A mais-valia relativa e absoluta não é uma distinção encerrada nos manuais de economia política. Ela descreve duas formas articuladas de ampliar a exploração do trabalho, e ambas permanecem ativas no capitalismo brasileiro. O entregador que pedala por horas para alcançar uma renda insuficiente encarna a mais-valia absoluta; o aplicativo que reorganiza cada minuto, calcula rotas e distribui pedidos encarna a mais-valia relativa. A tecnologia não eliminou a exploração. Ela tornou possível combiná-la com uma precisão que o velho relógio da fábrica não alcançava.
Em Marx, a mais-valia é o valor produzido pelo trabalhador além daquele necessário para reproduzir sua força de trabalho e apropriado pelo capitalista. A distinção entre suas formas diz respeito ao modo como esse excedente é ampliado. Na mais-valia absoluta, aumenta-se o tempo ou a intensidade do trabalho. Na relativa, reduz-se o tempo socialmente necessário para produzir mercadorias, elevando a produtividade e fazendo com que uma parcela maior da jornada seja dedicada à produção de valor para o capital. A questão decisiva não é decorar a definição, mas perceber que a inovação capitalista quase nunca substitui uma forma pela outra: ela as sobrepõe.
Mais-valia relativa e absoluta sob o comando do algoritmo
O entregador de aplicativo oferece uma imagem concreta dessa sobreposição. Ele não recebe salário fixo, não dispõe necessariamente de proteção trabalhista regular e arca com bicicleta, motocicleta, combustível, manutenção e tempo de espera. Sua jornada começa antes da primeira entrega e termina depois da última, porque a disponibilidade para o aplicativo é parte do trabalho, ainda que não seja integralmente remunerada. Quando a plataforma reduz o valor de uma corrida ou distribui pedidos de maneira imprevisível, o trabalhador precisa ampliar o tempo conectado para tentar preservar sua renda. Essa é a velha mais-valia absoluta em uma forma digital: mais horas, mais pressão, mais desgaste.
Mas a plataforma acrescenta outra camada. O algoritmo transforma a experiência acumulada de milhares de trabalhadores em um mecanismo de coordenação instantânea. Ele decide quais corridas aparecem, sugere trajetos, estabelece metas, registra recusas e pode produzir incentivos que empurram o trabalhador a permanecer conectado. A produtividade aumenta não porque o entregador tenha conquistado controle sobre o processo, mas porque o capital passou a administrar cada movimento com dados. O tempo morto é comprimido, o intervalo se torna suspeito e a autonomia prometida pelo discurso do empreendedorismo é convertida em obediência a uma gestão sem chefe visível.
Essa é a aparência ideológica da chamada economia de plataforma. O trabalhador aparece como parceiro, usuário ou empreendedor individual, enquanto a empresa se apresenta como simples intermediária tecnológica. O vínculo de exploração é deslocado para o indivíduo: se a renda é baixa, a culpa seria da falta de esforço; se o corpo adoece, faltaria planejamento; se a motocicleta quebra, tratar-se-ia de um risco próprio do negócio. A ideologia não inventa a precariedade, mas a torna moralmente aceitável ao apresentar como escolha aquilo que resulta de uma relação desigual de propriedade e poder.
A jornada estendida dentro do trabalho produtivo
A mais-valia absoluta não depende apenas de um aumento formal das horas. Ela também aparece na intensificação do ritmo, na redução dos intervalos e na transferência de tarefas não reconhecidas para o trabalhador. O professor que prepara aulas, corrige atividades e responde a mensagens fora do horário contratado trabalha além do tempo oficialmente registrado. A professora que precisa preencher plataformas digitais, produzir relatórios e alimentar sistemas para comprovar produtividade vive uma extensão semelhante da jornada. O dispositivo tecnológico não aboliu o expediente: fez o expediente invadir a casa.
Em call centers, a exploração assume forma igualmente explícita. A atendente deve seguir scripts, cumprir metas de chamadas e administrar a agressividade dos clientes em um tempo medido continuamente. O intervalo é regulamentado, mas a pressão por produtividade faz dele um obstáculo à meta. O trabalho é reduzido a uma sequência de operações observáveis, e a subjetividade do trabalhador aparece apenas como variável a ser controlada. A empresa pode proclamar que oferece flexibilidade e oportunidades, mas o que se organiza é uma disciplina minuciosa, apoiada em métricas e ameaças de substituição.
A mais-valia relativa opera quando a produtividade permite que o capital obtenha mais mercadorias ou serviços no mesmo período. A automação, os sistemas de gestão e a inteligência artificial podem diminuir o tempo necessário para certas tarefas, mas isso não significa que o trabalhador se aproprie do tempo liberado. Sob o capitalismo, a economia de tempo pertence ao capital. Se um sistema automatiza parte do trabalho administrativo, a consequência habitual não é uma jornada menor e uma vida mais livre. É a exigência de atender mais pessoas, produzir mais relatórios ou manter o mesmo número de empregados realizando um volume maior de tarefas.
O ganho de produtividade também reorganiza a concorrência entre trabalhadores. Quem aceita mais corridas, responde mais rápido ou suporta uma carga maior é apresentado como modelo de mérito. A exceção esforçada serve para disciplinar todos os demais. O mérito, nesse contexto, não mede apenas competência: funciona como linguagem para ocultar que os resultados dependem de posição de classe, propriedade, acesso a equipamentos, proteção social e poder de negociação. A empresa transforma diferenças estruturais em virtudes individuais e converte a exploração em teste moral.
Da fábrica visível à fábrica distribuída
A fábrica clássica concentrava máquinas, trabalhadores e supervisores em um mesmo espaço. A fábrica contemporânea pode estar espalhada pelas ruas, pelas casas e pelas telas, mas continua sendo fábrica. O celular do entregador, o painel do motorista, o sistema do professor e o software do call center integram processos de produção e circulação subordinados à valorização do capital. A dispersão espacial dificulta a percepção da classe como força coletiva. Cada trabalhador parece administrar seu próprio pequeno negócio, embora as regras fundamentais sejam impostas por empresas que controlam a infraestrutura, os dados e o acesso aos clientes.
Guy Debord mostrou que o espetáculo não é apenas um conjunto de imagens, mas uma relação social mediada por imagens. A plataforma acrescenta a essa mediação uma relação social administrada por interfaces. O aplicativo exibe liberdade, conveniência e autonomia enquanto esconde a dependência material que sustenta o serviço. A mercadoria chega rapidamente à tela do consumidor porque uma cadeia de trabalhadores absorve espera, risco e desgaste. A velocidade vendida como conforto para uns é tempo intensificado para outros.
Heidegger ajuda a compreender o perigo de tratar a técnica como instrumento neutro. No capitalismo, a tecnologia tende a revelar pessoas e natureza como recursos disponíveis para cálculo e exploração. O trabalhador vira taxa de aceitação, nota, disponibilidade e desempenho; a rua vira mapa de demanda; o tempo vira unidade de extração. Não é a tecnologia em abstrato que produz essa relação, mas a forma social que decide para quem servem seus resultados. Uma plataforma sob controle dos trabalhadores poderia organizar cooperação. A plataforma capitalista organiza acumulação.
O tempo poupado que nunca retorna
O ponto central é que o capital não busca simplesmente produzir mais com menos esforço. Busca produzir mais valor apropriado privadamente. Por isso, a produtividade que poderia reduzir a jornada se converte em cobrança por disponibilidade permanente. A promessa de que a inovação libertaria o ser humano permanece bloqueada pela propriedade dos meios de produção. O tempo poupado pela máquina não volta ao trabalhador como tempo livre; retorna como meta, desemprego potencial ou aumento da intensidade do trabalho.
A crítica à mais-valia, assim, não é uma nostalgia da fábrica antiga nem uma recusa simplista da tecnologia. É uma crítica à propriedade e ao comando que definem seu uso. Enquanto aplicativos, sistemas e máquinas forem organizados para ampliar o poder de empresas sobre quem trabalha, a relativa e a absoluta continuarão se reforçando. A luta por direitos, jornada menor, vínculo trabalhista e controle coletivo da tecnologia não é um pedido para que o capital seja mais gentil. É a disputa para que o tempo social deixe de ser propriedade de quem compra a força de trabalho.
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