O que é subjetividade? A pergunta costuma receber uma resposta individualista: seria o conjunto particular de sentimentos, pensamentos, memórias e desejos que torna cada pessoa única. Há algo verdadeiro nisso, mas insuficiente. Ninguém sente, deseja ou se imagina fora da história. A subjetividade é a maneira pela qual cada indivíduo vive por dentro um mundo social que já existia antes dele: suas classes, suas instituições, suas linguagens, suas promessas e suas violências. Ela não é uma essência guardada no fundo da consciência; é uma formação histórica, atravessada por conflitos materiais. Pensar assim não elimina a singularidade humana. Ao contrário, permite entender por que tantas singularidades são empurradas a desejar as mesmas coisas, temer os mesmos inimigos e chamar de escolha aquilo que lhes foi apresentado como única saída.
No capitalismo, a produção de subjetividade não ocorre apenas na família, na escola ou na religião, embora todas continuem decisivas. Ela ocorre no local de trabalho, no desemprego, no crédito, na publicidade, nas plataformas digitais, na polícia e no Estado. O sujeito que se percebe como empresário de si mesmo não nasceu dessa forma. Ele é educado por uma ordem que transforma sobrevivência em desempenho e chama de liberdade a obrigação de disputar permanentemente uma renda. A ideologia não precisa convencer todos os dias por meio de um discurso explícito. Ela se realiza quando suas categorias passam a parecer naturais: mérito, produtividade, empreendedorismo, segurança, sucesso, fracasso individual.
O que é subjetividade quando a vida vira desempenho
Marx fornece um ponto de partida incontornável ao mostrar que a vida social não é governada primeiro pelas ideias que os indivíduos fazem de si, mas pelas relações materiais nas quais precisam viver. Isso não significa que a consciência seja uma mentira sem importância ou um reflexo mecânico da economia. Significa que ela é formada em condições que não escolheu livremente. O trabalhador vende sua força de trabalho porque precisa viver; dessa necessidade nasce uma relação na qual seu tempo, sua energia e sua inteligência são apropriados por outro. A subjetividade marcada por essa relação tende a experimentar a própria vida como corrida, insuficiência e ansiedade. Não porque o trabalhador tenha uma falha psicológica privada, mas porque a reprodução de sua existência depende de se tornar útil ao capital.
O entregador de aplicativo é apresentado como livre para ligar ou desligar a plataforma, aceitar ou recusar corridas, organizar a própria jornada. Mas a liberdade formal esbarra no preço do combustível, na prestação da moto, na necessidade de pagar aluguel e no cálculo opaco do algoritmo. A plataforma não precisa emitir uma ordem direta para que ele trabalhe exausto: basta distribuir chamadas, punições indiretas e incentivos de modo que a urgência econômica faça o serviço. A subjetividade produzida aí é a do trabalhador que vigia a si mesmo, mede o próprio esforço, culpa-se pelas horas fracas e celebra como conquista uma remuneração que mal cobre os custos. A exploração ganha eficiência quando é internalizada como autogerenciamento.
O mesmo mecanismo aparece no call center, onde scripts, metas e monitoramento reduzem a fala a procedimento mensurável; aparece no professor submetido a avaliações, formulários e tarefas administrativas que invadem o tempo de preparação e descanso; aparece no jovem que acumula cursos e certificados porque lhe disseram que a empregabilidade depende exclusivamente de sua atualização. Em cada caso, uma organização social transfere seus riscos para o indivíduo e depois interpreta os efeitos dessa transferência como traços de personalidade. Quem adoece está “sem resiliência”; quem não encontra trabalho não “se qualificou”; quem não prospera não “soube aproveitar oportunidades”. A meritocracia é menos uma descrição da realidade do que uma pedagogia da culpa.
A alienação alcança o desejo
Alienação, em Marx, não é simplesmente estar distraído ou distante de si. É o processo pelo qual aquilo que os seres humanos produzem se volta contra eles como uma força estranha. No trabalho alienado, o produto, o ritmo e o sentido da atividade pertencem ao capitalista, não a quem trabalha. Mas essa separação transborda a fábrica. Quando o valor de uma pessoa parece depender de seu currículo, de sua capacidade de consumo, de sua aparência vendável ou de sua performance nas redes, a própria experiência íntima passa a ser julgada por critérios externos. Descansar produz culpa porque o descanso não rende; estudar parece valer apenas como investimento; uma amizade é avaliada por contatos e oportunidades; o corpo se torna projeto interminável de otimização.
A subjetividade capitalista não é apenas a consciência de viver sob exploração; é também a pressão para transformar a exploração em identidade, projeto pessoal e orgulho.
Essa pressão não apaga os desejos reais, as alegrias ou os vínculos que escapam ao cálculo. Ela, porém, tenta colonizá-los. A indústria cultural, debatida pela Escola de Frankfurt, não deve ser entendida como uma simples coleção de produtos ruins que enganam uma massa passiva. Seu poder está em organizar formas repetitivas de sentir e imaginar: oferece rebeldia já empacotada, indignação sem consequência, felicidade associada a consumo e reconhecimento dependente de visibilidade. Debord aprofundou esse diagnóstico ao tratar do espetáculo como uma relação social mediada por imagens. Não se trata somente de telas demais. Trata-se de uma sociedade em que a experiência é constantemente convertida em aparência, audiência, marca e circulação.
As redes sociais e as ferramentas de Big Data ampliam essa maquinaria porque tornam rastros de atenção, preferência e comportamento matéria-prima de negócio. O usuário não é apenas consumidor de conteúdo: também fornece dados, tempo e sinais para sistemas que classificam, preveem e vendem sua disponibilidade. A subjetividade, nesse terreno, é convocada a se expor continuamente. É preciso narrar a vida, produzir opinião imediata, reagir, escolher um lado visível, construir um perfil coerente para públicos e algoritmos. A promessa é de expressão individual; o resultado frequente é a adaptação a formatos que premiam simplificação, conflito e repetição. A técnica não determina sozinha o que somos, mas tampouco é neutra quando está organizada por empresas cujo lucro depende de capturar atenção e orientar condutas.
Subjetividade, medo e a política da multidão
A subjetividade também é um terreno político decisivo. O bolsonarismo não se explica apenas por desinformação, nem por uma irracionalidade abstrata do eleitor. Ele mobilizou medos e ressentimentos que possuem bases sociais: precarização, humilhação cotidiana, perda de referências, insegurança material e sensação de abandono. Seu trabalho ideológico consistiu em deslocar a causa desses sofrimentos. Em vez de apontar para a concentração de riqueza, a destruição de direitos e o poder das classes dominantes, ofereceu inimigos mais vulneráveis: pobres, negros, mulheres, povos indígenas, professores, artistas, movimentos sociais. A violência aparece então como sinceridade; o autoritarismo, como ordem; o privilégio, como mérito ameaçado.
Le Bon observou como multidões podem ser tomadas por contágio afetivo e sugestão. A direita fascista aprendeu historicamente a explorar esse problema, mas seria um erro tratar as massas como naturalmente incapazes de pensar. A multidão não é uma doença social; ela pode produzir solidariedade, greve, organização popular e transformação. A questão é quais instituições, meios de comunicação e formas de vida dirigem os afetos coletivos. Uma subjetividade isolada, exausta e concorrencial é mais vulnerável ao líder que oferece pertencimento mediante ódio. Uma subjetividade formada na experiência de organização, por sua vez, pode reconhecer que a angústia não é destino individual e que a vida comum exige outra estrutura social.
Heidegger advertiu que a técnica moderna tende a enquadrar o mundo como reserva disponível para uso. Lido criticamente, esse alerta ajuda a perceber a redução contemporânea de pessoas a dados, recursos humanos, notas de produtividade e perfis de risco. Mas a saída não está numa nostalgia de um passado pré-técnico, como se as máquinas fossem a origem autônoma da dominação. A questão decisiva é quem controla a técnica, para quais finalidades e sob quais relações de propriedade. Uma tecnologia submetida ao lucro tende a intensificar vigilância e exploração; uma tecnologia organizada democraticamente poderia reduzir jornadas, ampliar tempo livre e proteger capacidades humanas hoje sacrificadas à rentabilidade.
Não há libertação íntima sem transformação social
Definir subjetividade como produção social não autoriza fatalismo. Se os sujeitos são constituídos em relações históricas, podem também transformar essas relações. Mas essa possibilidade não cabe na fórmula empresarial de “mudar a mentalidade”. Não basta ensinar o entregador a pensar positivamente, recomendar meditação ao trabalhador assediado ou pedir ao jovem precarizado que desenvolva inteligência emocional. Tais expedientes podem até oferecer alívio individual, mas se tornam ideologia quando substituem a luta contra as condições que produzem sofrimento. Uma subjetividade menos alienada depende de tempo não submetido ao lucro, de trabalho com direitos, de educação crítica, de cultura não reduzida a mercadoria e de formas coletivas de decisão.
O indivíduo não é uma peça passiva moldada de fora, mas tampouco é o soberano absoluto de sua biografia. Ele é um ser social, capaz de agir sobre as determinações que o formam quando se liga a outros em práticas comuns. A subjetividade deixa de ser o nome elegante de uma interioridade privada e se torna uma questão material e política: quem organiza nossos desejos, quem lucra com nossos medos, que tipo de vida aprendemos a considerar possível? Sob o capitalismo, a resposta tende a levar de volta à concorrência e à adaptação. Contra isso, a crítica não procura uma pureza interior perdida. Procura construir condições para que a singularidade humana não precise nascer, todos os dias, sob o comando da exploração.
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