Neoliberalismo significado não se esgota na fórmula escolar de “menos Estado e mais mercado”. A fórmula é conveniente porque esconde a operação material que o termo designa: uma reorganização do Estado para garantir que a vida social seja submetida à concorrência, à propriedade privada e à rentabilidade do capital. Não se trata, como repetem seus defensores, de o poder público simplesmente sair de cena. Trata-se de fazê-lo atuar seletivamente: retirando proteção de quem trabalha, privatizando serviços e patrimônios coletivos, disciplinando sindicatos e assegurando, por leis, contratos, polícia, juros e resgates, as condições de acumulação. O mercado livre do neoliberalismo é uma construção política; sua liberdade costuma ser a liberdade empresarial de reduzir custos, e o principal custo a reduzir é o trabalhador.
A palavra ganhou circulação para nomear uma reação histórica às conquistas sociais arrancadas pela classe trabalhadora ao longo do século XX. Previdência, saúde pública, educação, direitos trabalhistas, regulação de preços e empresas estatais não eram generosidades espontâneas: eram limites, ainda que parciais e contraditórios, à devastação capitalista. A ofensiva neoliberal apresenta esses limites como privilégios, desperdício ou atraso. Assim, desloca a discussão. Em vez de perguntar por que a riqueza socialmente produzida se concentra em poucas mãos, pergunta se o posto de saúde é eficiente; em vez de enfrentar o poder dos bancos e das grandes corporações, acusa o salário, a aposentadoria e o serviço público de pesarem demais.
O neoliberalismo significado além do slogan econômico
Chamar algo de neoliberal não é xingamento vazio nem sinônimo de qualquer medida impopular. É identificar uma racionalidade: tudo deve ser avaliado como investimento, desempenho, risco e resultado individual. A escola é pressionada a produzir indicadores; o hospital, metas; a universidade, patentes e “empregabilidade”; a cidade, oportunidades de negócio; a pessoa, uma marca que precisa se valorizar sem descanso. O valor de uso das coisas — aquilo que elas efetivamente oferecem à vida — é rebaixado diante de seu valor de troca e de sua capacidade de gerar retorno. Marx mostrou que, no capitalismo, a riqueza aparece como uma imensa acumulação de mercadorias. O neoliberalismo radicaliza essa aparência ao estender a forma mercadoria para dimensões antes tratadas, ao menos em parte, como direitos, deveres públicos ou vínculos sociais.
É por isso que “Estado mínimo” é uma expressão enganosa. O Estado não desaparece quando entrega um serviço à iniciativa privada; ele escolhe financiar, contratar, regular e proteger um negócio. Também não se torna mínimo quando endurece a repressão sobre pobres, remove populações para obras valorizadoras ou cria normas que facilitam terceirização e enfraquecem a negociação coletiva. Na tradição marxista, o Estado não paira acima das classes como árbitro neutro. Ele condensa relações de força e ajuda a reproduzir uma ordem baseada na exploração. Como insiste Alysson Mascaro ao pensar a forma política e jurídica capitalista, direito e Estado não são simples ferramentas externas que poderiam ser usadas sem tensão contra o capital: participam das formas sociais que tornam a reprodução capitalista possível. Isso não elimina a luta por direitos; esclarece por que direitos conquistados são permanentemente atacados e por que sua defesa exige conflito político.
A liberdade do aplicativo e a disciplina da fome
No Brasil, o entregador de aplicativo oferece uma cena precisa desse significado. A empresa se apresenta como plataforma tecnológica, não como empregadora. Ela fala em parceiro, autonomia e flexibilidade. Mas define a arquitetura na qual a suposta autonomia ocorre: distribui chamadas, altera remunerações, estabelece prioridades opacas, bloqueia contas e induz jornadas extensas por meio de incentivos e avaliações. O trabalhador arca com bicicleta ou moto, combustível, manutenção, celular, internet, acidente e tempo ocioso. A empresa conserva a capacidade de comandar sem assumir plenamente o custo do vínculo.
A liberdade prometida é a de escolher entre trabalhar muitas horas ou não pagar as contas. A expressão “seja seu próprio chefe” converte desproteção em virtude moral. Se o rendimento não basta, a falha parece residir na estratégia individual, na falta de disposição, na nota baixa ou na incapacidade de empreender. Desaparece da cena a assimetria entre uma corporação que controla dados, acesso ao mercado e regras do jogo e um trabalhador que depende do próximo pedido. A alienação, aqui, não é apenas a distância entre quem produz e o produto de seu trabalho. É também a separação entre o trabalhador e o comando real que organiza sua jornada, escondido na tela e apresentado como algoritmo impessoal.
O mesmo processo atravessa o call center, onde metas, scripts e monitoramento transformam a fala em unidade mensurável de produtividade; atravessa o professor pressionado a preencher plataformas, cumprir indicadores e compensar com trabalho invisível a falta de estrutura; atravessa a trabalhadora terceirizada que muda de empresa sem mudar de posto, mas perde estabilidade e referência coletiva. A precarização não é acidente de uma modernização mal administrada. Ela é uma forma de elevar a disponibilidade da força de trabalho, fragmentar sua capacidade de resistência e transferir riscos para quem já possui menos recursos.
Meritocracia como polícia da subjetividade
O neoliberalismo não governa somente por contratos e cortes orçamentários. Ele precisa produzir uma subjetividade adequada ao seu mundo. A meritocracia cumpre essa função ao transformar desigualdades estruturais em biografias individuais. Quem tem patrimônio, rede de contatos, tempo para estudar, acesso a saúde e proteção familiar passa a aparecer como vencedor exclusivamente por esforço. Quem enfrenta desemprego, transporte precário, racismo, trabalho informal e escola sucateada é convocado a explicar sua própria posição como insuficiência pessoal.
Essa operação ideológica é poderosa porque contém uma parcela banal de verdade: pessoas fazem escolhas e se esforçam. O salto fraudulento está em tomar essa evidência como explicação total de resultados produzidos numa sociedade de classes. Não se nega a ação individual; nega-se que ela ocorra num terreno igual. A meritocracia torna moralmente aceitável aquilo que deveria ser politicamente intolerável: milhões disputando ocupações escassas enquanto a propriedade e a riqueza seguem concentradas. O desempregado é convertido em “inempregável”; o assalariado exausto, em alguém que não soube administrar o próprio tempo; o pobre endividado, em consumidor irresponsável.
Debord ajuda a compreender outra camada dessa dominação. Na sociedade do espetáculo, relações sociais aparecem mediadas por imagens e representações que ganham autonomia. O empreendedor de sucesso, exibido em vídeos curtos, cursos e publicidades, funciona como imagem disciplinadora. Sua trajetória simplificada apaga heranças, crédito, equipes, fracassos e a massa de trabalho alheio que sustenta qualquer enriquecimento. Em seu lugar, sobra uma fábula individual: bastaria querer, aprender a vender e nunca desistir. O espetáculo não é mera distração; ele oferece uma linguagem para que a exploração seja percebida como oportunidade.
Privatizar o comum, administrar o desamparo
Quando o neoliberalismo corta orçamento, desmonta políticas públicas ou subordina serviços a metas empresariais, não produz apenas uma mudança administrativa. Ele redefine quem pode viver com segurança. Saúde, transporte, moradia, educação e previdência deixam de ser campos de responsabilidade coletiva e passam a ser problemas privados, resolvidos por compra, endividamento ou caridade. Quem pode paga plano; quem não pode espera. Quem possui renda contrata escola, segurança e mobilidade; quem não possui administra a precariedade. A desigualdade deixa de ser um efeito lamentável e passa a ser o mecanismo que separa mercados, territórios e destinos.
No Brasil, essa racionalidade encontra uma sociedade formada pela escravidão, pelo latifúndio, pelo racismo estrutural e por desigualdades regionais profundas. Por isso, a retórica neoliberal de igualdade de oportunidades é especialmente cínica. Ela pede competição entre pessoas cuja posição de partida foi organizada por séculos de expropriação. E encontra afinidade com o bolsonarismo quando a crueldade social é revestida de moralismo: direitos viram privilégios, servidores viram inimigos, pobres viram suspeitos e organizações coletivas viram obstáculos à ordem. O fascismo não é idêntico ao neoliberalismo, mas pode se articular a ele quando a destruição de proteções sociais exige inimigos internos, medo e violência para ser sustentada.
Compreender o neoliberalismo, então, é recusar a imagem de uma técnica inevitável para gerir recursos escassos. Trata-se de um projeto de classe, historicamente construído, que naturaliza a concorrência e transforma a sobrevivência em prova de mérito. Sua crítica não pede a volta idealizada a um passado estatal nem se satisfaz com um capitalismo mais gentil. Ela parte da experiência concreta de quem produz a riqueza social e não controla as condições de sua produção. Onde o neoliberalismo vê indivíduos isolados calculando interesses, a política emancipatória precisa reconstruir a evidência de que trabalho, cuidado, conhecimento e infraestrutura são obras coletivas — e que aquilo que é produzido coletivamente não deveria servir à acumulação privada de poucos.
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