A praxis social não é simplesmente agir, nem aplicar na realidade uma teoria previamente pronta. No sentido marxista, ela designa a atividade humana consciente e coletiva que transforma simultaneamente o mundo e os próprios sujeitos que o transformam. Essa definição colide com a ideologia contemporânea do empreendedorismo, para a qual toda ação deve ser reduzida a iniciativa pessoal, investimento em si mesmo e capacidade de adaptação. O entregador que pedala doze horas, o professor submetido a metas e o trabalhador de call center monitorado por algoritmos aparecem como indivíduos livres em movimento, embora suas possibilidades sejam moldadas por relações que não controlam.
O problema político da praxis, hoje, está justamente aí: o capitalismo captura a capacidade humana de agir em comum e a devolve como desempenho individual. A cooperação, que é condição concreta de qualquer trabalho social, aparece como concorrência entre pessoas isoladas. A transformação coletiva da realidade é substituída pela administração privada da sobrevivência. Não basta, então, elogiar a ação ou convocar uma mudança abstrata de consciência. É preciso perguntar quem define os fins da ação, quem se apropria de seus resultados e quais relações sociais ela reproduz.
Praxis social contra o empreendedorismo de si
O discurso meritocrático apresenta a vida como uma sequência de decisões pessoais. Se alguém prospera, seria porque se esforçou; se fracassa, porque não se qualificou o suficiente, não teve disciplina ou não soube aproveitar as oportunidades. Essa narrativa apaga a estrutura que distribui desigualmente tempo, renda, educação, segurança e poder de decisão. Ela também transforma a exploração em teste moral: a jornada exaustiva deixa de ser uma imposição econômica e passa a ser prova de ambição.
O trabalhador de aplicativo condensa essa contradição. Ele não recebe, em geral, uma ordem direta de um chefe situado ao seu lado, mas obedece a uma arquitetura técnica que define preços, trajetos, avaliações, bloqueios e prioridades. O algoritmo não elimina o comando; torna-o menos visível. A plataforma se apresenta como intermediária neutra entre consumidores e prestadores, enquanto organiza o processo de trabalho e desloca para o trabalhador os custos da bicicleta, da motocicleta, da manutenção, da espera e do risco de acidente.
Quando esse trabalhador aceita uma corrida ruim porque precisa pagar as contas, sua decisão é formalmente individual. Materialmente, porém, ela está inscrita numa relação social. A escolha não nasce de uma liberdade abstrata, mas da dependência em relação à renda e da ausência de alternativas protegidas. Chamar essa condição de empreendedorismo é uma operação ideológica: transforma a vulnerabilidade em atributo empresarial e impede que o problema seja formulado como conflito entre trabalho e capital.
A alienação não consiste apenas em não reconhecer o produto do próprio trabalho. Ela aparece também quando o trabalhador não controla o processo, os instrumentos nem a finalidade de sua atividade. No aplicativo, a ferramenta de trabalho é apresentada como plataforma de autonomia, mas as regras decisivas permanecem opacas e concentradas na empresa. O trabalhador administra sua rotina sem governar as condições que determinam o valor de seu tempo. Ele é livre para escolher entre diferentes formas de precariedade.
Da experiência isolada à organização coletiva
A praxis começa quando a experiência individual deixa de ser interpretada como culpa privada e passa a ser compreendida como expressão de uma relação social. O entregador que percebe que sua baixa remuneração não resulta de incompetência, mas de um modelo de negócio, dá um passo importante. Mas essa percepção, sozinha, ainda não transforma a realidade. Ela precisa encontrar linguagem, organização e ação comum.
Foi esse deslocamento que apareceu nas mobilizações conhecidas como breque dos apps. Trabalhadores que normalmente são separados pela disputa por corridas puderam reconhecer uma condição compartilhada: remuneração insuficiente, insegurança, ausência de proteção e poder unilateral das plataformas. A paralisação interrompeu, ainda que provisoriamente, a fantasia de que cada entregador é uma empresa independente. Quando muitos deixam de trabalhar ao mesmo tempo, a dependência se revela pelo avesso: a plataforma só funciona porque reúne, coordena e extrai valor de uma força de trabalho que procura apresentar como dispersa.
A ação coletiva não é um suplemento moral acrescentado ao trabalho. Ela revela a verdade material do trabalho capitalista: nenhuma mercadoria chega ao consumidor por esforço isolado. Há uma rede de infraestrutura, programação, logística, atendimento, produção e cuidado que sustenta cada operação. O capital fragmenta essa rede para negociar com indivíduos separados, mas a interdependência permanece. A organização pode tornar visível aquilo que o contrato e a interface tentam esconder.
Isso não significa romantizar qualquer mobilização. Protestos podem ser absorvidos como campanha de imagem, reivindicações podem ser convertidas em ajustes mínimos e lideranças podem ser cooptadas. A praxis exige mais do que expressar indignação: exige construir capacidade duradoura de decisão e disputar as instituições que organizam a vida social. Seu critério não é a intensidade emocional de um ato, mas sua capacidade de alterar relações de poder.
O trabalho docente e a fabricação da impotência
A escola oferece outro campo decisivo para compreender esse conflito. O professor submetido a plataformas educacionais, metas de desempenho e avaliações padronizadas é frequentemente responsabilizado pelo resultado de processos que ultrapassam a sala de aula. A desigualdade material dos estudantes, a precariedade das condições escolares e a insuficiência das políticas públicas desaparecem atrás de indicadores que procuram medir o indivíduo.
Nesse ambiente, a prática pedagógica corre o risco de ser reduzida à execução de protocolos. O professor deixa de participar da definição dos fins da educação e passa a cumprir tarefas mensuráveis, registrar evidências e responder a metas. O estudante, por sua vez, é treinado para acumular competências vendáveis, como se a escola devesse funcionar como departamento de recursos humanos do mercado. O conhecimento perde sua dimensão crítica e é convertido em capital pessoal.
A praxis pedagógica se opõe a essa redução porque envolve compreender a sociedade e agir sobre ela. Ensinar não é apenas transmitir conteúdos nem adaptar jovens a um mundo supostamente inevitável. É criar condições para que a experiência social seja interpretada, disputada e transformada. Quando professores e estudantes relacionam a dificuldade individual às estruturas de classe, raça, gênero e território, a educação deixa de funcionar como máquina de culpabilização. Ela pode se tornar espaço de elaboração coletiva.
Essa possibilidade não depende da heroicidade de um professor isolado. Ao contrário, ela requer tempo de planejamento, liberdade intelectual, salário digno, participação da comunidade e políticas que não tratem a escola como fábrica de resultados. A praxis não floresce onde todos são obrigados a improvisar permanentemente para compensar a falta de condições. A precarização destrói justamente os meios materiais da ação consciente.
Quando a tecnologia administra a ação
A tecnologia não é uma força exterior que paira acima das relações sociais. Ela incorpora decisões sobre propriedade, finalidade, vigilância e distribuição do tempo. Um sistema de gestão que mede produtividade pode ser apresentado como instrumento neutro, mas sua neutralidade desaparece quando serve para intensificar o ritmo, punir pausas e impedir a negociação coletiva. O problema não está em uma máquina abstrata; está no poder social que decide como ela será usada e quem poderá contestá-la.
Guy Debord mostrou que, na sociedade do espetáculo, as relações entre pessoas são mediadas por imagens e aparências de participação. A plataforma atualiza essa lógica ao transformar cada atividade em perfil, avaliação, pontuação e visibilidade. O trabalhador é levado a administrar sua imagem enquanto perde controle sobre o processo real. A aparência de autonomia substitui a autonomia efetiva. A pessoa pode escolher a foto, o horário e a rota, mas não define o preço do trabalho nem a destinação do valor produzido.
É nesse ponto que a praxis se distingue da performance. A performance busca reconhecimento dentro das regras existentes; a praxis interroga as regras e organiza sujeitos capazes de modificá-las. A primeira pode ser premiada pelo próprio sistema, pois converte crítica em conteúdo, indignação em engajamento e identidade em mercadoria. A segunda cria um problema para o sistema porque desloca o indivíduo da posição de consumidor ou prestador avaliado para a de sujeito coletivo.
A saída não está em rejeitar toda tecnologia, como se a técnica fosse responsável pela exploração, nem em celebrá-la como solução automática para conflitos sociais. Está em disputar sua propriedade, seu desenho e seu uso. Uma plataforma controlada por trabalhadores, regras transparentes, proteção social e participação efetiva nas decisões não reproduziria necessariamente a mesma relação de poder de uma empresa que monopoliza dados e impõe tarifas. A questão decisiva é quem governa a técnica.
A praxis social começa onde a impotência deixa de ser tomada como destino pessoal. Ela se realiza quando trabalhadores reconhecem que aquilo que vivem como fracasso privado tem causas comuns e pode produzir organização comum. No capitalismo, agir coletivamente é difícil porque a concorrência invade o tempo, a linguagem e até a imagem que cada um faz de si. Ainda assim, a cooperação não desaparece: ela é a condição que o capital tenta apropriar-se sem reconhecer.
Transformar essa cooperação em poder consciente é uma tarefa política. Não há aplicativo capaz de fazê-la por nós, nem curso de produtividade que substitua a organização. A vida social só deixa de ser administrada por forças estranhas quando aqueles que a produzem começam a decidir sobre seus meios, seus fins e seus resultados.
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