Fascismo o que significa, afinal, quando a pergunta deixa a enciclopédia e encontra a vida de quem trabalha? Não significa simplesmente um governo duro, uma pessoa autoritária ou qualquer opinião conservadora. O fascismo é uma forma histórica de organizar politicamente o medo social para salvar a ordem capitalista quando ela já não consegue oferecer segurança, emprego, futuro ou legitimidade. Ele mobiliza setores populares contra inimigos escolhidos — pobres, negros, migrantes, mulheres, pessoas LGBT, movimentos sociais, professores, artistas, sindicalistas — e apresenta essa perseguição como defesa da nação, da família, do trabalho e da liberdade.
A definição importa, mas só quando impede duas falsificações. A primeira é tratar o fascismo como relíquia encerrada na Itália de Mussolini e na Alemanha de Hitler. A segunda é chamar de fascismo toda medida desagradável de um adversário político, esvaziando o termo até transformá-lo em xingamento. O fascismo tem história, bases materiais e mecanismos reconhecíveis: culto ao chefe, fabricação de inimigos internos, desprezo pela igualdade, violência como linguagem política, ataque às organizações dos trabalhadores e uma promessa de regeneração nacional. Ele não cai do céu: cresce nas rachaduras de uma sociedade desigual que prefere punir os de baixo a confrontar os donos da riqueza.
Fascismo o que significa diante da crise brasileira
No Brasil, essa questão não pode ser respondida sem falar do bolsonarismo. Sua ascensão não foi um acidente produzido apenas por redes sociais, nem uma extravagância cultural de eleitores “mal-informados”. Ela se alimentou de décadas de precarização, de desmonte da proteção social, de insegurança urbana real e de uma frustração convertida em ressentimento. Enquanto o trabalhador vê seu salário perder força, enfrenta jornadas extensas, transportes degradados e serviços públicos insuficientes, a extrema direita oferece uma explicação simples: a culpa é de um inimigo visível. Não é o capital financeiro, não são os lucros protegidos, não é a concentração fundiária, não é a estrutura tributária regressiva. A culpa passa a ser do professor, do sem-terra, do jovem negro da periferia, da feminista, do artista financiado por edital, do imigrante ou do “comunista”.
Essa operação é decisiva. O fascismo não resolve a crise; ele a encena. Oferece ao sujeito socialmente humilhado a compensação imaginária de se sentir superior a alguém. O entregador de aplicativo, submetido a algoritmos que definem corridas, bloqueios e remuneração sem transparência, é convidado a enxergar como ameaça o beneficiário de um programa social, e não a empresa que transfere para ele os custos da bicicleta, da moto, da manutenção, do acidente e da própria sobrevivência. O trabalhador de call center, vigiado por metas e pausas cronometradas, pode ser convencido de que seu problema é o suposto excesso de direitos de outra categoria. A exploração permanece intocada porque a indignação é desviada.
A multidão disciplinada pelo mito e pela tela
Gustave Le Bon observou que as multidões não se movem apenas por cálculos racionais: imagens, repetição e afirmações categóricas produzem adesões intensas. Seu diagnóstico foi frequentemente usado por elites para desprezar o povo, mas ajuda a perceber um mecanismo da propaganda reacionária. O bolsonarismo construiu uma multidão permanentemente conectada, alimentada por vídeos curtos, escândalos fabricados e mensagens que dispensam demonstração. Não se pede prova; pede-se pertencimento. A mentira, quando repetida por líderes, canais e grupos de família, torna-se sinal de fidelidade. Desmenti-la pode até reforçar sua circulação, porque a questão já não é conhecer os fatos, mas declarar de que lado se está.
Debord chamou de sociedade do espetáculo a forma social em que a relação entre pessoas aparece mediada por imagens. Nas plataformas, esse processo ganha velocidade e precisão. A política se converte em fluxo de cenas indignadas: um vídeo recortado, um crime isolado, uma fala descontextualizada, uma ameaça transformada em entretenimento. A experiência concreta do trabalhador é substituída por uma guerra simbólica incessante. Enquanto ele discute uma pauta moral escolhida pelo algoritmo, avançam terceirizações, privatizações, cortes e formas cada vez mais brutais de gestão por desempenho. A tela não inventa o fascismo, mas pode funcionar como sua esteira de montagem: fragmenta a atenção, recompensa a fúria e entrega uma comunidade imaginária para quem foi materialmente abandonado.
Foi assim que a figura do líder forte adquiriu, para parte da população, uma aparência de autenticidade. A grosseria era vendida como sinceridade; a ignorância ostentada, como coragem contra as elites; a ameaça, como defesa da liberdade. O chefe fascistizante não precisa cumprir a promessa de melhorar a vida de seus seguidores. Basta oferecer-lhes a sensação de participar de uma revanche. Sua força está menos na coerência de um programa do que na autorização para odiar e humilhar publicamente. Daí a importância política da linguagem: quando torturadores são celebrados, quando a morte de adversários é tratada como piada e quando a violência estatal é desejada como solução geral, a barbárie deixa de ser exceção e tenta se tornar costume.
O Estado não é neutro diante da violência de classe
Isso não quer dizer que todo Estado capitalista seja fascista. A distinção é necessária. Como insiste Alysson Mascaro ao analisar a forma política moderna, o Estado não paira acima das classes como árbitro puro: ele é estruturado pelas relações sociais do capitalismo e participa da reprodução dessa ordem. Em períodos de normalidade, direitos, eleições e instituições podem administrar o conflito social sem romper com a dominação de classe. Em períodos de crise, porém, frações das classes dominantes podem aceitar ou estimular saídas autoritárias para conter reivindicações populares, destruir organizações coletivas e preservar propriedades e privilégios.
O fascismo é particularmente útil a essa tarefa porque mobiliza pessoas comuns para defender uma ordem que as explora. Ele apresenta o empresário como produtor solitário de riqueza e o trabalhador organizado como parasita. A greve vira ameaça à nação; o sindicato, corporação suspeita; a universidade pública, foco de doutrinação; o movimento por moradia, caso de polícia. Não por acaso, a retórica da meritocracia anda tão bem com a extrema direita. Ela transforma desigualdades produzidas historicamente em falhas morais individuais. Se alguém está desempregado, seria porque não se qualificou; se mora longe, porque não se esforçou; se sofre racismo, porque “vitimiza-se”. A sociedade é absolvida, e o indivíduo é condenado.
Marx mostrou que as ideias dominantes tendem a ser as ideias da classe dominante. Isso não significa que toda pessoa pobre que adere à extrema direita seja manipulada como marionete, nem que sua escolha possa ser ridicularizada. Significa que a experiência social é interpretada dentro de instituições, meios de comunicação e relações de trabalho que limitam o horizonte do possível. Quem nunca experimentou proteção coletiva pode desconfiar da própria ação coletiva. Quem vive sob competição permanente pode tomar solidariedade por fraqueza. O fascismo trabalha precisamente nessa ferida: converte o isolamento produzido pelo capitalismo em hostilidade contra qualquer projeto de igualdade.
Não basta derrotar o chefe, é preciso desmontar a máquina
O ataque golpista de 8 de janeiro de 2023 revelou que o bolsonarismo não era apenas uma preferência eleitoral intensa. Houve uma disposição organizada de setores da extrema direita para recusar o resultado das urnas e atacar instituições em nome de uma fantasia de salvação nacional. Mas seria confortável demais localizar o problema somente naquele dia, em seus financiadores ou nos que depredaram os prédios dos Três Poderes. A máquina que tornou aquilo concebível continua em parte ativa: precariedade, militarização da vida pública, redes de desinformação, ressentimento social, fundamentalismo convertido em plataforma política e impunidade seletiva diante da violência.
Combater o fascismo não é responder à sua brutalidade com abstrações sobre tolerância, nem imaginar que uma aula de civismo dissolverá o conflito. É defender direitos democráticos porque eles são condições de organização dos explorados; enfrentar a violência política sem normalizá-la; proteger escolas, universidades, sindicatos, imprensa e movimentos populares; e, sobretudo, disputar as causas materiais do desespero social. Um país em que o trabalho destrói o corpo, a moradia consome a renda e o futuro é privilégio tem terreno fértil para vendedores de ódio.
A palavra fascismo só conserva sua força quando aponta para esse nexo: a violência reacionária não é um desvio externo ao capitalismo brasileiro, mas uma possibilidade que emerge quando a dominação precisa de massas mobilizadas contra a própria classe trabalhadora. O antídoto não está no culto a uma institucionalidade vazia, tampouco na nostalgia de uma conciliação que nunca alcançou todos. Está na construção de vínculos coletivos capazes de fazer o entregador, a professora, o operário, a trabalhadora doméstica e o jovem periférico reconhecerem que seu inimigo não é quem divide a precariedade, mas quem lucra com ela.
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