O processo que levou o Supremo Tribunal Federal, em 2025, a receber a denúncia contra Jair Bolsonaro e parte de seu núcleo mais próximo por uma trama golpista não pode ser reduzido à biografia de um ex-presidente nem à extravagância de alguns generais. O que veio a público naquele caso foi a disposição de converter a força armada, ou a autoridade social que ela carrega, em instrumento para resolver uma derrota eleitoral. Minutas, reuniões e pressões não são apenas episódios de uma crise institucional encerrada nos autos: expõem uma concepção de política segundo a qual o voto vale enquanto confirma a vontade dos que se imaginam proprietários da nação. Quando deixa de confirmar, entra em cena a fantasia de que a hierarquia pode corrigir a sociedade.

Essa é a matéria viva da militarização da política no Brasil recente. Ela não depende de tanques em cada avenida, nem de uma interrupção formal das eleições, para produzir efeitos. Sua operação mais eficiente é cultural e administrativa: faz do conflito social uma ameaça à ordem, do adversário um inimigo, da crítica uma indisciplina e do cidadão alguém que deve obedecer antes de falar. O bolsonarismo deu forma explícita a esse vocabulário, povoando a administração federal com militares e apresentando a caserna como selo automático de competência moral. Mas seria cômodo demais atribuir o problema apenas a Bolsonaro. Ele radicalizou uma longa tolerância brasileira com a tutela militar, sustentada pela impunidade dos crimes da ditadura e pela permanência de uma segurança pública organizada como guerra contra parcelas da própria população.

O golpe frustrado revelou uma pedagogia de comando

O caso de 2025 importa porque desmonta a versão confortável de que o autoritarismo teria sido apenas retórico. A tentativa de manter no poder um governo derrotado não era uma opinião dura sobre eleições; era a busca de uma saída de exceção. Ainda assim, limitar a leitura à responsabilização penal dos envolvidos seria insuficiente. O direito pode punir indivíduos, mas não elimina por si só as condições que tornam plausível a imaginação golpista. Como lembra Alysson Mascaro ao tratar da forma política capitalista, o Estado não paira acima das classes como árbitro puro. Ele organiza juridicamente uma sociedade atravessada pela exploração e, em suas crises, pode ampliar suas formas de coerção para preservar a ordem social.

Por isso, a linguagem militar encontra tanto terreno fértil quando a política se torna incômoda para os interesses dominantes. Política, no sentido forte, é conflito de interesses: salário contra lucro, moradia contra especulação, serviço público contra austeridade, terra contra latifúndio. A militarização promete apagar esse conflito por meio do comando. Não responde por que o trabalhador recebe pouco ou por que o transporte é precário; pergunta quem está atrapalhando o funcionamento da cidade. Não enfrenta o racismo que seleciona quem será revistado ou morto; chama a violência de operação. Não admite que uma eleição expresse escolhas conflitantes; insinua que o resultado precisa da chancela de instituições armadas. Trata-se de substituir a disputa pública pelo reflexo da continência.

Onde a obediência é apresentada como virtude cívica suprema, todo direito aparece como privilégio e toda reivindicação coletiva como desordem.

A mesma lógica desce até quem entrega, atende e ensina

A militarização da política não chega à vida de quem trabalha somente na farda de um soldado. Ela aparece no entregador de aplicativo que recebe comandos opacos da plataforma, tem sua renda reduzida por bloqueios automáticos e não sabe a quem recorrer; aparece na atendente de call center cujo tempo de pausa é medido e cuja fala é rigidamente roteirizada; aparece no professor submetido a metas, vigilância burocrática e campanhas que tentam converter pensamento crítico em doutrinação. Em cada caso, a gestão apresenta ordens como necessidades técnicas, e não como escolhas de poder. A pessoa deve cumprir, adaptar-se, agradecer pela oportunidade e não perguntar quem definiu a regra.

Não se deve confundir uma empresa de plataforma com um quartel. O objetivo imediato de uma é extrair mais valor do trabalho; o de uma instituição militar é organizar a força sob uma cadeia de comando. Mas o capitalismo contemporâneo aprendeu a fazer essas lógicas conversarem. A uberização transforma o trabalhador em empreendedor apenas no discurso, enquanto o submete a uma disciplina algorítmica sem chefe visível. A política militarizada oferece a moldura ideológica para essa submissão: direitos trabalhistas são retratados como entraves, sindicatos como corporações, greves como chantagem e qualquer regulação como ataque à liberdade. A liberdade, nessa gramática, é a liberdade do capital para comandar sem mediação.

Marx identificou que a alienação não é somente o cansaço de um emprego ruim; é a separação entre quem produz e as condições, o processo e o sentido daquilo que produz. O trabalhador de aplicativo sabe que pedala ou dirige para sobreviver, mas não decide tarifa, percurso, regra de bloqueio ou destino dos dados que gera. Quando a política é militarizada, essa separação ganha uma justificativa moral: quem questiona a ordem é acusado de não querer trabalhar, de procurar privilégio ou de ameaçar a normalidade. A exploração deixa de ser percebida como relação social e passa a ser administrada como falha individual de disciplina.

Segurança não pode ser o nome civil da guerra social

Há uma conexão decisiva entre a tutela militar sobre a política nacional e o cotidiano das periferias. Nas operações policiais tratadas como demonstrações de força, a população trabalhadora aprende que o Estado pode suspender, na prática, a presunção de inocência e a circulação segura em nome de uma guerra permanente. Quem precisa atravessar uma área sob operação para chegar ao emprego, levar um filho à escola ou realizar uma entrega conhece o custo material da retórica de ordem. A cidade se divide entre os que pedem mais dureza de longe e os que vivem sob a possibilidade concreta de uma abordagem, uma bala ou uma rotina paralisada.

Essa experiência ajuda a entender por que a militarização não é uma abstração constitucional. Ela distribui medo de forma desigual e ensina que algumas vidas podem ser administradas pela suspeita. O fascismo, em seu sentido histórico, não nasce apenas de chefes violentos; alimenta-se da mobilização ressentida que deseja ver uma parte da sociedade silenciada, castigada ou eliminada. Le Bon observou a capacidade das multidões de serem conduzidas por imagens e afetos; a extrema direita digital atualiza esse mecanismo com vídeos curtos, pânicos morais e cenas incessantes de inimigos imaginários. Debord ajuda a ver o complemento: a política vira espetáculo de autoridade, no qual posar com armas ou farda substitui a solução dos problemas que produzem insegurança.

O resultado é particularmente funcional ao neoliberalismo. Enquanto o debate público se esgota em medo, punição e guerra cultural, seguem intactas as jornadas extensas, a terceirização, o endividamento familiar e a transferência de serviços públicos para interesses privados. A figura do comandante oferece compensação simbólica para uma vida sem controle material. O trabalhador explorado pode ser convidado a se sentir parte de uma força moral contra inimigos escolhidos — professores, movimentos sociais, pobres, imigrantes, artistas, servidores — em vez de reconhecer sua posição comum com outros explorados. A hierarquia nacional imaginária esconde a hierarquia econômica real.

Ver o comando onde antes parecia haver destino

Depois de enxergar esse mecanismo, muda a escala pela qual se julga a política. Não basta perguntar se um governo entrega eficiência, se um candidato fala com firmeza ou se uma operação produz imagens de autoridade. É preciso perguntar quem recebe o poder de mandar, quem perde o direito de contestar e qual conflito social está sendo ocultado pela promessa de ordem. A defesa da democracia não se resume a proteger urnas, embora protegê-las seja indispensável diante do golpismo. Ela exige ampliar as condições concretas para que a maioria trabalhe, fale, se organize e reivindique sem ser tratada como inimiga.

Recusar a militarização é recusar que a vida coletiva seja organizada pela lógica de comando e punição. Para quem trabalha sob metas, algoritmos, vigilância e salários insuficientes, isso significa reconhecer que a disciplina vendida como eficiência tem lado: ela preserva quem controla a propriedade e fragmenta quem produz a riqueza. A resposta não está em uma obediência civil mais bem embalada, mas em organização coletiva, direitos sociais e poder democrático efetivo sobre as instituições e sobre o trabalho. O quartel entra no expediente da democracia quando a sociedade aceita que mandar vale mais do que convencer. Tirar essa lógica de circulação é tarefa política de todos os dias.