Mais valia absoluta e relativa não são apenas conceitos para provas de sociologia. São formas concretas de organizar a exploração capitalista, inclusive quando o trabalho parece ter deixado a fábrica. O entregador que permanece conectado até a madrugada, a professora que prepara aulas depois do expediente e o operador de call center submetido a metas calculadas em segundos participam de uma mesma lógica: o capital procura ampliar o tempo e a intensidade do trabalho sem ampliar proporcionalmente aquilo que paga por ele.

A diferença entre as duas formas de mais-valia é conhecida, mas costuma ser apresentada de modo inofensivo, como se pertencesse a uma etapa encerrada da história industrial. A mais-valia absoluta resulta do prolongamento da jornada ou da intensificação direta do trabalho. A relativa surge quando o capital aumenta a produtividade e reduz o tempo necessário para reproduzir o valor pago ao trabalhador, liberando uma parcela maior da jornada para a produção de valor excedente. O capitalismo digital não escolheu uma dessas modalidades. Ele combinou as duas e fez da fronteira entre tempo de trabalho e tempo de vida um território de disputa permanente.

A mais valia absoluta e relativa no trabalho que nunca termina

Marx mostrou que o salário não compra o trabalho inteiro, mas a força de trabalho: a capacidade que o trabalhador vende por determinado período. O capitalista paga o suficiente para a reprodução dessa força, mas utiliza essa capacidade por mais tempo e com maior intensidade do que seria necessário para repor o salário. É nessa diferença que se encontra a mais-valia. A novidade atual não está no desaparecimento dessa relação, e sim na capacidade de escondê-la sob a linguagem da autonomia, da flexibilidade e do empreendedorismo.

O entregador de aplicativo é uma imagem precisa dessa transformação. Formalmente, ele seria um trabalhador independente, responsável por administrar o próprio negócio e escolher quando trabalhar. Na prática, depende de uma plataforma que define preços, distribui chamadas, avalia seu desempenho e pode reduzir sua prioridade sem oferecer uma explicação efetiva. O tempo de espera entre uma entrega e outra é tratado como tempo privado, embora o trabalhador precise permanecer disponível, circular pela cidade e assumir custos de transporte, manutenção, alimentação e risco.

Quando esse trabalhador prolonga a jornada para alcançar uma renda insuficiente, aparece a mais-valia absoluta em sua forma contemporânea. Não é necessariamente uma ordem explícita para permanecer doze horas na rua. A necessidade econômica, mediada pelo aplicativo, produz uma autodisciplina mais eficiente do que o velho supervisor de fábrica. A plataforma pode chamar isso de liberdade; a realidade é que o trabalhador estende sua jornada porque o pagamento por tarefa não garante a reprodução de sua vida.

Ao mesmo tempo, o algoritmo realiza uma operação de mais-valia relativa. Ele calcula rotas, controla ritmos, distribui pedidos e transforma cada deslocamento em unidade mensurável de produtividade. O trabalhador não precisa apenas trabalhar mais tempo: precisa executar mais tarefas em cada intervalo, aceitar um ritmo definido por um sistema que não pode contestar. A tecnologia aumenta a produtividade e desloca para o indivíduo os custos dessa aceleração.

Da fábrica ao algoritmo: produtividade como comando

A mais-valia relativa não depende de uma máquina visível instalada no local de trabalho. Ela pode operar por meio de softwares, painéis de desempenho, sistemas de pontuação e metas que convertem atividades complexas em números. No call center, cada atendimento é medido por duração, intervalo e resolução. O operador aprende que uma pausa maior pode prejudicar sua avaliação e que uma conversa prolongada ameaça a meta do turno. A tela não é apenas instrumento de trabalho: é uma forma de supervisão incorporada à própria atividade.

Na escola, a mesma lógica aparece sob outra aparência. O professor é responsabilizado por resultados, registros, planejamentos, relatórios e respostas instantâneas a famílias e administrações. O tempo necessário para preparar uma aula, corrigir trabalhos ou acompanhar um estudante raramente é reconhecido como parte integral do trabalho. A jornada oficial termina, mas a atividade continua no computador e no celular. A instituição captura horas que parecem pessoais porque não são registradas como presença.

Essa captura produz uma contradição central. A tecnologia é apresentada como meio de poupar esforço e ampliar a autonomia, mas seus ganhos de produtividade não se convertem automaticamente em redução da jornada, aumento do salário ou controle dos trabalhadores sobre o processo produtivo. Sob propriedade capitalista, a inovação tende a servir primeiro à apropriação privada do tempo economizado. O que poderia significar mais tempo livre aparece como disponibilidade para novas tarefas.

Quando a produtividade aumenta sem que o trabalhador controle o destino do tempo economizado, a técnica deixa de ser promessa de emancipação e se torna instrumento de apropriação.

A ideologia do empreendedor contra a experiência da exploração

A linguagem do empreendedorismo cumpre uma função ideológica decisiva. Ela transforma uma relação social em escolha individual. O entregador não seria explorado; estaria administrando sua rotina. A professora não estaria sobrecarregada; precisaria desenvolver melhor sua organização. O operador que não alcança a meta não enfrentaria um sistema desenhado para extrair mais trabalho; faltaria a ele resiliência.

Essa inversão não elimina a exploração, apenas a torna psicologicamente suportável e politicamente mais difícil de nomear. O trabalhador passa a interpretar a própria exaustão como fracasso pessoal. Em vez de reconhecer uma classe que vende sua força de trabalho a quem controla os meios de produção, a ideologia oferece uma coleção de indivíduos concorrentes, cada um responsável por transformar sua precariedade em oportunidade.

O bolsonarismo encontrou nessa subjetividade um terreno fértil. Seu discurso contra direitos trabalhistas, sindicatos e regulação não criou a exploração, mas procurou apresentá-la como condição natural da liberdade. A empresa aparece como vítima de impostos e regras; o trabalhador, como empreendedor que deve aceitar riscos sem poder negociar as condições que os produzem. A promessa de liberdade econômica encobre uma assimetria elementar: quem controla a plataforma, o contrato, os dados e o dinheiro não negocia em igualdade com quem depende de cada corrida, cada chamada ou cada aula paga.

O Estado não está fora da relação de exploração

A exploração não se mantém apenas por uma suposta neutralidade tecnológica. Ela depende de formas jurídicas e políticas que definem quem será reconhecido como trabalhador, quem responderá por acidentes e quem poderá exigir proteção. Como mostra Alysson Mascaro ao analisar a forma política do Estado, a igualdade jurídica entre indivíduos é compatível com uma desigualdade material estrutural: trabalhador e empresa podem aparecer como sujeitos livres de um contrato, embora apenas um deles possua capital, controle organizacional e poder de impor condições.

É por isso que a disputa sobre aplicativos, terceirização, metas e reconhecimento de vínculo não é um detalhe administrativo. Ela decide quem arca com o custo da reprodução social e quem se apropria dos ganhos de produtividade. Quando o Estado aceita que a plataforma seja apenas uma intermediária tecnológica, apesar de organizar a atividade econômica, contribui para ocultar a relação de trabalho. Quando permite que escolas e empresas transfiram tarefas para fora do expediente sem reconhecê-las, amplia a zona gratuita de trabalho apropriada pelo capital.

A crítica da mais-valia precisa, então, abandonar a nostalgia da fábrica como único cenário da exploração. A fábrica continua existindo, mas seus métodos se espalharam por ruas, casas, escolas e telefones. O algoritmo não substitui a relação capitalista; ele a torna mais dispersa, opaca e individualizada. A jornada prolongada e a produtividade acelerada reaparecem como escolhas privadas, avaliações automáticas e metas aparentemente técnicas.

O problema não é a tecnologia em si, mas o poder social que decide para quem ela trabalha. Se a redução do tempo necessário produz apenas mais disponibilidade para o capital, a inovação aprofunda a alienação. Se a plataforma conhece cada movimento do trabalhador, mas o trabalhador não conhece os critérios que definem seu rendimento, a assimetria é planejada. A possibilidade de uma técnica emancipadora começa quando o tempo economizado deixa de ser propriedade da empresa e passa a ser objeto de decisão coletiva. Até lá, a fábrica sem paredes continuará funcionando: aberta o dia inteiro, instalada no bolso e administrada pela necessidade.