Polarização é uma palavra usada para explicar quase tudo e, justamente por isso, frequentemente não explica nada. Ela costuma designar a existência de campos políticos inconciliáveis, eleitores hostis, famílias que deixam de conversar e redes sociais tomadas por insultos. Há algo real nessa descrição: o Brasil vive uma intensificação da linguagem agressiva, da suspeita e da identificação política como marca moral. Mas o significado político da polarização não está simplesmente no fato de que as pessoas discordam. Uma sociedade dividida entre interesses opostos não é uma anomalia; é a condição ordinária de uma sociedade de classes. A questão decisiva é saber quais conflitos aparecem, quais são deformados e quem lucra quando a desigualdade material é traduzida numa guerra permanente de costumes, ressentimentos e inimigos abstratos.
Quando jornais, empresas de tecnologia e comentaristas apresentam a polarização como um excesso simétrico de extremismos, produzem uma fraude confortável. De um lado, há movimentos populares, sindicatos, trabalhadores precarizados, mulheres, negros e periferias que reivindicam direitos, salário, moradia e proteção pública. De outro, há uma reação organizada para preservar privilégios, desmontar direitos e oferecer autoritarismo como resposta à crise social. Não são polos equivalentes. O bolsonarismo não foi apenas uma preferência eleitoral mais enfática: foi uma operação política de extrema direita que transformou violência, desprezo pelos pobres, misoginia, racismo e ataque às instituições democráticas em linguagem de pertencimento.
Chamar isso genericamente de polarização permite apagar a assimetria entre a reivindicação por igualdade e a mobilização fascista contra a própria ideia de igualdade. A palavra, quando mal empregada, faz com que a defesa de direitos trabalhistas pareça tão “radical” quanto a defesa da tortura, e que o combate ao racismo pareça tão intolerante quanto o racismo que se combate. É uma neutralidade de fachada: ao nivelar posições desiguais, ela favorece a ordem que já distribui desigualmente poder, renda e voz.
Polarização significado não é a simples soma de opiniões contrárias
O significado de polarização precisa começar por uma distinção elementar. Existe antagonismo social, e ele não é inventado por uma retórica beligerante. Marx localizou no capitalismo uma contradição estrutural entre quem possui os meios de produzir riqueza e quem precisa vender a própria força de trabalho para sobreviver. O entregador que pedala sob chuva para cumprir metas opacas de um aplicativo não ocupa a mesma posição social da plataforma que captura parte de cada corrida sem se reconhecer como empregadora. O professor submetido a avaliações produtivistas e contratos frágeis não compartilha o mesmo interesse da rede empresarial que reduz educação a planilhas de desempenho. O operador de call center, monitorado por segundos de pausa e por scripts, não está em conflito com seu supervisor por temperamento: ambos estão inseridos numa maquinaria que extrai valor, embora um detenha mais poder imediato que o outro.
Esse antagonismo é concreto. Seu nome não deveria ser polarização, mas exploração, mais-valia, precarização e dominação de classe. A ideologia dominante, porém, trabalha para deslocar esse vocabulário. Em vez de perguntar por que milhões trabalham mais e vivem sob insegurança crescente, debate-se se o país foi “longe demais” em pautas culturais; em vez de discutir a concentração de riqueza e a captura privada do Estado, procura-se um culpado entre professores, artistas, beneficiários de políticas públicas, imigrantes, movimentos sociais ou qualquer minoria que possa ser transformada em bode expiatório.
É nesse deslocamento que a polarização ganha sua função. Ela não cria do nada o mal-estar social; ela o reorganiza. A raiva produzida pelo aluguel impagável, pelo salário corroído, pela humilhação no emprego e pela ausência de futuro pode ser dirigida contra quem explora ou contra quem está ainda mais vulnerável. O fascismo prospera na segunda alternativa. Ele oferece uma explicação simples para uma vida tornada insuportável: o problema não seria o capital, mas o inimigo interno; não seria a desigualdade, mas a corrupção moral de uma suposta elite cultural; não seria o abandono estatal, mas os direitos de quem nunca teve poder real.
O espetáculo transforma a crise em torcida
Debord descreveu uma sociedade em que a experiência coletiva é mediada por imagens e mercadorias. Nas plataformas digitais, essa mediação se tornou uma infraestrutura cotidiana da política. O conflito não desaparece, mas é convertido em conteúdo: uma sequência de vídeos curtos, indignações instantâneas, frases arrancadas de contexto e performances calculadas para circular. O que importa não é apenas convencer; é reter atenção, provocar resposta, consolidar uma audiência. A polarização, nesse ambiente, é também um modelo de negócios.
Os algoritmos não precisam possuir uma ideologia consciente para favorecer a radicalização. Basta que privilegiem aquilo que prolonga o engajamento: medo, escândalo, humilhação pública, certeza absoluta. A pessoa exausta após uma jornada de trabalho encontra no celular uma comunidade que dá forma ao seu ressentimento. Recebe explicações rápidas, inimigos nítidos e a sensação de participar de uma batalha histórica. O isolamento material é compensado por uma pertença digital, mas essa pertença pode ser politicamente regressiva. A multidão conectada não deixa de ser multidão porque cada indivíduo segura uma tela.
Le Bon, apesar dos limites conservadores de sua teoria das massas, percebeu que a multidão pode ser movida por contágio, imagens e simplificações afetivas. As redes industrializam esse contágio em escala e velocidade antes inimagináveis. Não se trata de dizer que seus usuários são incapazes de pensar; trata-se de reconhecer que a arquitetura técnica seleciona os estímulos e recompensa formas específicas de reação. A pessoa é conduzida a se perceber antes como consumidora de uma identidade política do que como trabalhadora inserida numa relação social comum.
A polarização administrada não elimina o conflito de classes; ela o torna menos visível, mais confuso e mais útil aos que concentram riqueza.
A falsa paz do centro protege a ordem desigual
O apelo contra a polarização costuma vir acompanhado de uma nostalgia por conciliação nacional. Mas conciliar o quê? Não há paz social verdadeira quando o trabalhador de aplicativo arca com o custo da bicicleta, do combustível, do acidente e da doença enquanto a empresa se apresenta como mera intermediária tecnológica. Não há moderação no fato de que políticas neoliberais privatizam serviços, comprimem direitos e chamam a sobrevivência individual de empreendedorismo. A linguagem do “equilíbrio” pode funcionar como exigência de silêncio para quem sofre as consequências dessa ordem.
Isso não significa defender uma política reduzida ao insulto ou à incapacidade de construir alianças. A esquerda não precisa imitar a brutalidade bolsonarista para enfrentá-la. Precisa, ao contrário, recusar a armadilha de uma política inteiramente moldada pela reação instantânea. O antagonismo de classe exige organização, programa e instituições coletivas; exige transformar indignação dispersa em luta por jornada menor, salário digno, serviços públicos, tributação dos ricos e controle democrático sobre as plataformas. O conflito existe, mas sua forma não precisa ser a do espetáculo.
Alysson Mascaro insiste que o Estado e o direito não pairam acima das relações sociais como árbitros neutros. Eles operam dentro da forma capitalista e ajudam a reproduzi-la, ainda que também possam ser terreno de disputa. Isso ajuda a compreender por que a polarização institucional é tão limitada quando separada da economia política. Eleições e tribunais importam, mas não bastam para alterar uma sociedade em que decisões fundamentais sobre emprego, crédito, logística, comunicação e tecnologia permanecem submetidas ao comando privado. A democracia mutilada pelo poder econômico oferece à população a escolha entre narrativas, enquanto preserva intocada boa parte da propriedade que organiza a vida.
Nomear o inimigo real é romper a engrenagem
Há uma diferença entre reconhecer divergências legítimas numa democracia e aceitar que toda política seja reduzida ao ódio recíproco entre metades abstratas do país. A primeira posição abre caminho para disputa racional e transformação social; a segunda dissolve responsabilidades. O trabalhador que culpa outro trabalhador por sua insegurança foi capturado por uma ideologia que protege quem efetivamente lucra com sua precariedade. A empresária de plataforma que chama exploração de inovação, o político que converte abandono social em guerra cultural e o influenciador que monetiza pânico moral não são detalhes de uma paisagem polarizada: são agentes e beneficiários de sua organização.
O sentido mais profundo da polarização contemporânea está nessa captura. Ela oferece uma catarse sem mudança, uma identidade sem emancipação e uma guerra contra alvos laterais no lugar da luta contra a estrutura que produz o desamparo. Romper esse circuito não é pedir que os explorados se acalmem para tranquilizar os donos do poder. É devolver precisão ao conflito: a sociedade brasileira não está dividida porque fala alto demais; ela está atravessada por classes, por desigualdade racial, por violência patriarcal e por um capitalismo que administra a vida como mercadoria. A tarefa política é fazer com que essa verdade deixe de ser ruído e se torne organização.
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