O que é o comunismo não é uma pergunta inocente no Brasil. Ela chega quase sempre carregada por décadas de propaganda: de um lado, o fantasma de um Estado que proibiria toda liberdade; de outro, a explicação escolar que reduz o comunismo a uma doutrina surgida no século XIX ou a uma lista de países. Ambas as respostas podem informar alguma coisa, mas deixam fora o nervo do problema. Comunismo é, antes de tudo, o nome de uma crítica radical à sociedade em que a riqueza é produzida coletivamente e apropriada privadamente. É a hipótese de que quem trabalha possa governar a produção, em vez de permanecer governado por patrões, acionistas, bancos e pelos imperativos cegos da rentabilidade.
Não se trata de imaginar que todos terão o mesmo gosto, a mesma profissão ou a mesma vida. Essa caricatura serve à ordem existente porque transforma uma questão material em pesadelo moral. A pergunta comunista é mais concreta e mais incômoda: por que uma pequena classe decide o que será produzido, como será produzido e para quem, enquanto a maioria vende sua capacidade de trabalhar para sobreviver? Por que o avanço técnico, que poderia reduzir jornadas e ampliar o tempo livre, aparece como desemprego, metas impossíveis e disponibilidade permanente?
No capitalismo brasileiro, essa questão não mora apenas em livros. Ela está no motociclista que aceita corridas sucessivas para alcançar uma renda mínima, paga combustível, manutenção e riscos do próprio bolso e ainda é chamado de “parceiro” pela empresa que controla o acesso ao serviço. Está na trabalhadora de telemarketing cuja voz, pausas e produtividade são cronometradas por sistemas que ela não escolheu. Está no professor transformado em alimentador de plataformas, relatórios e indicadores, enquanto lhe retiram tempo de preparar aula, estudar e viver. A forma contemporânea do comando não precisa sempre do capataz visível: ela pode aparecer como aplicativo, algoritmo, avaliação automática e promessa de autonomia.
O que é o comunismo contra a falsa liberdade do aplicativo
O entregador é apresentado como empreendedor porque possui uma mochila, uma motocicleta ou uma bicicleta. Mas possuir os próprios instrumentos precários não significa controlar o trabalho. Quem define o valor da corrida, a distribuição dos pedidos, os critérios de bloqueio e a visibilidade no aplicativo é a plataforma. O trabalhador arca com custos e incertezas; a empresa concentra dados, infraestrutura, poder de definir regras e uma parcela do valor gerado por milhares de jornadas. A linguagem do empreendedorismo encobre uma relação de dependência, para que a exploração pareça escolha individual.
Marx chamou de mais-valia a parcela de valor criada pelo trabalho e apropriada pelo proprietário dos meios de produção. O conceito não descreve apenas a fábrica de chaminés e esteiras. Ele ajuda a ler a plataforma que transforma cada deslocamento urbano em dado, tarifa e margem de lucro. A tecnologia não aboliu a relação de classe; ela a tornou mais difusa e, muitas vezes, mais difícil de contestar. Quando o trabalhador não sabe exatamente como o sistema o classifica, por que recebe menos chamadas ou em que condição pode ser desligado, o comando empresarial ganha a opacidade de uma força natural.
Comunismo, nesse terreno, não seria uma promessa vazia de que um aplicativo estatal resolveria a exploração. Seria a transformação das relações de propriedade e decisão que fazem da técnica um instrumento de extração privada. Se o trabalho de entrega organiza parte da alimentação, do comércio e da circulação nas cidades, por que seus trabalhadores não participariam efetivamente das decisões sobre tarifas, jornada, segurança, dados e distribuição dos resultados? A resposta capitalista é simples: porque a propriedade dá poder a quem não realiza o trabalho. A resposta comunista começa recusando essa naturalização.
Não é repartir pobreza, mas abolir o poder privado sobre a riqueza social
Uma objeção recorrente diz que o comunismo quer “dividir tudo igualmente”. Ela desloca a discussão daquilo que já existe. No capitalismo, a riqueza não é individualmente produzida: uma mercadoria depende de cadeias de trabalho, ciência acumulada, infraestrutura pública, energia, transporte, terra e cooperação social. O que é privado é a apropriação final. O dono de uma empresa não cria sozinho a rede logística, o conhecimento técnico ou o valor realizado por seus empregados. Sua propriedade funciona como título jurídico para capturar uma riqueza que depende de multidões.
É por isso que a crítica comunista não se reduz à defesa de salários um pouco melhores, embora salário, direitos e organização sindical sejam disputas indispensáveis. Ela pergunta por que o trabalhador deve depender do mercado para acessar moradia, alimentação, saúde, cultura e descanso, mesmo sendo ele parte de quem torna tudo isso possível. Uma sociedade comunista, na formulação marxiana, aponta para a superação das classes e para a associação livre dos produtores: a produção organizada segundo necessidades socialmente deliberadas, e não segundo a expectativa de retorno de investidores.
Isso exige planejamento democrático, e não a fantasia de que as necessidades coletivas se ajustam sozinhas pelo preço. O mercado apresenta suas decisões como neutras, mas seu veredito é brutalmente político: quem não pode pagar, não acessa; quem não gera lucro suficiente, é descartado; o que é útil mas pouco rentável pode ser abandonado. A moradia vazia ao lado da população sem teto, a comida desperdiçada ao lado da fome e a capacidade produtiva submetida à especulação não são acidentes de um sistema eficiente. São expressões de uma racionalidade voltada à valorização do capital.
O Estado não é sinônimo de comunismo
Confundir comunismo com qualquer Estado que tenha se declarado comunista também facilita o debate superficial. Experiências históricas marcadas por burocratização, repressão e ausência de liberdades políticas não desaparecem porque alguém as chama de propaganda inimiga. Devem ser enfrentadas como problemas reais da tradição socialista e como advertência contra a concentração de poder. Mas usá-las como resposta automática é um modo de impedir a pergunta sobre o capitalismo que existe aqui e agora.
Para Marx, o Estado não era uma entidade neutra pairando acima das classes. Na sociedade capitalista, ele organiza juridicamente uma ordem fundada na propriedade privada e na exploração do trabalho, mesmo quando reconhece direitos e administra conflitos. Alysson Mascaro insiste que o direito não é uma simples ferramenta que qualquer classe maneja sem limites: sua forma está ligada à própria sociabilidade capitalista, à figura de indivíduos formalmente iguais que trocam mercadorias em condições materialmente desiguais. Assim, não basta trocar os ocupantes do Estado ou decretar a justiça social. A emancipação exige transformar as estruturas que reproduzem a separação entre quem decide e quem executa.
Essa formulação é mais exigente do que a oposição fácil entre Estado grande e Estado pequeno. O trabalhador brasileiro conhece bem o Estado que falta na proteção social e sobra na violência policial, no despejo e na defesa dos privilégios. Conhece também empresas que pedem desregulação para explorar e subsídios quando seus negócios vacilam. O capitalismo realmente existente jamais foi o reino do indivíduo independente; ele depende de instituições públicas para garantir contratos, propriedade, crédito, infraestrutura e disciplina social.
O espantalho anticomunista protege uma realidade de classe
O bolsonarismo fez do anticomunismo um dispositivo de mobilização afetiva. Não precisava definir comunismo com rigor; bastava associá-lo a medo, desordem, perseguição religiosa ou perda de bens. Gustave Le Bon observou como as multidões podem ser conduzidas por imagens simples e palavras carregadas de emoção. Na política digital, esse mecanismo se acelera: vídeos curtos, correntes e indignação fabricam uma comunidade imaginária contra um inimigo comum. O comunista fantasmático cumpre a função de desviar a raiva produzida pela precarização para professores, movimentos sociais, artistas ou qualquer figura convertida em ameaça moral.
Debord ajuda a entender a operação: no espetáculo, a relação social aparece mediada por imagens que substituem a experiência e bloqueiam a análise. Enquanto se discute uma versão delirante de comunismo, a jornada se estende, o aluguel consome a renda e a plataforma redefine unilateralmente as condições de trabalho. A palavra “liberdade” é sequestrada para significar a liberdade empresarial de reduzir custos, vigiar trabalhadores e transformar direitos em obstáculos. A liberdade do entregador de ficar desconectado, quando desconectar significa não pagar as contas, é uma liberdade sem poder material.
Responder ao que é o comunismo, então, exige retirar o termo do museu e do pânico moral. Ele designa uma luta para que a vida social não seja organizada pela acumulação privada. Não oferece fórmula pronta nem dispensa conflitos sobre democracia, liberdade e organização política. Mas mantém uma verdade que o capitalismo tenta tornar impensável: os que produzem a riqueza podem deixar de ser administrados como custo, dado e peça substituível. Quando o entregador, a professora e a operadora de telemarketing reconhecem que sua precariedade não é falha pessoal, mas resultado de uma ordem de classe, a palavra comunismo volta a nomear não um fantasma, e sim uma possibilidade histórica.
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