Quando entregadores de aplicativo voltaram a paralisar suas atividades no Brasil, em abril de 2025, sob a marca do Breque dos Apps, a resposta das empresas e de boa parte do debate público seguiu um roteiro conhecido. Não haveria empregados, mas parceiros; não haveria subordinação, mas flexibilidade; não haveria salário rebaixado, apenas ganhos variáveis conforme o esforço de cada um. A cena concreta desmente a propaganda: trabalhadores desligam os aplicativos porque a remuneração por corrida não cobre dignamente combustível, manutenção, alimentação, dados móveis, equipamento de segurança e as horas de espera não pagas. Mas a mentira não se sustenta somente por ser repetida pelas plataformas. Ela se prolonga quando o próprio trabalhador, pressionado pela urgência de sobreviver, precisa tratá-la como uma verdade parcial para seguir pedalando ou acelerando.
É aí que o autoengano deixa de ser um defeito moral privado e aparece como problema político. Não se trata de acusar o entregador de ignorar sua própria condição, como se quem passa dez ou doze horas exposto ao trânsito não soubesse o peso de sua jornada. Ele sabe no corpo: no joelho lesionado, na moto financiada, no medo de assalto, no pedido cancelado, no bloqueio sem explicação, na conta que vence antes de a semana acabar. O autoengano opera de forma mais cruel: oferece uma narrativa que torna suportável uma situação cuja verdade, se plenamente admitida, cobraria uma ruptura. Dizer para si mesmo que é empreendedor, que amanhã haverá corrida boa, que basta trabalhar no horário certo, que outro aplicativo compensará o primeiro, é muitas vezes uma defesa contra a percepção de que não há controle individual sobre uma máquina que controla quase tudo.
A greve revela aquilo que o algoritmo tenta esconder
O Breque dos Apps é importante não apenas pelas reivindicações por remuneração mínima, transparência e melhores condições. Sua existência revela a contradição que a publicidade da plataforma tenta apagar. Se cada entregador fosse de fato um pequeno empresário autônomo, sem patrão e sem relação comum com os demais, uma paralisação coletiva teria pouco sentido. Empresários independentes não fazem greve contra um algoritmo; trabalhadores explorados, sim. A própria necessidade de desligar simultaneamente os aplicativos mostra que existe um poder do outro lado, concentrado em empresas que definem tarifas, distribuem pedidos, alteram critérios de pontuação, punem recusas e podem remover alguém da fonte de renda por uma decisão automática ou opaca.
Chamar essa relação de parceria não altera sua substância. O capital contemporâneo descobriu que pode se livrar de parte das obrigações trabalhistas sem abrir mão do comando sobre o processo de trabalho. A empresa não precisa entregar uniforme nem reconhecer vínculo para organizar o ritmo da produção. Basta organizar a demanda, controlar a visibilidade dos pedidos, calcular tempos, registrar trajetos e transformar cada segundo disponível em dado. A técnica, aqui, não é ferramenta neutra colocada nas mãos de sujeitos livres. Como advertia Heidegger em sua reflexão sobre a técnica, há um modo de enquadrar o mundo que o converte em recurso disponível. No aplicativo, o entregador é enquadrado como unidade de oferta permanentemente mobilizável: um ponto no mapa, uma taxa de aceitação, uma previsão de chegada, uma variável de custo.
O algoritmo ganha aparência de natureza. Diz-se que a tarifa caiu porque a demanda oscilou, que o bloqueio ocorreu porque o sistema identificou uma irregularidade, que a prioridade foi dada por critérios técnicos. A linguagem é decisiva: onde há decisão empresarial, fala-se em sistema; onde há redução de custo, fala-se em eficiência; onde há transferência de risco, fala-se em liberdade. A opacidade técnica dificulta até a formulação da injustiça. Um gerente pode ser contestado, um chefe pode ser enfrentado, uma regra explícita pode ser reivindicada. Já a ordem algorítmica parece vir de lugar nenhum, embora tenha donos, investidores, departamentos jurídicos e metas de rentabilidade.
O empreendedorismo como anestesia da classe
A ideologia do empreendedorismo oferece a linguagem íntima adequada a essa dominação. Ela afirma que trabalhar por conta própria é, por definição, mais digno do que vender a força de trabalho. A frase parece libertadora porque toca numa experiência real: ninguém quer ser humilhado por chefe, bater ponto sob vigilância ou depender de uma empresa que pode demitir. O problema é que a plataforma não elimina a dependência; ela a torna menos nomeável. O entregador continua obrigado a vender sua capacidade de trabalhar para viver, mas agora arca individualmente com instrumentos, acidentes, doenças, períodos sem demanda e aposentadoria. Recebe o risco que antes cabia à empresa e o título imaginário de dono do próprio destino.
Marx mostrou que a aparência da troca livre entre indivíduos encobre uma relação profundamente desigual. O trabalhador parece livre porque não está legalmente preso a um senhor; na prática, é livre também dos meios de produzir sua existência. Quem precisa pagar aluguel não negocia em igualdade com uma plataforma que pode substituir milhares de pessoas e operar com capital internacional. A escolha entre aceitar uma corrida mal paga e não ter dinheiro no fim do dia não é escolha no sentido forte da palavra. É coerção econômica. A ideologia não precisa negar inteiramente esse fato. Ela só precisa deslocar a culpa: se a renda é insuficiente, o problema seria a rota escolhida, a disciplina, a disposição para trabalhar, a incapacidade de “fazer estratégia”.
Daí o parentesco entre autoengano e meritocracia. O trabalhador de aplicativo é levado a interpretar uma renda instável como boletim moral sobre sua própria competência. Em dia bom, a plataforma lhe devolve a sensação de que venceu porque se esforçou; em dia ruim, faz parecer que ele errou sozinho. Esse mecanismo dissolve a percepção de classe. Cada um corre para otimizar seu desempenho contra todos os outros, como se o colega fosse concorrente e não alguém submetido à mesma redução de tarifa. A solidariedade se torna difícil porque a derrota é privatizada. O que é produzido por uma estrutura aparece como fracasso pessoal.
Não é ingenuidade, é sobrevivência capturada
Seria confortável imaginar que bastaria fornecer informação correta para dissipar esse autoengano. Não basta. O entregador pode conhecer perfeitamente as taxas, perceber que trabalha mais para receber proporcionalmente menos e ainda assim se agarrar à promessa de autonomia. Há boletos, filhos, dívidas, desemprego e a ausência de alternativas estáveis. Reconhecer que a suposta empresa própria é uma forma de assalariamento sem direitos pode produzir desespero quando não há organização capaz de transformar esse reconhecimento em força coletiva. A crença confortável não persiste apenas por ignorância; persiste porque a realidade social pune quem a enxerga isoladamente.
É por isso que a greve tem valor maior do que a interrupção temporária de entregas. Ela quebra a encenação individualista. Quando trabalhadores se identificam como parte de um mesmo conflito, a frase “cada um faz seu corre” perde sua inocência. O corre de um depende da tarifa definida por uma empresa, do preço do combustível, das políticas públicas de mobilidade, da falta de empregos formais e de uma legislação que ainda corre atrás das novas formas de exploração. A ação coletiva não elimina de imediato a dependência material, mas muda o modo de interpretá-la. Aquilo que parecia destino pessoal reaparece como relação social, e aquilo que parecia falha individual pode ser nomeado como exploração.
Debord escreveu que o espetáculo não é uma coleção de imagens, mas uma relação social mediada por imagens. A imagem do entregador feliz, dono de seu horário e conectado à cidade é uma peça desse espetáculo. Ela vale mais para a plataforma do que qualquer campanha publicitária isolada porque pode ser internalizada por quem é explorado. A tela mostra metas, medalhas, níveis, mapas e mensagens de incentivo; a precariedade é convertida em jogo. A gamificação não é ornamento: organiza desejo e disciplina. Fazer mais entregas parece conquistar uma fase, quando frequentemente significa apenas aumentar a extração de valor sobre um corpo já exausto.
Depois da desculpa individual, a disputa pelo real
O que muda quando se reconhece esse mecanismo não é uma iluminação íntima nem uma receita de sucesso contra o algoritmo. Muda o alvo da crítica. Em vez de perguntar por que determinado trabalhador não soube administrar melhor sua liberdade, torna-se necessário perguntar quem lucra com uma liberdade sem garantias. Em vez de admirar a resiliência exigida de quem trabalha na rua sob chuva e risco, é preciso recusar a ordem que transforma essa resiliência em condição ordinária de sobrevivência. E, em vez de tomar o empreendedorismo como horizonte universal, cabe defender direitos, transparência, proteção social e poder de organização para aqueles que a plataforma chama de parceiros enquanto administra como força de trabalho.
O autoengano perde terreno quando a experiência fragmentada encontra palavras, vínculos e luta coletiva. O entregador não precisa provar que é herói nem pequeno empresário para merecer respeito. Precisa, como qualquer trabalhador, não depender da mentira de que sua exploração é uma escolha para conseguir atravessar o dia. A cena de uma cidade com aplicativos parados recorda uma verdade simples e incômoda: por trás da conveniência entregue à porta, há trabalho humano; e onde há trabalho apropriado por poucos, há conflito de classe, por mais inteligente que seja a tela que tenta escondê-lo.
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