Quando os hospitais de Manaus ficaram sem oxigênio, em janeiro de 2021, a catástrofe já carregava uma longa cadeia de decisões políticas. Não era apenas a chegada de uma nova onda de covid-19, nem uma fatalidade tropical apresentada como se a cidade tivesse sido surpreendida por uma força da natureza. Durante meses, a gravidade da doença fora publicamente diminuída, medidas de proteção haviam sido sabotadas e medicamentos sem eficácia comprovada tinham sido promovidos como se fossem resposta suficiente. O colapso revelou o que o negacionismo produz quando deixa a tela do celular e organiza a ação do Estado: gente buscando cilindros para parentes que sufocavam, profissionais de saúde trabalhando no limite, famílias convertidas em equipes improvisadas de emergência.

É tentador tratar esse episódio como o resultado de um presidente particularmente irresponsável, de uma sucessão de frases brutais e de mentiras facilmente refutáveis. Jair Bolsonaro foi, sem dúvida, o principal porta-voz dessa maquinaria no Brasil. Mas parar nele torna o problema mais confortável do que ele é. O negacionismo encontrou força porque respondia a uma necessidade material do capitalismo em crise: manter a circulação de mercadorias, preservar a disponibilidade da força de trabalho e evitar que empresas e governos assumissem o custo de proteger quem produz, transporta, limpa, atende e entrega. A dúvida fabricada funcionou como uma ordem de trabalho sem assinatura.

A mentira que chegava junto com a escala

Para uma parte das classes médias, a disputa sobre máscara, vacina ou isolamento apareceu como discussão doméstica, travada em grupos de família e programas de televisão. Para quem dependia do salário daquela semana, ela tinha outra forma. O entregador de aplicativo não podia simplesmente “escolher” ficar em casa enquanto restaurantes, condomínios e consumidores continuavam demandando entrega. A atendente de call center recebia metas, monitoramento e a pressão silenciosa da fila de chamadas. A trabalhadora da limpeza entrava em prédios onde a circulação permanecia ativa. O professor, entre a suspensão desorganizada das aulas presenciais e a imposição de plataformas digitais, via seu trabalho se estender para dentro de casa sem que isso significasse segurança.

Em todos esses casos, a retórica de que a doença era exagerada ajudava a retirar do empregador e do poder público a obrigação de prevenir. Se o risco é “histeria”, quem pede afastamento parece privilegiado. Se a morte é inevitável, a falta de equipamento, de transporte seguro, de renda e de atendimento deixa de ser responsabilidade política. Se cada um é apresentado como empresário de si mesmo, adoecer passa a ser falha de prudência individual, e não consequência de uma organização social que distribui perigos conforme a classe, a raça, o território e o vínculo de trabalho.

Marx descreveu a separação entre o trabalhador e as condições de sua própria existência como núcleo da alienação. Na pandemia, essa separação ganhou uma crueldade direta. Muitos precisaram escolher entre cumprir uma jornada que podia contaminá-los ou perder a renda que sustentava a casa. O discurso oficial chamava isso de liberdade. Mas liberdade sem renda, sem proteção e sem poder de decidir sobre o processo de trabalho é apenas o nome ideológico da coerção. O trabalhador que não podia recusar uma corrida, uma escala ou uma chamada não estava exercendo autonomia; estava submetido à necessidade, enquanto a política negacionista tornava essa necessidade ainda mais perigosa.

O espetáculo da controvérsia contra a experiência dos corpos

O negacionismo não precisava convencer toda a população de que o vírus não existia. Bastava produzir confusão suficiente para impedir uma resposta coletiva. Uma declaração presidencial, um vídeo editado, uma corrente sobre tratamentos milagrosos e uma falsa equivalência entre especialistas e charlatães podiam fazer parecer que nada estava estabelecido. Debord ajuda a compreender esse mecanismo: no espetáculo, a realidade social é substituída por uma circulação de imagens que não apenas representa o mundo, mas passa a comandar a maneira como ele é percebido. A pergunta deixa de ser quais condições protegem vidas e se torna qual vídeo parece mais persuasivo, qual fala provoca mais indignação, qual autoridade confirma a crença anterior.

Essa dinâmica é especialmente eficiente nas plataformas digitais. Seus sistemas de recomendação não foram desenhados para formar juízo crítico, mas para prolongar atenção, capturar dados e vender publicidade. A indignação, o medo e a certeza conspiratória circulam melhor do que a explicação paciente. Isso não significa que a tecnologia tenha vontade própria ou que uma máquina seja a autora do bolsonarismo. Significa que a infraestrutura privada da comunicação oferece uma forma técnica adequada à mercantilização do ressentimento. Como advertia Heidegger, a técnica moderna tende a enquadrar o mundo como reserva disponível; nas plataformas, a experiência humana aparece como estoque de cliques, reações e perfis manipuláveis.

O corpo de quem trabalhava, porém, não vivia numa controvérsia abstrata. Ele chegava cansado ao posto de saúde, carregava o medo de transmitir a doença aos mais velhos da família, via colegas desaparecerem da escala, calculava o preço do teste e a possibilidade de perder o emprego. A propaganda negacionista exigia que essa experiência concreta fosse desmentida em nome de uma narrativa política. Era preciso dizer que o trabalhador não estava exposto, que o hospital não estava em colapso, que a proteção era tirania, que a vacina era ameaça. Quanto mais visível a realidade, maior precisava ser a violência da mentira.

Por que a mentira autoritária precisa de plateia

O bolsonarismo não inventou a exploração brasileira, mas soube dar a ela uma linguagem de guerra cultural. Em vez de reconhecer que a pandemia exigia renda, coordenação estatal, fortalecimento do sistema público de saúde e restrições capazes de preservar vidas, deslocou a raiva para inimigos convenientes: governadores, professores, jornalistas, cientistas, artistas, servidores e qualquer um que recusasse a encenação da normalidade. A morte deixava de ser acusação contra os que governavam e se convertia em munição para a polarização.

Há aí uma operação típica do fascismo: a frustração social não é dirigida contra as relações que produzem insegurança, mas contra grupos tornados culpados pela desordem. Le Bon observou que as multidões podem ser mobilizadas menos por demonstrações racionais do que por imagens repetidas, afirmações categóricas e contágio afetivo. A extrema direita digital atualiza esse procedimento com velocidade, segmentação e uma aparência enganosa de espontaneidade. Não se trata de uma massa hipnotizada e passiva; trata-se de pessoas reais, frequentemente feridas pela precarização, convocadas a encontrar dignidade numa identidade agressiva que as afasta de seus próprios interesses materiais.

O negacionismo, nesse sentido, é uma pedagogia da impotência. Ele ensina o trabalhador a desconfiar da ciência pública, mas a confiar na empresa que o mantém exposto; a odiar a medida sanitária, mas não a ausência de salário para atravessá-la; a suspeitar de toda instituição, exceto das hierarquias econômicas que decidem sua jornada. Alysson Mascaro insiste que o Estado não está fora das relações capitalistas como árbitro puro. A sabotagem da proteção coletiva não foi simples omissão estatal: foi uma forma de atuação coerente com interesses que preferiram administrar a crise sem tocar na propriedade, no lucro e na disciplina do trabalho.

Depois de Manaus, a pergunta não pode ser apenas quem acreditou

Reconhecer o funcionamento do negacionismo muda a pergunta que fazemos diante da próxima mentira organizada. Não basta indagar por que alguém compartilhou uma falsidade ou imaginar que uma checagem isolada resolverá a engrenagem. É preciso perguntar quem ganha quando a população duvida do que vê, quem é obrigado a continuar trabalhando enquanto a dúvida se espalha e qual responsabilidade está sendo apagada pela palavra “opinião”. A mentira autoritária prospera quando transforma direitos coletivos em caprichos e proteção pública em inimiga da liberdade.

Para o leitor que trabalha, enxergar isso pode retirar uma culpa indevida. O medo de adoecer, a recusa de uma condição insegura e a exigência de políticas públicas não são fragilidades individuais nem sinais de submissão a uma elite imaginária. São pontos de partida para reconstruir solidariedade onde o capitalismo e o bolsonarismo quiseram produzir isolamento. A resposta ao negacionismo não é apenas informação correta, embora ela seja indispensável. É organização capaz de dizer que nenhuma corrida entregue, nenhuma meta batida e nenhum lucro empresarial valem uma vida tratada como descartável.