Em março de 2024, a reação do mercado à decisão da Petrobras de não distribuir imediatamente dividendos extraordinários ofereceu uma pequena aula pública sobre quem pretende mandar numa empresa estratégica. A administração propunha reter parte daquele dinheiro para avaliar investimentos e obrigações futuras; investidores reagiram como se uma riqueza lhes tivesse sido expropriada. A pressão foi tão ostensiva que o debate não girou prioritariamente em torno de refino, transição energética, preço dos combustíveis, empregos ou capacidade produtiva nacional. Girou em torno da remuneração esperada por quem possui ações. Mais tarde, a distribuição foi aprovada pelos acionistas. O episódio não foi uma anedota de Bolsa: condensou uma estrutura de poder em que o futuro da produção deve se justificar perante a exigência imediata do capital proprietário.
Não se trata de sugerir que uma empresa pública deva ignorar resultados, esconder ineficiência ou administrar recursos sem controle. O ponto é outro: qual resultado conta como sucesso, e para quem? Quando o dividendo se torna a medida soberana da boa gestão, investimento de longo prazo passa a parecer desperdício, reserva financeira vira provocação e política industrial é tratada como desvio. A empresa deixa de ser julgada por sua capacidade de produzir energia, desenvolver tecnologia, sustentar cadeias locais e responder a necessidades coletivas. Ela é submetida ao olhar de quem compra um direito sobre rendimentos futuros e exige que esse futuro seja antecipado em pagamento presente.
A Bolsa não é uma abstração distante do chão de fábrica
A distância entre uma assembleia de acionistas e a rotina de quem trabalha é menor do que parece. Para garantir margens, remunerar dívidas e preservar a cotação, a gestão empresarial procura transformar custos fixos em custos variáveis. É aí que aparecem terceirização, contratos temporários, metas inalcançáveis, congelamento salarial, redução de quadros e a transferência de riscos para trabalhadores. A planilha financeira não precisa conhecer o nome de ninguém para reorganizar uma vida. Ela chega ao setor de atendimento na forma de menos colegas para a mesma fila; ao professor de escola privada na forma de turmas maiores e plataformas que multiplicam tarefas; ao operador de logística na forma de produtividade cronometrada; ao entregador de aplicativo na forma de uma taxa alterada unilateralmente por um algoritmo.
O entregador não recebe um memorando dizendo que sua renda foi comprimida para satisfazer a valorização de ativos. Recebe um mapa com corridas ruins, uma pontuação opaca e a ameaça permanente de ficar sem acesso à plataforma. Mas a lógica é compatível. A empresa de plataforma se apresenta como intermediária tecnológica, reduz sua responsabilidade trabalhista e transforma cada bicicleta, moto, acidente e hora ociosa em problema individual. Para os fundos e investidores, a promessa é crescimento escalável, isto é, expansão sem a correspondente incorporação de direitos e custos. Para quem pedala, a promessa empreendedora esconde uma subordinação radical: trabalhar muito, sem saber quanto efetivamente ganhará no fim do dia, em função de critérios que não controla.
Marx mostrou que o capital não é simplesmente uma soma de dinheiro, mas uma relação social que organiza a produção para se valorizar. Sob o comando financeiro, essa relação adquire uma urgência específica: não basta extrair mais-valia no processo de trabalho; é preciso que os resultados atendam rapidamente à expectativa dos credores, acionistas e administradores de patrimônio. A pressão por rentabilidade encurta o horizonte empresarial. Uma fábrica, uma escola, uma estatal ou um hospital passam a ser observados como portfólios de receitas, riscos e retornos. O que não se converte depressa em número favorável aparece como peso, mesmo que seja essencial para a vida social.
O Estado também aprende a falar a língua do credor
Essa ordem não fica confinada às empresas listadas em Bolsa. Ela atravessa o Estado brasileiro, especialmente quando o orçamento público é tratado antes de tudo como sinal dirigido ao chamado mercado. A discussão sobre gasto social, salário de servidor, concurso público, investimento em universidade, moradia e infraestrutura costuma começar pela pergunta sobre a reação dos juros, das agências de risco e dos detentores da dívida. Não é que o orçamento deixe de ser político; ele se torna ainda mais político, só que submetido a interesses que se apresentam como necessidade técnica.
Alysson Mascaro insiste que o Estado, no capitalismo, não paira acima das relações de classe como um árbitro puro. Sua forma jurídica e política cria condições para a reprodução dessas relações. Isso ajuda a enxergar por que a austeridade é vendida como responsabilidade neutra, enquanto a remuneração da riqueza financeira raramente recebe o mesmo tom moralista. Quando se corta uma política pública, fala-se em disciplina. Quando se preserva a confiança dos credores, fala-se em estabilidade. A diferença de vocabulário encobre uma escolha: tornar direitos sociais contingentes e tratar compromissos financeiros como quase sagrados.
O trabalhador encontra essa escolha em cenas banais. A unidade de saúde sem equipe suficiente não decorre de uma misteriosa escassez natural; o serviço público foi submetido a disputas sobre prioridade orçamentária. O jovem que se endivida para estudar, o aposentado assediado por crédito consignado e a família que parcela comida ou remédio não vivem falhas privadas de planejamento. Vivem uma economia em que a dívida se tornou mecanismo ordinário de acesso ao que deveria ser direito ou renda suficiente. O banco lucra não apenas quando financia uma máquina para produzir, mas quando captura por anos uma parte do salário necessário para sobreviver.
A ideologia faz da submissão uma escolha individual
A financeirização precisa de uma pedagogia moral. Ela ensina que todo mundo deve agir como investidor: poupar, diversificar, administrar riscos, fazer render. Esse conselho pode parecer inofensivo quando dirigido a quem conseguiu alguma reserva, mas se torna cruel num país de salários baixos, informalidade e crédito caro. A maioria não escolhe entre aplicações; escolhe qual conta atrasar. Ainda assim, a indústria cultural financeira produz a imagem de que a pobreza resulta de desconhecimento, descontrole ou falta de mentalidade. A desigualdade estrutural é rebatizada como incapacidade pessoal de gerir uma carteira que quase ninguém possui.
Debord ajuda a entender esse espetáculo da autonomia. Nas telas, o trabalhador é convocado a admirar indicadores, cotações e gurus como se assistir ao movimento do dinheiro equivalesse a participar de seu poder. A riqueza aparece separada das relações que a produzem: não se vê a jornada estendida, a terceirização, o adoecimento ou o subsídio público; vê-se uma linha ascendente e a celebração de quem acertou o momento de comprar. A alienação não é ignorância simples. É a experiência social organizada para que a pessoa perceba apenas os efeitos imediatos — a prestação, a meta, o rendimento — e não a totalidade que liga sua exaustão à valorização de patrimônios alheios.
Foi isso que o caso Petrobras tornou visível, apesar de toda a linguagem técnica que o envolveu. A disputa pelos dividendos não dizia respeito somente a acionistas e administradores. Dizia quem tem autoridade para decidir o destino de uma riqueza produzida socialmente e extraída de um recurso estratégico. Se a resposta automática for o investidor, os demais objetivos serão tolerados apenas enquanto não reduzirem sua remuneração. E essa mesma hierarquia reaparece, em escala cotidiana, quando uma empresa prefere reduzir pessoal a diminuir o repasse aos proprietários, ou quando o Estado considera inevitável limitar direitos para demonstrar obediência aos mercados.
Ver a engrenagem muda o sentido das notícias
Depois de enxergar essa engrenagem, o leitor pode desconfiar de expressões aparentemente neutras como “reação negativa do mercado”, “necessidade de eficiência” ou “responsabilidade fiscal”. A pergunta deixa de ser se os números importam; números importam porque organizam recursos reais, tempo de vida e acesso a direitos. A pergunta passa a ser quais números foram elevados à condição de mandamento e quais vidas foram rebaixadas à condição de custo. Não há fatalidade econômica na ideia de que dividendos devem vir antes de investimento, nem na de que o endividamento das famílias seja normal, nem na de que trabalhadores tenham de suportar todos os riscos.
Reconhecer isso não resolve por si só a disputa de classes, mas rompe uma das suas proteções ideológicas: a impressão de que a ordem financeira é apenas técnica. Ela é uma escolha de poder, repetida em conselhos de administração, aplicativos, bancos e gabinetes ministeriais. Quando o trabalhador identifica o vínculo entre o seu ritmo de trabalho, sua dívida e a fome de rendimentos do capital, a precarização perde a máscara de destino individual. O que parecia uma soma de problemas privados volta a aparecer como aquilo que é: uma relação social que pode e deve ser enfrentada politicamente.
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