Quando as enchentes de 2024 atingiram o Rio Grande do Sul, a devastação expôs muito mais que a insuficiência criminosa da prevenção pública diante do desastre climático. Casas, pontes, estradas, armazéns e lavouras foram arrastados por uma catástrofe cujo peso caiu desigualmente sobre quem já vivia da venda cotidiana da própria força de trabalho. No caso do arroz, alimento básico e componente material da sobrevivência de milhões, a interrupção da produção e da circulação levou o governo federal a discutir importações para recompor o abastecimento. A medida virou disputa política, foi atacada por interesses empresariais e, depois, abandonada. Mas o ponto decisivo não estava somente no edital de compra, nem no oportunismo da extrema direita que explorou o medo da alta dos preços. Estava na revelação de uma economia incapaz de organizar sua produção essencial segundo a necessidade social, porque ela foi moldada para servir à acumulação privada e a uma posição subordinada no mercado mundial.
É fácil tratar a dependência como assunto de especialistas: balança comercial, reservas internacionais, juros, multinacionais, acordos entre governos. Essa distância é ideológica. Ela faz parecer que a dependência ocorre em algum gabinete de Brasília, Washington ou Pequim e que a vida de uma trabalhadora de supermercado, de um caminhoneiro ou de um entregador de aplicativo apenas sofre seus efeitos secundários. O caso do arroz desmente essa separação. Quando o preço ameaça subir, quem não tem estoque em casa, salário estável ou renda suficiente não acompanha o debate como espectador. Troca produtos, reduz refeições, aceita mais horas de trabalho e entra em dívida. A vulnerabilidade da cadeia de abastecimento se converte, sem demora, em disciplina sobre o corpo de quem trabalha.
O alimento popular sob a lógica da mercadoria global
O Brasil é frequentemente apresentado como potência do agronegócio, fórmula publicitária que pretende encobrir uma contradição elementar. Produzir muito não significa assegurar comida barata, estável e saudável para a população. A agricultura capitalista responde a preços, contratos, crédito, exportações e margens de lucro; a fome e a carestia são tratadas como problemas posteriores, a serem administrados por programas emergenciais. A imagem dos navios carregados de commodities saindo dos portos convive com a insegurança de abastecimento de itens cotidianos. Não há paradoxo acidental nisso. Há uma orientação histórica: terra, financiamento, infraestrutura e política econômica são organizados para transformar recursos naturais e trabalho barato em valor apropriável em circuitos que ultrapassam o país.
Mesmo onde o arroz não é uma grande commodity de exportação como a soja, a crise revelou a mesma estrutura. A produção agrícola depende de insumos, máquinas, combustíveis, crédito e fretes submetidos a cadeias empresariais concentradas e a preços definidos em condições que os pequenos produtores e trabalhadores não controlam. Uma enchente não atinge uma economia socialmente neutra; ela encontra uma rede já fragilizada por concentração fundiária, desproteção trabalhista, logística privatizada e especulação comercial. A emergência então vira oportunidade: atravessadores calculam estoques, redes varejistas preservam margens, proprietários negociam compensações, e a população recebe a recomendação moral de pesquisar preços e consumir com responsabilidade. Como se o problema fosse a escolha individual no corredor do mercado.
A ideologia neoliberal chama essa ordem de eficiência. O Estado só pareceria legítimo quando socorre empresas, concede crédito, assegura estradas e reduz riscos para o capital. Se tenta intervir para garantir abastecimento, aparece imediatamente o coro que denuncia distorção, desperdício ou ameaça à liberdade econômica. Trata-se da liberdade de alguns decidirem sobre um bem necessário à vida de todos. A polêmica sobre a importação de arroz mostrou como o abastecimento popular pode ser sequestrado por grupos econômicos e por uma direita que transforma qualquer ação pública em espantalho, embora nunca recuse a proteção estatal destinada aos grandes proprietários e às corporações.
Quem paga pela adaptação imposta de cima
Na ponta da cadeia, a dependência assume a forma de jornada. O trabalhador rural que perde dias de serviço por causa da chuva extrema não possui a cobertura patrimonial do dono da terra. A auxiliar de limpeza dispensada de um comércio fechado pela inundação precisa resolver a própria sobrevivência antes que a cidade se recupere. O motorista que transporta alimentos enfrenta rota interrompida, custo elevado e pressão para cumprir prazos. E o entregador de aplicativo, convocado justamente quando bairros estão isolados e famílias dependem de entregas, é induzido a atravessar alagamentos para não perder a renda definida por algoritmos opacos.
Não se trata de equiparar todas essas experiências, mas de enxergar sua ligação. A economia dependente precisa compensar sua posição subordinada tornando o trabalho mais intenso, mais longo, mais inseguro e mais barato. Ruy Mauro Marini chamou esse mecanismo de superexploração do trabalho: não é apenas pagar menos que o valor produzido, como ocorre em toda relação capitalista; é pressionar a remuneração e as condições de reprodução da vida para além do que permitiria ao trabalhador recompor normalmente suas forças. O entregador que pedala doente porque não há remuneração por afastamento, a operadora de call center que mantém metas depois de passar horas sem luz em casa, o assalariado que compra comida mais cara sem reajuste salarial vivem essa operação de modo direto.
A catástrofe climática acrescenta uma camada brutal. Enquanto países centrais concentram recursos tecnológicos, financeiros e militares para proteger seus mercados e sua infraestrutura, territórios periféricos recebem a conta ambiental de um modelo de crescimento que não controlam. Isso não absolve as elites brasileiras; ao contrário, elas são sócias ativas da destruição. O latifúndio que avança sobre biomas, a mineração que ameaça rios, a especulação imobiliária que empurra pobres para áreas de risco e o poder público que desmancha a prevenção participam de uma mesma engrenagem. A dependência não é uma prisão externa que inocenta a burguesia nacional. É um pacto lucrativo entre frações locais do capital e centros de comando mais poderosos.
O espetáculo da emergência e o apagamento da estrutura
Depois da inundação, imagens de resgates, doações e voluntários circularam intensamente. A solidariedade popular foi real e indispensável. Mas a sociedade do espetáculo, como analisou Guy Debord, tem a capacidade de converter a própria tragédia em sequência de cenas consumíveis: o helicóptero, a celebridade que doa, o empresário que promete reconstruir, o político de colete. A emoção pública substitui a pergunta sobre quem decidiu que cidades inteiras poderiam crescer sem proteção adequada, por que trabalhadores foram obrigados a retornar cedo ao serviço e quais interesses determinam o uso da terra.
O bolsonarismo atua nesse cenário como máquina de confusão organizada. Ele alterna negacionismo climático, desinformação sobre ações de emergência e defesa irrestrita da propriedade privada, enquanto acusa de ideologia qualquer tentativa de explicar as causas sociais do desastre. Sua força não está em oferecer solução coerente, mas em impedir que o sofrimento se transforme em consciência de classe. Se a alta do arroz é culpa abstrata do governo, se a enchente é vontade divina, se o trabalhador precarizado é um empreendedor que precisa se esforçar, desaparecem as relações materiais que conectam cada uma dessas situações.
Enxergar a dependência muda o sentido da notícia diária. O aumento no mercado deixa de ser só um incômodo doméstico; a corrida do aplicativo deixa de ser escolha tecnológica inevitável; a enchente deixa de ser fatalidade meteorológica. Tudo isso passa a ser visto como parte de uma forma de organização social que exporta riqueza, importa vulnerabilidade e exige que a classe trabalhadora absorva os choques. Essa percepção não oferece conforto, nem uma solução individual para a próxima compra de arroz. Ela retira, porém, a culpa que o capitalismo deposita sobre quem não consegue dar conta da própria vida e aponta o conflito onde ele realmente está: na disputa por controlar a produção, a terra, a infraestrutura e o tempo humano que hoje servem ao lucro.
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