A definição de fascismo que cabe num verbete costuma começar por uma lista: nacionalismo exacerbado, culto ao líder, violência, anticomunismo, militarismo. Nada disso é falso. O problema é que a lista, quando separada da luta de classes, transforma o fascismo numa espécie de desvio moral produzido por líderes monstruosos e seguidores ignorantes. Assim se perde o essencial: o fascismo não é apenas uma opinião brutal nem um xingamento para qualquer governo de direita. É uma forma de mobilização política de massas que emerge quando a ordem capitalista precisa esmagar organizações populares, converter frustração social em ódio e preservar a dominação de classe sob a aparência de uma revolta contra “o sistema”.

Esse recorte é necessário no Brasil porque o bolsonarismo ensinou, com consequências concretas, que a extrema direita não depende de uniformes idênticos aos do entreguerras para produzir efeitos fascistizantes. Ela pode falar pela tela do celular, pela transmissão ao vivo, pelo grupo de família e pelo púlpito; pode usar a linguagem do empreendedorismo e da liberdade individual; pode se apresentar como insurgência enquanto defende policiais assassinos, patrões sem limites, armas circulando e uma hierarquia social rígida. A pergunta decisiva não é se cada apoiador de Jair Bolsonaro reproduzia um manual histórico do fascismo italiano. É saber que forças sociais foram organizadas, contra quem foram dirigidas e que tipo de poder se tentou construir.

A definição de fascismo começa pela função de classe

O fascismo histórico foi uma resposta violenta à crise social e ao medo das classes proprietárias diante da organização dos trabalhadores. Não foi uma marionete simples dos empresários, como se estes controlassem cada gesto da multidão, mas tampouco foi uma revolta popular autônoma contra as elites. Sua força veio justamente da capacidade de reunir setores médios ameaçados, parcelas desorganizadas da classe trabalhadora, aparatos armados e frações do capital em torno de uma promessa de restauração nacional. O inimigo era fabricado como causa da desordem: comunistas, sindicatos, migrantes, minorias, intelectuais, qualquer grupo capaz de encarnar a ameaça à unidade imaginária da nação.

Marx mostrou, ao analisar a política francesa do século XIX, que o Estado não paira acima das classes como árbitro puro. Ele condensa conflitos, organiza a reprodução da ordem social e pode adquirir aparência de autonomia quando as forças em disputa se bloqueiam. O fascismo leva essa operação a uma temperatura extrema: substitui a mediação democrática pela disciplina, pela perseguição e pela fantasia de uma comunidade nacional sem conflito. A classe continua existindo, mas é proibida de aparecer como classe. O trabalhador deve deixar de reconhecer sua exploração e passar a se reconhecer como brasileiro de bem, homem de família, pequeno empreendedor ou soldado numa guerra cultural.

É por isso que a definição crítica não pode tratar o fascismo apenas como autoritarismo. Ditaduras podem ser burocráticas, militares, oligárquicas, sem mobilização permanente de massas. O fascismo precisa de adesão ativa, de excitação coletiva, de inimigos visíveis e de uma liderança que se apresente como expressão imediata do povo. Sua violência não é acidente posterior; é linguagem política. Ela testa limites, humilha adversários, naturaliza a eliminação e oferece aos frustrados uma compensação imaginária: não terão mais poder sobre seu salário ou sua jornada, mas poderão sentir poder sobre alguém mais vulnerável.

O bolsonarismo traduziu a crise em guerra contra inimigos internos

No Brasil, essa maquinaria encontrou terreno numa sociedade marcada por desigualdade brutal, trabalho precário e desmonte de horizontes coletivos. O entregador de aplicativo que trabalha sob a lógica opaca da plataforma, sem salário garantido e sem controle sobre a própria jornada, recebe diariamente a mensagem de que é empreendedor. O operador de call center, submetido a metas, vigilância e pausas cronometradas, é treinado a tratar a exaustão como falha pessoal. O professor que vê sua escola atacada e seu trabalho desvalorizado é convertido em suspeito por supostamente doutrinar estudantes. Em vez de nomear as empresas, as políticas econômicas e as estruturas que produzem esse sofrimento, a extrema direita oferece alvos mais fáceis: a esquerda, as universidades, mulheres, pessoas LGBTQIA+, indígenas, negros, artistas, servidores públicos.

Essa inversão é ideológica no sentido forte. Ideologia não é simplesmente mentira que uma pessoa esclarecida poderia descartar; é uma forma de viver e interpretar relações reais de dominação. Quando o trabalhador precarizado culpa outro trabalhador pelo próprio rebaixamento, a mentira ganha corpo material. Quando a meritocracia apresenta sobrevivência como vitória empresarial, a exploração aparece como escolha. O bolsonarismo soube colonizar essa subjetividade: transformou ressentimento legítimo, nascido da insegurança social, em autorização para odiar os de baixo e obedecer aos de cima.

O ataque às instituições democráticas, culminando na invasão e depredação das sedes dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023, não foi um raio em céu aberto nem uma excentricidade de poucos indivíduos. Foi o ponto visível de anos de deslegitimação eleitoral, culto à força, difusão de fantasias conspiratórias e estímulo à ideia de que somente um líder encarnaria o povo verdadeiro. A derrota nas urnas não poderia ser reconhecida porque, para essa lógica, o adversário não é um concorrente político: é um invasor, um inimigo interno, uma ameaça existencial. A democracia deixa de ser o terreno imperfeito de disputa e passa a ser tolerada apenas enquanto confirma o resultado desejado.

Chamar de fascistizante uma prática não dispensa rigor histórico; exige observar como ela mobiliza massas, produz inimigos e prepara a destruição de direitos em nome da ordem.

A multidão não elimina a responsabilidade de quem a organiza

Gustave Le Bon percebeu que as multidões podem ser movidas por imagens, afetos e sugestões mais rapidamente do que por deliberação racional. Mas sua psicologia das multidões se torna insuficiente quando esquece quem produz as imagens, quem controla os meios de circulação e quais interesses encontram nelas uma oportunidade política. Na era das plataformas, a multidão não se reúne somente na praça: ela é modulada por vídeos curtos, disparos em redes privadas, influenciadores, canais de monetização e campanhas que transformam indignação em tráfego. A técnica não cria por si mesma o fascismo, mas oferece uma infraestrutura eficiente para repetir medo, isolar indivíduos e recompensar a agressividade.

Debord escreveu que, na sociedade do espetáculo, a relação social entre pessoas é mediada por imagens. O bolsonarismo compreendeu essa mediação como poucos movimentos políticos brasileiros. A figura do líder não precisava demonstrar coerência; precisava ocupar a cena, fabricar escândalos, converter cada crítica em prova de perseguição e fazer de seus seguidores distribuidores voluntários do espetáculo. A contradição entre defender “liberdade” e pedir intervenção autoritária não é uma falha que o espetáculo precise resolver. Ela é administrada pela intensidade afetiva: pertencer ao grupo vale mais do que entender o programa.

Isso tampouco significa que todo uso de redes sociais ou toda manifestação conservadora seja fascismo. A inflação do termo ajuda a direita a posar de vítima e empobrece a análise. Há governos reacionários, neoliberais e autoritários que não constituem automaticamente regimes fascistas; há eleitores que aderem à direita por razões contraditórias, sem integrar uma milícia política. Mas a cautela conceitual não pode virar uma desculpa para ignorar sinais claros: a glorificação da violência estatal, o desejo de eliminar opositores, a hostilidade organizada à imprensa e à ciência, o ataque a eleições e a promessa de redenção nacional por um chefe.

Combater o fascismo exige retirar sua matéria-prima social

O antifascismo não se reduz à defesa abstrata das instituições, embora defendê-las contra golpes seja indispensável. Como insiste a crítica marxista do Estado, inclusive em formulações de Alysson Mascaro, a forma política capitalista tem limites estruturais: ela preserva uma sociedade baseada na exploração e na separação entre quem produz e quem decide. Quando a democracia liberal administra precarização, austeridade e abandono, deixa aberta a porta para que a extrema direita apresente a destruição como cura. Não porque democracia e fascismo sejam equivalentes, mas porque uma democracia sem transformação material pode se tornar incapaz de responder à crise que alimenta seus inimigos.

Enfrentar o fascismo brasileiro significa reconstruir organização no local de trabalho, sindicatos capazes de alcançar os precarizados, associações de bairro, educação pública, imprensa independente e políticas que retirem da insegurança seu poder de recrutamento. Significa também recusar a fantasia de que o algoritmo, a polícia ou um grande líder resolverão aquilo que só a ação coletiva pode resolver. O entregador não precisa ser convertido em empreendedor patriota; precisa de direitos, renda, tempo e poder para decidir sobre as condições em que trabalha. A definição de fascismo ganha sentido político quando nos permite ver que a barbárie não vem de fora da sociedade: ela é produzida nas fraturas que o capitalismo abre e que a extrema direita aprende a explorar.