Em junho de 2024, a Câmara dos Deputados aprovou a urgência para tramitação do PL 1904, proposta que previa punir com penas equiparadas às do homicídio o aborto realizado após 22 semanas de gestação, inclusive nos casos de estupro hoje previstos em lei. A reação popular impediu que a matéria avançasse na velocidade desejada por seus patrocinadores, mas o episódio importa por outra razão: ele expôs, em escala concentrada, o funcionamento material da guerra cultural brasileira. Uma menina violentada, uma mulher pobre sem acesso rápido a atendimento, uma gravidez descoberta tardiamente deixaram de ser sujeitos de uma realidade brutal para se tornarem personagens de uma encenação moral. O corpo delas foi convocado como campo de batalha; quem extrai valor de seu trabalho, organiza a pobreza e corta os serviços públicos permaneceu discretamente fora do enquadramento.
Não se tratava apenas de divergência religiosa ou jurídica sobre o aborto. Convicções religiosas existem, produzem efeitos políticos e devem ser confrontadas quando pretendem submeter toda a sociedade a uma lei teocrática. Mas o que a extrema direita fez com o PL 1904 foi mais preciso: fabricou uma urgência punitiva, apresentou uma exceção trágica como ameaça moral coletiva e ofereceu ao público um inimigo simples. A mulher que aborta, os profissionais de saúde, os movimentos feministas e a esquerda passaram a ocupar o papel de adversários absolutos. Ao mesmo tempo, a questão decisiva foi apagada: por que uma vítima de violência chega tão tarde a um serviço de saúde? Por que a rede de proteção falha? Por que a jornada exaustiva, a dependência econômica e a precariedade habitacional tornam tão difícil escapar da violência e decidir sobre a própria vida?
O escândalo fabricado substitui a pergunta sobre as condições de vida
Uma trabalhadora de telemarketing que depende de salário baixo, transporte demorado e escala rígida não vive a política como debate abstrato. Se sofre violência em casa, se uma filha revela um estupro ou se precisa buscar atendimento médico, ela encontra uma cadeia de obstáculos: ausência no trabalho pode significar desconto ou demissão; deslocamento custa dinheiro; o serviço público pode estar distante ou desestruturado; a família pode reproduzir coerção religiosa e patriarcal. A legislação punitiva não remove nenhum desses obstáculos. Ao contrário, acrescenta o medo de ser tratada como criminosa por agentes do Estado e por uma sociedade treinada a suspeitar da mulher antes de responsabilizar o agressor.
O mesmo vale para a entregadora de aplicativo que pedala ou pilota sob pressão do algoritmo. A plataforma chama sua exploração de autonomia; o discurso conservador chama sua maternidade compulsória de proteção à vida. Entre a falsa liberdade de empreender e a falsa defesa da família, desaparece a pessoa concreta, que não possui renda estável, proteção trabalhista, creche suficiente nem tempo livre. A guerra cultural não é uma distração inocente que ocorre paralelamente à economia. Ela ajuda a administrar a economia ao dar à precariedade uma tradução moral. Aquilo que deveria aparecer como problema de salário, moradia, saúde, divisão sexual do trabalho e poder patronal reaparece como falha individual, pecado, desvio de costumes ou ameaça à família.
O patriarcado oferece ao capital uma força de trabalho disciplinada
Marx mostrou que o capitalismo não se sustenta apenas na compra da força de trabalho dentro da fábrica ou do escritório. Ele depende de todo um terreno social que reproduz trabalhadores: alimentação, descanso, cuidado, educação dos filhos, recuperação depois da doença. Uma parcela desproporcional desse trabalho recai sobre as mulheres, geralmente sem remuneração e sem reconhecimento. Quando a política conservadora impõe maternidade, dificulta direitos reprodutivos e glorifica uma família hierárquica, ela não está simplesmente defendendo valores antigos. Está protegendo uma forma barata de organizar o cuidado e de transferir seus custos para os lares, sobretudo para as mulheres pobres.
É por isso que a indignação seletiva contra o aborto convive sem constrangimento com a indiferença diante de crianças sem escola em tempo integral, mães em filas de atendimento, trabalhadoras sem licença adequada e famílias expulsas de suas casas pela carestia. A defesa abstrata da vida termina quando a vida exige orçamento público, redução da jornada, salário digno, moradia e serviços universais. O Estado que se mostra veloz para ameaçar uma vítima de estupro é frequentemente o mesmo que se mostra lento para assegurar atendimento, investigação e renda. Alysson Mascaro insiste que o Estado capitalista não é um árbitro acima das classes: suas instituições operam em uma sociabilidade marcada pela reprodução do capital. A seletividade não é acidente administrativo; é forma política de uma ordem desigual.
Bolsonarismo transforma ressentimento em programa de poder
O bolsonarismo aperfeiçoou essa operação ao fazer do ressentimento uma linguagem de pertencimento. Em vez de explicar por que o trabalhador trabalha mais e ganha menos, por que os serviços públicos se deterioram ou por que a riqueza se concentra, ele oferece culpados visíveis: professoras, artistas, feministas, pessoas LGBT, pesquisadores, pobres que recebem políticas sociais. A agressividade contra esses grupos dá ao sujeito precarizado uma sensação momentânea de poder. Ele pode não controlar o aplicativo que define sua renda, o supervisor que mede suas pausas ou o banco que cobra juros; mas é convidado a julgar e punir alguém ainda mais vulnerável.
Essa é uma política de multidão no sentido que Gustave Le Bon observou, embora a extrema direita tenha atualizado seus mecanismos para a tela do celular. A imagem curta, a acusação monstruosa e a repetição algorítmica substituem mediações e investigação. Debord ajuda a compreender o passo seguinte: a relação social aparece como espetáculo. No caso do PL 1904, a violência sexual, a gravidez infantil e o sofrimento médico foram convertidos em imagens disponíveis para circulação indignada. A vida real perdeu densidade; ganhou centralidade a performance de estar do lado certo em uma disputa moral. Parlamentares puderam posar como defensores da vida sem responder pelo desmonte das condições que tornam tantas vidas vulneráveis.
A empresa some do debate, mas lucra com a ordem moral
Há uma razão para que a guerra cultural seja tão útil às elites econômicas. Ela constrói maiorias políticas para projetos que não beneficiam materialmente a maioria. O trabalhador mobilizado contra uma suposta ameaça aos costumes pode votar em quem defende privatização, arrocho fiscal, redução de direitos e autonomia irrestrita das plataformas. Pode atacar a educação sexual na escola enquanto seus filhos recebem uma formação cada vez mais pobre e subordinada às demandas empresariais. Pode denunciar o feminismo como inimigo da família enquanto sua companheira acumula dois empregos, trabalho doméstico e cuidado de parentes sem que a renda da casa alcance o fim do mês.
Não há, nisso, uma conspiração perfeita em que cada empresário coordena cada postagem de ódio. Há uma convergência estrutural. O neoliberalismo produz insegurança, competição e abandono; a guerra cultural oferece uma explicação emocional para esses danos sem tocar em seus responsáveis. Heidegger advertiu que a técnica moderna tende a enquadrar tudo como recurso disponível. Nas plataformas digitais, esse enquadramento alcança também a atenção e a raiva: medos morais são extraídos, medidos e distribuídos como mercadoria política. Quanto mais o debate se torna reação instantânea, menos espaço resta para perguntar quem define o trabalho, quem controla a riqueza e quais instituições poderiam limitar esse poder.
Depois de ver a engrenagem, a indignação muda de direção
Reconhecer essa operação não exige tratar violência, religião, sexualidade ou família como assuntos secundários. Exige exatamente o contrário: recusá-los como matéria-prima de cinismo eleitoral e conectá-los às condições que dão forma à existência. Defender uma vítima de estupro é defender atendimento público imediato, sigilo, acolhimento, educação sexual, investigação do agressor, renda e autonomia. Defender famílias é defender jornada menor, creches, moradia, saúde e salário que não obrigue ninguém a escolher entre cuidar de um filho e manter o emprego. A disputa cultural deixa de ser um ringue de slogans quando volta a encontrar o chão social que a direita tenta esconder.
O leitor que enxerga essa engrenagem não precisa abandonar a revolta; precisa torná-la menos manipulável. Quando uma nova cruzada moral ocupar as redes e os plenários, a pergunta não será apenas quem está sendo demonizado. Será também: que exploração está sendo preservada enquanto todos olham para esse alvo? Quem ganha quando a trabalhadora é convocada a vigiar o corpo, o desejo e a família de outra trabalhadora, em vez de reconhecer no patrão, na plataforma e no Estado seletivo os poderes que organizam sua falta de tempo, dinheiro e liberdade? Essa mudança de foco não resolve por si só a luta de classes, mas impede que ela seja continuamente sequestrada pelos que vivem de administrá-la contra nós.
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