Definir fascismo não deveria ser um exercício escolar de enumeração: partido único, culto ao chefe, censura, uniformes, expansionismo militar. Esses elementos pertencem à história do fascismo italiano e do nazismo, mas uma definição que se limite a reconhecê-los como peças de museu falha diante do presente. Ela permite que a extrema direita se reorganize sem camisa preta, sem cópia literal de Mussolini e sem abolir imediatamente as eleições. Mais grave: permite que empresários, tribunais, jornais e parcelas das classes médias se apresentem como democráticos enquanto alimentam a força social que pede repressão, armas, punição e eliminação dos inimigos internos.
O fascismo não é apenas uma opinião muito reacionária, nem um xingamento intercambiável para toda brutalidade política. É uma forma de mobilização de massas que transforma frustrações reais em ódio dirigido contra alvos mais frágeis: trabalhadores organizados, pobres, negros, indígenas, mulheres, pessoas LGBT, intelectuais, imigrantes e militantes de esquerda. Em vez de identificar no capital a origem da insegurança material, da concorrência destrutiva e do desemprego, o fascismo oferece uma fantasia de comunidade nacional purificada. Nessa fantasia, o patrão deixa de ser explorador; o militar vira salvador; o bilionário aparece como empreendedor admirável; e o trabalhador precarizado é levado a imaginar que seu inimigo está abaixo ou ao lado dele, nunca acima.
Definir fascismo pela função que ele cumpre
Uma definição crítica precisa perguntar: o que essa política faz numa sociedade de classes? O fascismo surge e cresce quando a dominação capitalista enfrenta crises que já não consegue administrar apenas com promessas de progresso, conciliação parlamentar e consumo. Não é necessário que o capitalismo esteja à beira de um colapso absoluto. Basta que a vida social se torne mais insegura e que setores sociais sejam convencidos de que seus privilégios, ainda que modestos e imaginários, estão sob ameaça. A extrema direita oferece ordem sem igualdade, pertencimento sem solidariedade e segurança sem direitos.
Por isso, fascismo não significa simplesmente Estado forte. Estados liberais também reprimem greves, encarceram em massa, protegem a propriedade privada e administram a desigualdade por meio do direito. Como observa a tradição marxista do Estado, inclusive na reflexão de Alysson Mascaro, o aparelho estatal não paira acima das classes: ele organiza juridicamente uma sociabilidade fundada na exploração. O fascismo é a radicalização política dessa ordem quando as mediações ordinárias se tornam insuficientes. Ele mobiliza uma base social para destruir organizações populares, normalizar a violência e tornar aceitável que a lei seja aplicada como arma contra certos grupos, enquanto os poderosos preservam seus negócios.
A distinção importa porque impede dois erros. O primeiro é chamar de fascismo qualquer governo conservador e esvaziar o conceito. O segundo, mais útil à direita, é negar o perigo fascista enquanto não houver uma ditadura plenamente instalada. O fascismo pode operar como movimento, linguagem, método de governo e pressão permanente sobre as instituições antes de se consolidar como regime. Ele testa limites, acostuma a população à crueldade e transforma a exceção em desejo popular. Quando uma multidão passa a pedir que adversários sejam presos, mortos ou expulsos da vida pública, a degradação democrática já não é uma hipótese distante.
O bolsonarismo como laboratório brasileiro
O bolsonarismo não foi uma reprodução mecânica do fascismo europeu do século XX, e dizer isso não o absolve. Sua originalidade esteve justamente em combinar eleições, plataformas digitais, militarização da linguagem pública, fundamentalismo religioso, redes empresariais e uma máquina cotidiana de desinformação. Jair Bolsonaro não precisou criar do zero uma tropa uniformizada de Estado para produzir efeitos fascistizantes. Ele encontrou uma sociedade já marcada pela escravidão, pelo genocídio da população negra, pela violência policial, pelo autoritarismo patronal e pelo desprezo histórico pelas maiorias pobres. Fez dessa herança uma plataforma política explícita.
O caso brasileiro mostrou que o fascismo contemporâneo pode falar a língua do empreendedorismo. O entregador que pedala sob chuva, sem salário garantido, proteção previdenciária ou poder de negociação, é chamado de parceiro. O trabalhador de call center, vigiado por metas e scripts, é informado de que seu desempenho individual decide seu futuro. O professor submetido a ataques por discutir desigualdade é convertido em suspeito de doutrinação. A precarização produz medo e exaustão; a extrema direita recolhe esse mal-estar e o devolve como ressentimento contra sindicatos, universidades, movimentos sociais e políticas públicas.
Essa operação é ideológica no sentido forte: ela não inventa do nada o sofrimento, mas falsifica suas causas. Marx mostrou que as relações sociais capitalistas podem aparecer como relações entre coisas, preços e contratos aparentemente livres. A plataforma que controla o trabalho por algoritmos se vende como simples tecnologia; a demissão por produtividade aparece como decisão técnica; a exploração vira mérito. O bolsonarismo acrescenta a essa alienação uma pedagogia de guerra: se a vida piora, a culpa seria do Estado que protege demais, do pobre que recebe demais, do servidor público, do artista, do comunista imaginário. O capital, que concentra riqueza e organiza a exploração, desaparece do campo de visão.
As redes digitais foram decisivas não porque tenham criado o autoritarismo, mas porque deram velocidade, escala e intimidade à sua circulação. Debord analisou uma sociedade na qual a experiência é substituída por representações; nas plataformas, essa separação ganha uma forma ainda mais agressiva. O vídeo curto, a corrente de mensagem e a transmissão permanente oferecem ao indivíduo isolado a sensação de participação em uma comunidade combatente. A mentira não precisa convencer pela consistência. Ela funciona ao produzir adesão afetiva, confusão e uma suspeita generalizada contra qualquer mediação coletiva de conhecimento.
É nesse terreno que a psicologia das multidões, estudada por Gustave Le Bon em termos que precisam ser lidos criticamente, torna-se politicamente relevante. A multidão não é por natureza irracional ou fascista; trabalhadores também se organizam coletivamente para lutar por direitos. Mas a extrema direita sabe converter medo e frustração em identificação com um chefe que encarna uma promessa de força. O líder parece dizer aquilo que os demais teriam vergonha de dizer. Sua grosseria é vendida como autenticidade, e sua incapacidade de governar pode ser reinterpretada como prova de que ele combate um sistema invisível. A figura do chefe concentra afetos que deveriam ser dirigidos à compreensão das estruturas sociais.
O golpe frustrado não encerrou a ameaça
Os ataques de 8 de janeiro de 2023 foram a expressão concentrada dessa política. Não se tratou de mera desordem produzida por cidadãos exaltados, nem de uma manifestação comum que perdeu o controle. A depredação das sedes dos poderes foi uma tentativa de impor, pela intimidação e pela fantasia de intervenção militar, uma derrota à soberania popular expressa nas urnas. Ela mostrou a disposição de setores bolsonaristas para substituir a disputa política pela violência aberta quando o resultado eleitoral lhes é desfavorável. Também expôs conivências, omissões e ambiguidades em instituições que deveriam impedir a escalada autoritária.
Mas seria confortável demais localizar o fascismo apenas naquele dia. Ele está também no empresário que ameaça empregados para orientar votos, no policial que trata periferias como território inimigo, no influenciador que monetiza pânico moral, no parlamentar que transforma tortura em nostalgia e no gestor que chama a retirada de direitos de modernização. Está na cultura política que aceita a morte evitável de pobres como preço normal da ordem. Heidegger advertiu que a técnica pode enquadrar o mundo como estoque disponível; sob o capitalismo de plataformas, esse enquadramento alcança o trabalhador, reduzido a dado, rota, avaliação e custo. A extrema direita oferece a esse trabalhador não libertação, mas a chance ilusória de participar da máquina contra alguém ainda mais vulnerável.
Definir fascismo, no Brasil, é recusar essa ilusão. Não basta defender instituições abstratamente se elas continuam protegendo uma economia que fabrica desamparo, competição e ressentimento. A derrota do bolsonarismo eleitoral foi necessária, mas não eliminou as condições que o alimentam. Enquanto o trabalho for precarizado, a riqueza for tratada como mérito privado e a violência estatal for apresentada como solução social, a promessa fascista continuará encontrando ouvidos. Combatê-la exige organização popular, direitos materiais, memória histórica e uma crítica sem concessões à ordem que transforma vidas em mercadoria e depois oferece ódio como compensação.
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