O que é capitalismo não se responde adequadamente com a imagem pacífica de pessoas trocando bens num mercado. Essa definição, repetida em apostilas e enciclopédias, apaga a violência que torna a troca possível. Capitalismo é uma forma histórica de organizar a vida social na qual os meios de produzir — terra, fábricas, máquinas, redes logísticas, dados, plataformas — são controlados privadamente, enquanto a imensa maioria precisa vender sua capacidade de trabalhar para sobreviver. Não se trata, antes de tudo, da existência de dinheiro, comércio ou ambição individual. Trata-se de uma relação de poder: de um lado, quem detém os instrumentos; de outro, quem não possui senão o próprio corpo, o tempo e a necessidade.

No Brasil, basta observar um entregador de aplicativo parado na calçada, esperando a próxima corrida. A bicicleta ou a moto pode ser dele, assim como o celular, o pacote de dados, a gasolina, a manutenção e os riscos de acidente. Isso permite que a propaganda o chame de empreendedor. Mas a aparente propriedade de seus instrumentos menores não altera o essencial: ele não controla a plataforma que distribui pedidos, calcula preços, estabelece punições, administra sua reputação e pode bloquear sua fonte de renda por decisão opaca. A empresa conserva o comando do processo de trabalho sem assumir a responsabilidade patronal que esse comando deveria implicar. A mochila nas costas não é o emblema da autonomia; é a forma contemporânea de carregar os custos que o capital decidiu abandonar.

O que é capitalismo quando a liberdade vem acompanhada da fome

O discurso liberal insiste que o trabalhador é livre porque pode aceitar ou recusar um emprego. Formalmente, há um contrato, um clique de aceite, uma possibilidade de desligar o aplicativo. Materialmente, porém, essa liberdade tem o peso da conta de luz, do aluguel e da comida. Marx identificou esse núcleo da sociedade capitalista: o trabalhador é juridicamente livre, mas está separado dos meios necessários para produzir sua existência. Não é escravo de um senhor particular, mas é compelido pelas condições sociais a encontrar alguém que compre sua força de trabalho. A liberdade contratual não elimina a desigualdade; ela a transforma numa decisão aparentemente individual.

É por isso que a pergunta correta nunca é apenas se houve consentimento. Um professor que aceita dar aulas em três escolas, preparar conteúdos à noite e corrigir pilhas de trabalhos no fim de semana consentiu com sua rotina? Sim, no sentido estreito de ter assinado contratos. Mas esse fato não explica a compressão de salários, a multiplicação de turmas, a invasão da vida privada por plataformas escolares e a progressiva conversão do ensino em meta de desempenho. Consentir sob necessidade não é exercer soberania sobre a própria vida. O capitalismo se sustenta precisamente porque torna a coerção econômica menos visível que a coerção policial, embora ambas se encontrem quando trabalhadores tentam interromper a exploração.

O lucro não nasce da inteligência do aplicativo

As empresas de plataforma gostam de apresentar seu poder como resultado neutro da inovação. Dizem que apenas conectam consumidores e prestadores autônomos, como se fossem uma praça digital sem interesses próprios. Mas conectar é controlar quando a conexão passa por um sistema proprietário. O algoritmo não cai do céu; ele é programado segundo objetivos empresariais. Ele premia disponibilidade, acelera ritmos, rebaixa quem recusa chamadas, estimula a competição entre trabalhadores e torna incompreensível o cálculo da remuneração. A técnica, nesse caso, não é uma ferramenta inocente na mão de uma sociedade livre. Como advertia Heidegger, a técnica moderna tende a enquadrar o mundo como reserva disponível. Nas plataformas, o entregador aparece como disponibilidade mensurável: minutos, quilômetros, avaliações, taxa de aceitação, localização em tempo real.

A especificidade capitalista dessa técnica está no destino da riqueza gerada. O serviço só existe porque alguém pedala, dirige, atende, cozinha, limpa, programa e organiza a circulação. Contudo, a empresa proprietária da infraestrutura captura uma parcela do valor produzido por esse trabalho e a apresenta como mérito de sua marca, de seu software ou de seus investidores. Marx chamou de mais-valia o excedente apropriado pelo proprietário depois que o trabalhador produz valor superior ao que recebe como salário ou remuneração. A linguagem das plataformas tenta obscurecer essa relação ao substituir salário por “ganho”, jornada por “tempo online” e chefe por “parceiro”. Trocam-se os nomes para conservar a exploração.

Quando o trabalhador arca com a ferramenta, o risco e a espera, enquanto a empresa define as regras e retém o comando, a modernização não superou a relação capitalista: apenas a tornou mais difícil de reconhecer.

Não é necessário imaginar uma fábrica inglesa do século XIX para enxergar essa lógica. Ela está no operador de call center que mede cada pausa, no caixa submetido a metas de venda, na auxiliar de limpeza terceirizada que muda de uniforme sem melhorar de vida, no jovem que faz microtarefas digitais por pagamentos irrisórios. O capitalismo contemporâneo fragmenta os locais de trabalho e individualiza os contratos para dificultar a percepção de que esses destinos têm uma causa comum. Cada pessoa é ensinada a entender sua exaustão como falha de planejamento, e não como resultado de uma estrutura que precisa extrair mais trabalho com menos custos.

A ideologia que chama exploração de oportunidade

Capitalismo não se mantém somente pela propriedade e pelo contrato. Ele exige uma ideologia capaz de apresentar seus resultados como naturais. A meritocracia cumpre essa função ao atribuir riqueza a esforço e pobreza a insuficiência moral. Não nega que haja obstáculos; apenas os rebatiza como desafios individuais. Assim, a herança, o acesso desigual à educação, os contatos familiares, a concentração de terras, a seletividade policial e a proteção estatal aos grandes negócios desaparecem da fotografia. Resta o indivíduo isolado, convocado a provar incessantemente que merece não afundar.

Essa é uma das razões pelas quais o empreendedorismo se tornou palavra tão útil à classe dominante brasileira. Ele oferece dignidade simbólica sem garantir direitos materiais. Chamar uma trabalhadora precarizada de empreendedora permite celebrar sua capacidade de “se reinventar” e, ao mesmo tempo, negar-lhe salário mínimo, descanso, proteção previdenciária e organização coletiva. A palavra produz uma pequena ascensão imaginária: ela já não é explorada, seria dona de si. Mas quem pode desligar o aplicativo e ainda pagar o aluguel? Quem define unilateralmente o valor de uma corrida? Quem transforma milhões de dados produzidos por usuários e trabalhadores em patrimônio privado? As respostas devolvem a discussão à divisão de classe que a publicidade quer esconder.

Debord analisou a sociedade do espetáculo como uma organização social em que as relações entre pessoas passam a ser mediadas por imagens. A plataforma acrescenta uma camada decisiva a esse diagnóstico: a imagem da liberdade — a moto, o capacete, a rota escolhida pelo celular — funciona como publicidade permanente de uma subordinação real. Os vídeos de sucesso individual, as promessas de flexibilidade e os rankings de produtividade fazem cada trabalhador olhar para os outros como concorrentes. A exploração deixa de aparecer como relação entre classes e retorna como comparação cruel entre desempenhos pessoais.

O Estado não está ausente quando protege o capital

Outra mentira útil é a de que o capitalismo seria simplesmente o reino do mercado, oposto ao Estado. O Estado capitalista não é um intruso externo numa economia naturalmente livre. Ele garante contratos, protege a propriedade, define moedas, constrói infraestrutura, socorre setores estratégicos e administra juridicamente os conflitos entre capital e trabalho. Isso não significa que cada decisão estatal seja uma ordem direta de empresários, mas que a própria forma estatal opera numa sociedade organizada pela propriedade privada e pela reprodução do capital. Como mostra Alysson Mascaro ao tratar da forma política e da forma jurídica, a igualdade formal do direito é compatível com desigualdades materiais profundas: patrão e empregado surgem como sujeitos equivalentes diante do contrato, ainda que um possa esperar e o outro precise comer.

No caso brasileiro, a desregulamentação vendida como eficiência revela seu sentido de classe. Quando direitos trabalhistas são tratados como entraves e a informalidade como criatividade, transfere-se o risco da economia para quem tem menos condições de suportá-lo. Se a demanda cai, o entregador ganha menos. Se adoece, perde renda. Se sofre acidente, enfrenta sozinho as consequências. A plataforma pode alterar tarifas, regras e critérios sem carregar a mesma vulnerabilidade. A assimetria não é defeito acidental do modelo: é sua fonte de rentabilidade.

Compreender o que é capitalismo, então, não é decorar uma definição escolar nem imaginar que toda compra cotidiana prova a eternidade do mercado. É reconhecer uma sociedade em que a riqueza coletiva é produzida socialmente, mas apropriada de modo privado; em que a técnica promete emancipação enquanto intensifica vigilância; em que a liberdade jurídica convive com a necessidade econômica; e em que a desigualdade precisa ser narrada como mérito para continuar funcionando. A mochila do entregador torna visível aquilo que a abstração econômica costuma esconder: atrás da conveniência de um pedido entregue em minutos existe uma disputa sobre quem controla o tempo, a tecnologia, o risco e o produto do trabalho humano.