabilidade: campanhas, relatórios, compromissos, peças de comunicação e promessas de reparação. A imagem não é irrelevante, mas pode funcionar como substituto da pergunta decisiva: por que uma atividade privada recebeu poder para comprometer a permanência de uma população em seu próprio território?

Ver a expropriação muda o nome do problema

Enxergar Maceió por essa lente impede que o leitor trate o caso como uma excepcionalidade triste, distante e resolvida por especialistas. A mesma lógica aparece quando comunidades são removidas para obras e empreendimentos, quando terras indígenas e quilombolas são entregues à cobiça mineral e agropecuária, quando privatizações transformam serviços necessários em fontes de renda financeira e quando plataformas transferem para entregadores os custos da bicicleta, do celular, do acidente e do tempo parado. Em cada situação, algo que sustentava a vida coletiva é apropriado, encarecido ou destruído para abrir espaço à valorização do capital.

Isso também muda a maneira de olhar para a própria experiência de trabalho. O salário não é o único instrumento de submissão. A precarização se aprofunda quando o trabalhador perde moradia acessível, transporte público, tempo de cuidado, proteção social e comunidade. Quem depende integralmente do mercado para comer, morar e se deslocar negocia sob coerção, ainda que assine contratos formalmente livres. A liberdade vendida pelo capitalismo é, muitas vezes, a liberdade de escolher qual exploração suportar para não cair no abismo.

Maceió não pede piedade abstrata. Exige que se recuse a normalidade de um país onde territórios populares podem ser tornados inviáveis para que a extração privada continue sendo tratada como negócio. Depois de reconhecer a acumulação primitiva no presente, já não é possível chamar toda perda de “efeito colateral”, toda remoção de “realocação” e toda sobrevivência de “resiliência”. Há nomes mais precisos: expropriação, classe, responsabilidade e luta pelo direito de permanecer onde a vida foi construída.