Valor de uso e valor de troca são duas categorias decisivas para compreender uma violência que o capitalismo apresenta como ordem natural. Toda mercadoria possui, de um lado, uma utilidade: ela serve para alimentar, vestir, transportar, abrigar, comunicar ou realizar alguma necessidade humana. Este é seu valor de uso. De outro, ela entra em relações de equivalência no mercado, é vendida por um preço, circula e participa da acumulação: este é seu valor de troca. Marx não formulou essa distinção para oferecer um vocabulário técnico a economistas. Ele expôs a contradição de uma sociedade em que a satisfação das necessidades só é reconhecida quando pode passar pelo filtro da venda, do lucro e da propriedade privada.
Não se trata de dizer que o uso desaparece. Uma marmita precisa matar a fome; uma casa precisa proteger da chuva; uma bicicleta precisa conduzir alguém pelas ruas. Mas, sob o capital, a finalidade concreta das coisas é subordinada a sua capacidade de se converter em dinheiro. Há comida suficiente em vitrines e depósitos enquanto pessoas passam fome porque não dispõem de renda. Há imóveis vazios em centros urbanos enquanto famílias vivem sob ameaça de despejo. Há remédios cujo valor de uso é evidente, mas cujo acesso depende de patentes, preços e cálculos empresariais. A irracionalidade não está numa suposta escassez moral dos indivíduos: está numa forma social que mede a riqueza prioritariamente pela possibilidade de troca, e não pela vida que ela poderia sustentar.
Valor de uso e valor de troca como conflito social
O valor de uso remete à qualidade concreta: pão alimenta, escola ensina, ônibus desloca, hospital cuida. O valor de troca exige abstração: diferentes trabalhos e diferentes objetos são postos em comparação no mercado por meio do dinheiro. Essa abstração é necessária à circulação das mercadorias, mas se torna dominante no capitalismo. O resultado é que a pergunta central deixa de ser “do que precisamos?” e passa a ser “quanto rende?”. Um sistema de transporte é avaliado por sua capacidade de cortar custos e atrair investimentos; a educação, por indicadores de desempenho e empregabilidade; a cultura, por audiência e conversão; a saúde, por contratos e margens.
Essa inversão alcança o trabalho. A força de trabalho tem valor de uso para o capitalista porque produz mais valor do que custa sua reprodução em salário. É neste ponto que a mais-valia deixa de ser uma palavra distante e revela seu conteúdo cotidiano. O trabalhador não vende um objeto acabado apenas: vende sua capacidade de trabalhar durante determinado tempo. No escritório, na sala de aula, no supermercado, no hospital ou sobre a motocicleta, produz riqueza que não controla. O salário aparece como pagamento justo por uma jornada, mas a jornada contém a parcela de trabalho que repõe seu próprio custo e a parcela apropriada pelo dono da empresa. A troca contratual, formalmente livre, encobre uma exploração material.
Quando a mercadoria se torna a medida da vida, a necessidade que não compra perde voz política, e o trabalho que cria riqueza aparece como mero custo a ser reduzido.
O entregador de aplicativo conhece essa contradição sem precisar nomeá-la em linguagem acadêmica. Para quem pede comida, a entrega possui valor de uso: ela resolve uma necessidade imediata, às vezes depois de uma jornada exaustiva. Para a plataforma, porém, o centro não é alimentar alguém nem garantir um trabalho digno; é extrair valor da organização digital de restaurantes, consumidores, dados e trabalhadores. A rapidez prometida ao cliente é sustentada pelo risco transferido ao entregador: combustível, manutenção, acidente, chuva, assalto, ausência de renda quando adoece. A plataforma vende conveniência e administra a precariedade como se ela fosse autonomia empreendedora.
O mesmo mecanismo opera no call center. A ligação poderia ter valor de uso, se significasse resolver um problema de quem depende de um serviço. Mas a empresa organiza o atendimento pela métrica de chamadas, pelo tempo médio, pelo roteiro rígido e pela pressão para encerrar contatos. O trabalhador é cobrado a parecer disponível, cordial e eficiente enquanto seu tempo é fragmentado em metas. Não importa primordialmente se a demanda foi de fato resolvida; importa que o processo seja mensurável, barato e escalável. A necessidade humana é convertida em protocolo, e o sofrimento de quem trabalha se torna uma variável administrável.
A técnica não é neutra quando serve ao valor de troca
Heidegger percebia que a técnica moderna não é somente um conjunto de ferramentas: ela enquadra o real como reserva disponível para exploração. No capitalismo de plataforma, esse enquadramento encontra uma forma particularmente agressiva. O trabalhador aparece no aplicativo como ponto no mapa, taxa de aceitação, nota, tempo de deslocamento e disponibilidade calculável. A cidade aparece como rota; o consumidor, como perfil de consumo; a vida coletiva, como banco de dados. Não é o celular em si que produz alienação. O problema é a organização social que usa a técnica para intensificar comando, vigilância e extração de valor, apresentando decisões empresariais como imperativos neutros de um algoritmo.
A ideologia empreendedora completa esse trabalho de ocultamento. Ela chama o entregador de parceiro, o vendedor informal de empresário de si mesmo e o desempregado de alguém que ainda não soube transformar sua habilidade em oportunidade. Assim, uma relação de dependência é narrada como liberdade. Se o rendimento cai, a responsabilidade parece individual; se a plataforma bloqueia a conta, o problema parece ser desempenho; se o trabalhador se esgota, faltaria resiliência. A meritocracia faz do resultado de uma estrutura desigual um julgamento moral sobre cada indivíduo. Ela é especialmente útil ao capital porque converte a exploração em culpa privada.
Debord ajuda a compreender a face visível dessa operação. Na sociedade do espetáculo, a mercadoria não se limita a circular: ela organiza imagens, desejos e identidades. O aplicativo não oferece apenas transporte ou comida; vende uma fantasia de vida sem espera, sem atrito, sem cozinhar, sem encontrar o trabalhador que torna o serviço possível. A publicidade transforma acesso rápido em sinal de distinção, enquanto esconde os corpos que pedalam ou dirigem por longas horas. Também o trabalho é espetacularizado: influenciadores de negócios celebram a liberdade de “fazer seu próprio horário”, mas raramente mostram que, para muitos, fazer o próprio horário significa estar permanentemente à disposição.
Recuperar o uso é disputar o sentido da riqueza
Defender o valor de uso não significa romantizar objetos ou imaginar um retorno a uma economia sem troca. Significa recusar que a troca mercantil seja o princípio soberano que decide quem come, mora, aprende, descansa e recebe cuidado. A riqueza social deve ser julgada por sua capacidade de ampliar as condições concretas de vida, e não pelo volume de transações que produz. Uma escola pública não vale porque forma “capital humano” competitivo, mas porque constitui saber e autonomia coletiva. Um hospital não pode ser reduzido a centro de custos. Transporte público não é mercadoria inferior para quem não conseguiu comprar um carro: é infraestrutura de uma cidade menos segregada.
Essa disputa é política, e não uma recomendação ética de consumo consciente. Nenhuma escolha individual no aplicativo desfaz, por si, a assimetria entre uma corporação e quem depende dela para sobreviver. São necessárias organização de trabalhadores, direitos efetivos, controle público sobre infraestruturas essenciais e formas de planejamento voltadas às necessidades sociais. O Estado capitalista, como ressalta Alysson Mascaro ao tratar das formas jurídicas e políticas, não paira acima das classes: ele organiza e reproduz condições da sociabilidade capitalista. Por isso, a regulamentação pode impor limites relevantes, mas não elimina automaticamente a lógica que põe o lucro acima da vida.
Falar em valor de uso e valor de troca é, enfim, recolocar uma pergunta que o capitalismo procura interditar: para que produzimos? Enquanto a resposta for “para valorizar o capital”, o pão continuará podendo faltar onde há fome, a moradia permanecerá inacessível onde há prédios vazios e a tecnologia seguirá prometendo liberdade enquanto aperfeiçoa a subordinação. A crítica marxista começa ao revelar essa inversão; sua tarefa não termina na denúncia. Ela aponta para uma sociedade em que produzir riqueza deixe de significar acumular mercadorias e volte a significar sustentar vidas livres da chantagem do mercado.
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