Lawfare é a instrumentalização estratégica do sistema jurídico para produzir resultados políticos: afastar candidatos, desgastar organizações, intimidar militantes, bloquear direitos ou reorganizar o poder em favor de determinados interesses. Não se trata simplesmente de aplicar a lei a quem cometeu um crime, nem de dizer que toda investigação contra uma figura política é perseguição. O termo descreve situações em que acusações, prisões provisórias, vazamentos seletivos, espetacularização midiática e manobras processuais convergem para condenar alguém na opinião pública e na vida política, mesmo quando as garantias do devido processo são fragilizadas.

Origem: a guerra conduzida por meios jurídicos

A palavra combina law, lei, e warfare, guerra. Sua formulação contemporânea circulou em debates sobre conflitos internacionais e estratégias de poder nas quais instrumentos legais serviam como armas. Com o tempo, passou a nomear também o uso interno de tribunais, polícias, ministérios públicos e órgãos administrativos para travar disputas políticas.

O direito nunca opera fora da sociedade. Leis são feitas em relações de força, interpretadas por instituições compostas por pessoas e aplicadas de maneira desigual segundo classe, raça, território e posição política. Uma pessoa pobre presa em flagrante, um jovem negro abordado pela polícia e um grande empresário acusado de fraude não encontram o mesmo Estado, os mesmos recursos de defesa ou a mesma presunção prática de inocência. O lawfare explora essa desigualdade, mas ganha uma forma específica quando a máquina judicial passa a ser mobilizada contra inimigos políticos.

Como o lawfare opera

O mecanismo não exige uma ordem secreta única nem a falsificação aberta de todo procedimento. Pode funcionar pela soma de atos formalmente legais, porém orientados por uma finalidade política: escolher seletivamente quem investigar, prolongar medidas cautelares, recorrer a prisões preventivas como pressão, divulgar trechos de depoimentos fora de contexto ou aceitar acusações frágeis com consequências imediatas.

  • Seleção: condutas semelhantes recebem tratamentos opostos conforme o alvo e sua utilidade política.
  • Antecipação da pena: a investigação já pune pelo custo financeiro, pela exposição pública e pela impossibilidade de exercer plenamente a atividade política.
  • Espetáculo: operações, vazamentos e declarações transformam suspeita em culpa social antes do contraditório.
  • Excepcionalidade: regras processuais são flexibilizadas para um caso apresentado como urgente, moralmente intolerável ou extraordinário.

Assim, a aparência de legalidade é decisiva. Um golpe clássico fecha o Parlamento ou suspende a Constituição de modo explícito. O lawfare pode conservar eleições, tribunais e ritos formais, enquanto corrói por dentro as condições materiais da democracia. A decisão judicial vira também notícia, arma eleitoral e sinal para o mercado, para partidos e para grupos empresariais.

O caso brasileiro e a crise democrática

No Brasil, o debate sobre lawfare tornou-se incontornável com a Operação Lava Jato e seus efeitos sobre a política nacional. A prisão de Luiz Inácio Lula da Silva, em 2018, retirou da eleição um candidato que liderava pesquisas de intenção de voto. Posteriormente, decisões do Supremo Tribunal Federal reconheceram a incompetência da vara de Curitiba para julgar os processos e a parcialidade do então juiz Sergio Moro em um dos casos. Isso não é um detalhe técnico: competência e imparcialidade são condições para que o processo seja processo, e não uma encenação jurídica de uma decisão política já desejada.

A Lava Jato também mostrou como a associação entre setores do Judiciário, Ministério Público e grandes meios de comunicação pode fabricar uma atmosfera de cruzada moral. A corrupção, problema real e estrutural, foi narrada como vício concentrado em certos partidos e figuras, enquanto relações entre empreiteiras, financiamento empresarial, elites econômicas e Estado apareciam como pano de fundo. Ao personalizar a crise, preserva-se o sistema que torna a corrupção funcional à acumulação capitalista e à reprodução da classe dominante.

O resultado político foi amplo: deslegitimação seletiva da política, fortalecimento de discursos antipartido, abertura de espaço para a extrema direita e naturalização de soluções autoritárias. O bolsonarismo soube explorar esse terreno, embora também tenha atacado instituições quando elas deixaram de servir aos seus objetivos. Lawfare e fascismo não são sinônimos, mas podem se alimentar: um desorganiza garantias democráticas em nome da moralização; o outro converte o ressentimento produzido nessa desorganização em perseguição aberta e culto à violência.

Crítica: defender garantias não é defender impunidade

Chamar algo de lawfare não deve ser um recurso automático para blindar poderosos ou negar crimes. Essa redução transforma uma crítica séria em álibi. A questão é outra: quem investiga todos os centros de poder com o mesmo rigor? Quais provas sustentam a acusação? Houve ampla defesa, juiz imparcial e respeito às regras? Por que determinados alvos são expostos como inimigos nacionais, enquanto outros permanecem protegidos pela discrição institucional?

Uma crítica anticapitalista recusa tanto a impunidade das elites quanto a justiça de exceção. Quando o direito é capturado como arma seletiva, trabalhadores e movimentos sociais pagam a conta: greves podem ser judicializadas, ocupações tratadas apenas como caso de polícia e lideranças submetidas a processos que consomem tempo, dinheiro e capacidade de organização. Defender o devido processo, nesse sentido, não é fetiche jurídico. É defender um limite mínimo contra um Estado que, sob comando da classe dominante, tende a chamar de justiça aquilo que preserva a ordem existente.