A definição de fascismo não se encontra apenas em uniformes, gestos ou discursos de ódio. Ela aparece quando uma crise social produz uma política de massas que promete restaurar uma ordem imaginária, identifica inimigos internos e transforma a violência em solução. No Brasil, o bolsonarismo ofereceu a forma contemporânea desse processo: um movimento que combinou ressentimento de classe média, militarização da linguagem, fundamentalismo religioso, racismo, anticomunismo e defesa agressiva da propriedade, tudo organizado ao redor de um líder apresentado como encarnação da nação.
Isso não significa chamar de fascista qualquer governo autoritário, conservador ou de direita. A palavra perde força quando vira apenas insulto. O fascismo é uma forma específica de resposta à crise do capitalismo: mobiliza setores socialmente frustrados, promete esmagar a política institucional em nome do povo verdadeiro e preserva, por trás do espetáculo de rebeldia, as relações materiais que produzem a própria frustração. Sua novidade está em apresentar a destruição das mediações democráticas como uma espécie de libertação popular.
A definição de fascismo está na relação entre crise e mobilização
O fascismo não nasce simplesmente da maldade de um líder ou da ignorância de seus seguidores. Ele se fortalece quando a vida social se torna insuportável e as explicações disponíveis são capturadas por uma narrativa de purificação. O trabalhador submetido a metas impossíveis, o pequeno comerciante endividado, o profissional precarizado e o funcionário público ameaçado de perder direitos encontram uma experiência real de insegurança. A ideologia desloca a causa dessa insegurança: em vez da exploração, aponta o imigrante, o pobre, a esquerda, a universidade, o servidor, a imprensa ou qualquer grupo transformado em inimigo.
A operação é material e simbólica. O capitalismo produz desigualdade e instabilidade, mas o fascismo oferece uma compensação imaginária: a sensação de pertencer a uma comunidade nacional superior, disciplinada e vingativa. A promessa não é igualdade. É reconhecimento por meio da hierarquia. Quem perdeu poder econômico pode ser convidado a sentir-se poderoso ao controlar o corpo de uma mulher, humilhar um trabalhador pobre, atacar uma pessoa LGBT ou defender a violência policial. A dominação passa a ser vivida como identidade.
O conceito de multidão em Le Bon ajuda a perceber como a complexidade social é comprimida em imagens simples, palavras de ordem e afetos compartilhados. Mas a multidão fascista não é uma massa espontânea e sem direção. Ela é produzida por organizações, igrejas, empresários da comunicação, redes digitais e frações do Estado. Sua irracionalidade aparente convive com interesses muito concretos. O ódio pode ser caótico na forma e funcional na consequência.
O espetáculo fabrica o inimigo e absolve o poder
Nas redes sociais, o bolsonarismo transformou a política em uma sequência permanente de cenas de confronto. O vídeo curto, a live, o meme, a acusação sem prova e a ameaça repetida criam uma realidade em que a reação importa mais que o fato. Debord descreveu o espetáculo como uma relação social mediada por imagens. No fascismo digital, essa mediação não apenas representa a política: ela substitui a política por uma disputa ininterrupta de visibilidade, indignação e lealdade.
O paradoxo é que o líder se apresenta como inimigo do sistema enquanto depende das estruturas do próprio sistema. Ataca o Supremo Tribunal Federal, mas disputa eleições; denuncia a imprensa, mas usa seus canais de circulação; demoniza o Estado, mas reivindica seus recursos repressivos; promete destruir a velha política, mas negocia com partidos e grupos econômicos. A contradição não desmobiliza a base. Pelo contrário: cada incoerência pode ser convertida em prova de autenticidade. Se o líder mente, a mentira vira coragem; se recua, o recuo vira estratégia; se perde, a derrota vira fraude.
Foi nesse terreno que se formou a campanha contra as urnas eletrônicas e, depois, a recusa do resultado eleitoral de 2022. Os acampamentos diante de quartéis, os pedidos de intervenção militar e a invasão das sedes dos poderes em 8 de janeiro de 2023 não foram um acidente produzido por indivíduos isolados. Foram a manifestação concreta de uma pedagogia política prolongada: ensinar que a vontade do líder vale mais que o voto, que a força armada deve arbitrar a sociedade e que o adversário político não é um cidadão, mas um traidor.
O fascismo brasileiro não é cópia do passado
Comparações históricas exigem cuidado. O fascismo italiano e o nazismo alemão surgiram em condições específicas, com partidos de massas, organizações paramilitares e projetos estatais próprios. O Brasil do século XXI não repete mecanicamente essas formas. O bolsonarismo opera em uma democracia formal, disputa eleições, utiliza plataformas privadas e se apoia em uma economia marcada pela financeirização, pela informalidade e pela uberização. Sua aparência é menos a do partido totalizante e mais a de uma rede de mobilização permanente.
Essa diferença não torna o fenômeno menos perigoso. A tecnologia de plataforma permite uma combinação inédita de vigilância, personalização e convocação política. O mesmo aparelho que calcula a rota do entregador pode medir sua disposição para consumir uma mensagem política. O trabalhador conectado por necessidade econômica também é alcançado por uma indústria de ressentimento que transforma precariedade em guerra cultural. A técnica, nesse caso, não é neutra: organiza o tempo, distribui atenção e favorece a circulação de conteúdos capazes de produzir reação imediata.
Heidegger compreendeu a técnica moderna como uma forma de enquadramento que transforma tudo em recurso disponível. Na política digital, pessoas aparecem como dados, segmentos eleitorais e alvos de persuasão. A própria revolta pode ser administrada. O fascismo contemporâneo não precisa controlar todos os meios de comunicação; basta ocupar os fluxos, impor a pauta e converter cada indignação em prova de pertencimento.
Por que a defesa da ordem pode ser uma política de ruptura
O fascismo se anuncia como defesa da ordem, mas sua ordem é construída pela suspensão de limites. O líder promete restaurar a família, a pátria, a religião e a autoridade enquanto normaliza a ameaça, a mentira e o ataque às instituições. A desordem que ele produz é apresentada como necessária para eliminar uma desordem anterior, atribuída a inimigos sociais. Assim, a violência deixa de ser exceção e vira método de governo.
A análise de Alysson Mascaro sobre o Estado ajuda a evitar uma interpretação superficial. O Estado não é um árbitro acima das classes, capaz de corrigir qualquer conflito por vontade própria. Ele organiza juridicamente relações sociais capitalistas e oferece a aparência de igualdade entre sujeitos profundamente desiguais. O fascismo cresce quando essa forma política entra em crise, mas não pretende abolir automaticamente o capitalismo. Ele pode preservar contratos, propriedade e exploração enquanto destrói garantias, direitos e freios à coerção.
Por isso, o fascismo pode contar com apoio de setores empresariais mesmo quando se apresenta como revolta antissistema. A retórica contra privilégios frequentemente poupa os proprietários e atinge quem depende de políticas públicas, sindicatos e direitos trabalhistas. A liberdade celebrada é a liberdade do capital para contratar sem estabilidade, vigiar sem limite e demitir sem responsabilidade. O autoritarismo político aparece como complemento da disciplina econômica.
A definição de fascismo, então, não deve ser procurada em um catálogo de características isoladas. Ela está na articulação entre uma crise social real, uma promessa de regeneração nacional, a fabricação de inimigos, a concentração afetiva no líder e a disposição de destruir mediações democráticas para proteger uma ordem de classe. No Brasil, o bolsonarismo tornou essa articulação visível ao converter a frustração produzida pela precarização em ódio contra a democracia, a ciência, os direitos e os trabalhadores organizados.
Combater o fascismo exige mais que denunciar seus excessos ou pedir moderação aos seus adeptos. É preciso disputar as causas materiais que alimentam o ressentimento, enfrentar a exploração e desmontar a indústria ideológica que oferece inimigos no lugar de explicações. Enquanto a insegurança for tratada como falha individual e a política como espetáculo de vingança, a extrema direita continuará encontrando matéria-prima. A democracia não será protegida por cerimônias institucionais enquanto a maioria viver sob a disciplina cotidiana da ameaça. Ela só poderá resistir quando a vida social deixar de ser organizada para o lucro e para a obediência.
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