Quando a extrema direita levou milhares de pessoas à Avenida Paulista, em fevereiro de 2024, sob o pretexto de defender Jair Bolsonaro e pedir anistia aos envolvidos nos ataques de 8 de janeiro, não estava apenas organizando um ato de solidariedade partidária. Estava produzindo uma narrativa. No palanque e nas faixas, a invasão e a depredação das sedes dos Poderes apareciam dissociadas de seu objetivo político; os réus eram apresentados como patriotas perseguidos, e a responsabilização criminal, como tirania. A operação é conhecida: retira-se a violência de seu contexto, apagam-se seus organizadores e financiadores, invertem-se vítima e agressor. Então, aquilo que foi uma tentativa de submeter a ordem democrática à força vira, convenientemente, uma opinião que teria sido reprimida.
O revisionismo não prospera porque todos desconheçam os fatos. Ele prospera porque o capitalismo brasileiro já ensinou milhões de pessoas a enxergar a vida social como uma disputa isolada de sobrevivências, na qual toda proteção coletiva parece privilégio alheio e todo limite ao poder parece perseguição. A história reescrita pela extrema direita oferece uma compensação imaginária a essa despossessão: em vez de reconhecer as causas materiais do medo, da dívida, do desemprego e da precarização, o trabalhador é convidado a se sentir parte de uma nação humilhada por inimigos internos. A anistia deixa de ser uma questão jurídica e se converte em senha afetiva de pertencimento.
O ato na Paulista não pediu apenas absolvição
O pedido de anistia aos envolvidos no 8 de janeiro tem um sentido que ultrapassa os processos em curso. Anistiar, nesse discurso, é declarar que não houve crime político contra a democracia, apenas um excesso compreensível de cidadãos revoltados. É antecipar um julgamento sobre a memória: se os responsáveis devem ser perdoados antes mesmo que a sociedade assimile a gravidade dos fatos, então a própria tentativa de golpe deve ser reduzida a um episódio confuso, simétrico a qualquer protesto de rua.
Essa simetria é uma fraude. Uma greve, uma ocupação estudantil ou uma manifestação por moradia podem confrontar governos e instituições para ampliar direitos ou resistir à violência estatal. Já a mobilização golpista reivindica que a força militar ou uma liderança autoritária se sobreponham ao voto, às regras constitucionais e à existência da oposição. Não se trata de defender uma abstração liberal como se ela bastasse para emancipar alguém. A democracia brasileira é marcada pelo poder econômico, por uma imprensa concentrada, pelo racismo estrutural e por um Estado que protege a propriedade com muito mais zelo do que protege a vida. Mas é precisamente por ser limitada e disputada que ela não pode ser entregue ao projeto que pretende fechar ainda mais seus canais de conflito e organização popular.
O bolsonarismo precisa chamar golpismo de liberdade porque não consegue defender abertamente o que a ruptura autoritária promete às classes dominantes: sindicatos mais frágeis, direitos mais fáceis de cortar, oposição intimidada e trabalhadores ainda mais disponíveis para aceitar qualquer condição. O fascismo não é uma irracionalidade caída do céu. Ele é uma resposta política de setores do capital e de suas bases sociais quando a igualdade, mesmo a mais modesta, passa a parecer uma ameaça à hierarquia.
A ditadura reaparece como saudade porque o trabalho foi apagado dela
A falsificação em torno do 8 de janeiro se apoia numa falsificação mais antiga: a memória da ditadura empresarial-militar iniciada em 1964. Sua defesa costuma vir embrulhada em frases sobre ordem, segurança e crescimento. Mas ordem para quem? O período não foi uma suspensão neutra da política em nome da eficiência. Foi sustentado por cassações, censura, tortura e assassinatos, ao mesmo tempo que reorganizou a economia em favor dos grandes negócios e conteve pela força a capacidade de reivindicação da classe trabalhadora.
Quando a ditadura é lembrada apenas por estradas, obras e uma imagem abstrata de autoridade, some a vida concreta de quem trabalhava. Somem os salários comprimidos, a repressão às organizações operárias, a vigilância sobre militantes, a violência dirigida aos que ousavam transformar o local de trabalho em espaço de luta. A propaganda do “Brasil que funcionava” substitui pessoas por indicadores de uma grandeza nacional sem sujeito. É a mesma lógica que hoje celebra a rapidez de uma plataforma de entregas sem perguntar quem pedala no trânsito, sem descanso, recebendo por corrida e assumindo sozinho o custo da bicicleta, do acidente e da doença.
Marx mostrou que a dominação capitalista não se reduz à retirada de dinheiro do bolso do trabalhador. Ela também separa quem produz das condições e do sentido de sua própria atividade. Essa alienação cria terreno para que a exploração seja percebida como destino individual. O entregador pode ser induzido a crer que sua exaustão é falta de empreendedorismo; a professora, que precisa completar renda em várias escolas, pode ouvir que o problema é sua incapacidade de se adaptar; o operador de call center, medido por segundos e scripts, aprende que a meta é uma virtude moral. O revisionismo histórico acrescenta uma peça a essa máquina: diz que houve um tempo em que cada qual conhecia seu lugar e que questionar a ordem levou o país à ruína.
O espetáculo troca memória por sensação
Debord descreveu a sociedade do espetáculo como uma relação social mediada por imagens. Na política digital, essa mediação acelera a fabricação de passado. Vídeos curtos opõem cenas selecionadas de violência urbana a uma fantasia de normalidade autoritária; memes tratam torturadores como personagens provocadores; transmissões transformam investigações sobre uma trama golpista em novela de perseguição. A repetição não precisa demonstrar nada: ela precisa apenas produzir familiaridade, raiva e uma comunidade de espectadores convencidos de que já sabem o que aconteceu.
Isso não significa que quem compartilha essas mensagens seja simplesmente enganado por uma técnica onipotente. Há experiências reais de abandono e insegurança que a propaganda captura. O problema é que ela lhes oferece um alvo falso. Em vez de dirigir a revolta contra empresas que rebaixam salários, contra plataformas que governam por algoritmo ou contra governos que desmontam serviços públicos, ela a dirige contra professores, movimentos sociais, artistas, imigrantes, pobres e instituições democráticas. A multidão, observava Gustave Le Bon, pode ser intensamente sugestionável; a lição política não é desprezar as massas, mas compreender como afetos coletivos podem ser organizados por lideranças interessadas em transformar frustração em obediência.
O revisionismo é especialmente útil nesse trabalho porque elimina a experiência acumulada das derrotas. Se a ditadura foi benigna, não há por que temer a tutela militar. Se o golpe é apenas uma palavra da esquerda, não há por que punir seus articuladores. Se todo adversário é igualmente corrupto ou autoritário, não há diferença entre uma disputa política e a destruição das condições para disputá-la. A história deixa de ser campo de conflito material e vira um estoque de símbolos que o algoritmo entrega conforme a indignação do dia.
Reconhecer a manobra muda a posição de quem trabalha
Enxergar o revisionismo em operação não exige decorar datas para vencer debates de internet. Exige perceber que a disputa pelo passado é uma disputa sobre quais violências serão toleradas no futuro. Quem aceita que os ataques de 8 de janeiro foram um gesto cívico acaba mais disponível para aceitar que a repressão a uma greve seja manutenção da ordem. Quem naturaliza a ditadura como época eficiente tende a olhar a organização coletiva como desordem. E quem admite que golpistas sejam transformados em vítimas ajuda a consolidar uma política em que a vítima verdadeira — o trabalhador precarizado, a população negra sob violência policial, a mulher ameaçada, o indígena expulso de seu território — deve provar incessantemente que merece existir.
A memória não é um altar imóvel nem uma versão oficial intocável. Investigar documentos, corrigir mitos e ampliar os sujeitos da narrativa histórica é necessário. Mas uma revisão honesta se orienta pela busca das relações que produziram os fatos, inclusive suas contradições. A falsificação autoritária faz o contrário: recorta, absolve e rebatiza para preservar o poder. Seu objetivo não é compreender 1964 ou 2023; é tornar aceitável a próxima suspensão de direitos em nome de uma ordem que, como sempre, cobrará sua conta de baixo para cima.
Depois de enxergar isso, a tarefa não é apenas rebater uma mentira isolada. É recusar a gramática que transforma exploração em mérito, repressão em segurança e golpe em patriotismo. A defesa da memória democrática só ganha corpo quando se liga à defesa concreta de tempo livre, salário, serviço público, organização sindical e vida digna. É aí que a narrativa autoritária perde seu encanto: quando o trabalhador deixa de procurar no passado uma autoridade que o salve e passa a reconhecer, no presente, os interesses que lucram com seu medo.
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