Fascista definição não deveria ser uma questão restrita ao dicionário, como se bastasse listar autoritarismo, nacionalismo e culto ao líder para encerrar o assunto. Essa definição escolar descreve sinais importantes, mas perde o mecanismo decisivo: o fascismo é uma tecnologia política de guerra social. Ele organiza o medo produzido pela crise, oferece inimigos visíveis a uma população fragmentada e protege, sob a linguagem da ordem, as estruturas materiais que geram a própria insegurança. Não é apenas uma opinião exaltada, nem todo conservadorismo é fascismo. Trata-se de uma forma de mobilização que converte ressentimento em licença para perseguir, humilhar e eliminar o adversário político e social.
O erro mais confortável é imaginar o fascismo como uma peça de museu europeu, identificável apenas por uniformes, saudações e ditaduras formalmente instaladas. Essa distância histórica serve aos que precisam negar os processos presentes. Uma sociedade não se torna fascista quando todos os seus cidadãos passam a ler os mesmos livros ou a desfilar em formação militar. Ela se aproxima do fascismo quando parcelas de sua população aceitam que direitos são privilégios de inimigos, que a violência estatal deve ser seletiva e ilimitada, que o voto só vale se confirmar seu chefe e que a desigualdade precisa de uma justificativa moral.
No Brasil, o bolsonarismo forneceu uma experiência concreta dessa operação. Não porque cada eleitor de Jair Bolsonaro fosse fascista, mas porque seu movimento tornou politicamente legítima uma linguagem fascistizante: a celebração de torturadores, a suspeita permanente contra instituições quando elas impunham limites ao Executivo, a conversão de professores, jornalistas, artistas, indígenas, movimentos populares e trabalhadores organizados em ameaças internas. A função desse repertório não era somente provocar escândalo. Era produzir uma comunidade imaginária unificada pelo ódio, na qual divergência deixa de ser conflito democrático e passa a ser traição.
Fascista definição exige olhar para a função do inimigo
O fascista não inventa a frustração social; ele a administra em benefício da dominação. O trabalhador que passa horas dirigindo para aplicativos, sem salário garantido, férias ou proteção diante de um acidente, tem razões materiais para estar indignado. O professor submetido a metas, assédio de famílias mobilizadas por pânicos morais e deterioração das condições de ensino também. A atendente de call center, vigiada por cronômetros e scripts, conhece a experiência de ter sua voz convertida em mercadoria. O fascismo entra nesse terreno real, mas desloca a causa do sofrimento.
Em vez de dirigir a revolta contra empresas que extraem valor e transferem riscos aos trabalhadores, contra a financeirização da vida ou contra um Estado estruturado para preservar propriedade e hierarquia, ele indica alvos mais frágeis e mais próximos: o pobre que recebe auxílio, a mulher que reivindica autonomia, o imigrante, o negro que denuncia o racismo, o sindicalista, o artista, o servidor público, o estudante. A crise deixa de aparecer como resultado de relações capitalistas e passa a ser atribuída à corrupção moral de grupos supostamente protegidos por uma elite cultural. A exploração é preservada; o explorado é convocado a vigiar outro explorado.
Marx mostrou que as ideias dominantes tendem a ser as ideias da classe dominante, não porque toda pessoa rica se reúna numa sala para decidir o que todos pensarão, mas porque as condições materiais de produção organizam também os limites do pensável. O fascismo radicaliza esse trabalho ideológico. Ele oferece uma explicação simples e personalizada para processos complexos: não há desemprego e precarização porque o capital reorganizou a produção; há porque inimigos sabotam a nação. Não há desmonte de direitos porque empresas exigem liberdade para explorar; há porque o Estado foi “tomado” por parasitas. A mentira fascista é eficiente não por ser coerente, mas porque dá rosto à angústia.
O fascismo não resolve a crise que mobiliza. Ele impede que ela seja compreendida como crise de classe.
O bolsonarismo fez da multidão uma arma contra ela mesma
Gustave Le Bon observava que a multidão não é a simples soma de indivíduos: nela, afetos podem circular com velocidade e reduzir o espaço da ponderação. Essa percepção, arrancada de qualquer elitismo que trate o povo como incapaz de pensar, ajuda a compreender uma técnica política contemporânea. Plataformas digitais, grupos de mensagem e transmissões permanentes criam multidões sem praça, reunidas por impulsos de medo, indignação e pertencimento. O bolsonarismo explorou esse circuito ao transformar cada limite institucional, cada crítica jornalística e cada medida sanitária em prova de uma conspiração contra “o povo”.
O ponto não é culpar a tecnologia por aquilo que é decisão política. As plataformas oferecem infraestrutura para a aceleração do espetáculo, no sentido de Debord: relações sociais mediadas por imagens, slogans e performances que substituem a experiência concreta por sua representação manipulada. O entregador que enfrenta chuva, trânsito e remuneração variável pode receber no celular, entre uma entrega e outra, vídeos que lhe dizem que seu problema é um suposto inimigo ideológico. A plataforma que calcula sua rota, define indiretamente seu ganho e pode bloqueá-lo sem negociação desaparece como adversária. Em seu lugar, aparece uma fantasia nacional de combate moral.
Essa fantasia foi especialmente cruel durante a pandemia de covid-19. A minimização da doença, o ataque a medidas de proteção e a transformação da cautela em sinal de fraqueza não foram meros erros de comunicação. Eles expressaram uma política que tratava vidas vulneráveis como custo aceitável para manter a aparência de normalidade econômica. A retórica da liberdade foi usada contra o direito coletivo de sobreviver. Quando a morte é naturalizada e o cuidado é ridicularizado, o poder testa até onde pode avançar na desumanização de sua própria população.
A ordem fascista é a desordem do capital protegida pela violência
Há uma confusão útil aos defensores da ordem existente: chamar de fascista qualquer gesto estatal duro e, ao mesmo tempo, negar fascismo quando a violência se apresenta com eleições, mercado e redes sociais. O fascismo pode conviver com empresários, tribunais, parlamentos e meios de comunicação enquanto lhe forem funcionais. Ele não precisa abolir imediatamente todas as instituições; pode corroê-las por dentro, desacreditando regras comuns e preparando a população para aceitar sua supressão. Sua promessa de ordem não busca igualdade perante a lei. Busca uma hierarquia em que alguns tenham autorização para mandar, lucrar e agredir, enquanto outros devem obedecer e agradecer.
Alysson Mascaro insiste que o Estado e o direito não pairam acima das relações sociais como árbitros neutros. Essa chave é indispensável. Quando a extrema direita pede mais polícia, menos direitos e punição mais rápida, não propõe uma abstração chamada segurança: propõe reforçar o braço repressivo de uma sociedade profundamente desigual. Nas periferias, a violência estatal já opera com frequência como regra; nos espaços das elites, a mesma violência é celebrada como garantia de proteção. O fascismo dá linguagem popular a essa seletividade, fazendo parecer que a brutalidade contra determinados corpos é defesa de todos.
Por isso, reconhecer o fascismo não significa substituir análise por xingamento. Exige identificar uma política que recusa a igualdade humana, necessita de inimigos internos, glorifica a força e oferece submissão como pertencimento. No Brasil, essa política encontrou terreno fértil na precarização, no racismo estrutural, no antipetismo convertido em ódio absoluto e na frustração de quem foi levado a crer que empreender sozinho seria mais digno do que exigir direitos coletivos. Combater esse processo não se limita a derrotar candidatos nas urnas, embora isso seja indispensável. Implica reconstruir vínculos de classe, defender instituições democráticas sem fetichizá-las e tornar visível o responsável material pela insegurança que o fascismo explora.
O nome importa porque a linguagem é campo de luta. Chamar de fascista uma prática fascista não é exagero quando essa prática transforma sofrimento em perseguição, democracia em obstáculo e violência em virtude. A definição mais consequente não termina na palavra: ela obriga a perguntar quem ganha quando trabalhadores são ensinados a odiar uns aos outros em vez de confrontar o sistema que os torna descartáveis.
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