O que significa fascista não se resolve com uma lista de adjetivos — autoritário, intolerante, violento — embora todos possam estar presentes. Se fascista fosse apenas quem grita, odeia minorias ou despreza eleições, a palavra serviria para condenar indivíduos grosseiros e perderia sua força histórica. Fascismo é uma forma de política de massas que emerge em crises sociais para reorganizar a dominação de classe pela mobilização do medo, do nacionalismo, do culto ao chefe e da violência contra inimigos fabricados. Ele não elimina necessariamente o capitalismo; apresenta-se, muitas vezes, como sua cura moral, enquanto protege suas hierarquias fundamentais.

Essa definição importa no Brasil porque a banalização do termo tem dois usos convenientes. De um lado, a direita reclama que “fascista” virou xingamento, como se sua própria história política estivesse livre de movimentos autoritários. De outro, parte da esquerda aplica a palavra a todo conservador, todo policial ou todo eleitor reacionário, dispensando a análise das condições que convertem preconceito difuso em projeto político. O fascismo não é uma personalidade ruim. É uma máquina social. Sua matéria-prima é o mal-estar produzido por uma sociedade desigual; seu trabalho é dar a esse mal-estar um alvo mais fraco do que os proprietários, os bancos e os empregadores.

O que significa fascista numa sociedade de classes

O fascismo histórico surgiu em sociedades capitalistas atravessadas por crise, medo da organização operária e incapacidade das instituições liberais de estabilizar o conflito. Não foi uma rebelião dos pobres contra os ricos. Foi a mobilização de setores médios arruinados, frações populares desesperadas, empresários, aparelhos repressivos e elites políticas em torno da destruição da esquerda e da submissão da vida social a uma ordem nacional disciplinada. Sua promessa era devolver dignidade ao “povo”; seu resultado era esmagar sindicatos, perseguir comunistas, racializar inimigos e preservar a propriedade sob comando autoritário.

Marx mostrou, ao analisar as formas políticas da dominação burguesa, que o Estado não paira acima das classes como juiz imparcial. Ele organiza, com autonomia relativa, as condições gerais da reprodução capitalista. Alysson Mascaro retoma esse ponto para desmontar a fantasia de que a legalidade, por si só, imuniza uma sociedade contra a violência de classe. Regimes fascistas podem usar leis, tribunais, eleições, decretos e uniformes institucionais. A questão decisiva não é se um chefe autoritário rasgou formalmente toda norma, mas que forças ele mobiliza, contra quem dirige o poder estatal e qual ordem material sua violência conserva.

Por isso, fascismo não é sinônimo simples de ditadura militar. Uma ditadura pode governar sobretudo pela coerção burocrática e pela suspensão aberta da participação política. O fascismo busca algo adicional: massas ativas, excitadas e convocadas a participar da perseguição. Ele transforma o cidadão em vigia, o vizinho em suspeito e a frustração em autorização para punir. A multidão não é apenas manipulada de fora; ela encontra, nessa adesão, uma compensação imaginária para sua impotência cotidiana.

O bolsonarismo e a fabricação do inimigo nacional

O bolsonarismo forneceu ao Brasil uma experiência concreta dessa dinâmica, ainda que seja mais rigoroso chamá-lo de movimento neofascista do que simplesmente igualá-lo, sem mediações, aos regimes europeu das décadas de 1920 e 1930. As diferenças históricas existem: não houve partido único, milícia estatal totalitária nem abolição integral da ordem eleitoral. Mas as diferenças não apagam os elementos reconhecíveis: culto à figura viril e armada do líder, nostalgia da ditadura, ataque sistemático à imprensa e às universidades, desprezo pelas vidas consideradas descartáveis, anticomunismo delirante e fabricação permanente de inimigos internos.

A mentira de que professores doutrinavam crianças, de que artistas destruíam a família, de que indígenas impediam o progresso nacional ou de que movimentos sociais eram ameaças terroristas não era um detalhe de comunicação. Era a técnica de produzir coesão pelo ódio. O comunismo, mesmo onde não tinha força real para tomar o poder, funcionava como espantalho capaz de reunir o empresário que teme impostos, o policial que deseja licença para matar, o pequeno comerciante endividado e o trabalhador precarizado que vê no vizinho pobre um concorrente. A unidade prometida era falsa: escondia antagonismos de classe sob a bandeira de uma pátria supostamente atacada.

Os acampamentos diante de quartéis após a derrota eleitoral de 2022 e os ataques de 8 de janeiro de 2023 condensaram essa lógica. Não foram uma “manifestação que saiu do controle”, nem prova de uma ingenuidade coletiva diante de boatos. Houve uma recusa organizada da soberania popular, alimentada por anos de suspeita contra as urnas e por lideranças que venderam a derrota como conspiração. A invasão das sedes dos Poderes tinha dimensão espetacular: precisava ser vista, gravada, retransmitida e celebrada como demonstração de força. Debord ajuda a compreender que o espetáculo não é mero excesso de imagens; é uma relação social mediada por imagens. Na tela do celular, a destruição podia aparecer como heroísmo patriótico, separada de suas consequências concretas e de seus financiadores.

Não é ignorância: é uma política do ressentimento

Seria confortável explicar a adesão fascistizante pela falta de educação. Essa saída preserva a superioridade moral de quem observa e não explica nada. Há trabalhadores escolarizados, empresários, médicos, militares, pastores, influenciadores e servidores públicos entre os que aderiram ao bolsonarismo. A formação escolar não dissolve automaticamente a ideologia quando a experiência material cotidiana ensina competição, humilhação e insegurança.

O entregador de aplicativo que pedala doze horas para pagar aluguel, o operador de call center vigiado por metas, o professor pressionado por avaliações e contratos instáveis: todos vivem uma ordem que lhes retira controle sobre o tempo e o futuro. A empresa de plataforma chama isso de autonomia; o neoliberalismo chama de empreendedorismo. Mas a precarização produz desamparo. O discurso fascista não cria esse desamparo do nada. Ele o captura e oferece uma explicação fraudulenta: seu sofrimento não vem da exploração, mas de feministas, imigrantes, pobres “dependentes”, servidores, artistas ou comunistas.

Gustave Le Bon, apesar de suas limitações conservadoras, percebeu que a multidão pode dissolver a responsabilidade individual e tornar-se receptiva a imagens simples e afirmações repetidas. O fascismo atual explora esse mecanismo sem precisar reunir todos numa praça. Grupos de mensagens, vídeos curtos e transmissões permanentes fabricam multidões dispersas, sincronizadas por indignação. A cada postagem, o indivíduo sente que pertence a uma maioria sitiada. A plataforma recompensa a reação rápida; a política fascista converte essa reação em identidade.

A palavra exige precisão e confronto

Chamar de fascista uma política ou um movimento exige demonstrar sua estrutura: a transformação da crise em ressentimento nacional, a construção de inimigos internos, a naturalização da violência, o ataque à organização popular e o apelo a uma massa disciplinada por um chefe. Não basta que alguém defenda costumes conservadores; tampouco a defesa de eleições basta para absolvê-lo quando as eleições são aceitas apenas se confirmarem sua vontade. A precisão não enfraquece a denúncia. Ao contrário, impede que a palavra se torne ruído e permite reconhecer os sinais antes que a violência se institucionalize ainda mais.

O problema brasileiro não terminou com a derrota eleitoral de Jair Bolsonaro. As condições que alimentam a extrema direita — desigualdade, trabalho degradado, abandono social, poder das plataformas e desmoralização da política — continuam operando. Combater o fascismo, então, não é apenas refutar uma mentira viral ou celebrar instituições abstratas. É reconstruir formas coletivas de vida e luta que devolvam ao trabalhador uma explicação verdadeira para sua miséria: não é o inimigo imaginário que o explora, mas uma ordem que precisa da sua insegurança para continuar lucrando.