O que é fascismo não se responde adequadamente com uma lista de símbolos, uniformes, gestos ou referências históricas isoladas. Essa resposta escolar tem sua utilidade, mas também seu limite: ela permite reconhecer o fascismo apenas quando ele já chegou vestido como caricatura de si mesmo. No capitalismo contemporâneo, especialmente na periferia brasileira, ele pode dispensar a camisa parda e a marcha militar. Basta-lhe operar uma combinação muito mais ordinária: trabalho inseguro, horizonte social rebaixado, medo da desordem e uma máquina política que oferece inimigos no lugar das causas reais do sofrimento.
Fascismo é uma forma de política de crise. Ele aparece quando as contradições do capitalismo deixam de poder ser administradas apenas por promessas de ascensão individual, consumo e conciliação institucional. Em vez de tocar na propriedade, na concentração de renda e no poder empresarial que produzem a vida precária, ele desloca a raiva para alvos mais vulneráveis: pobres, negros, indígenas, imigrantes, mulheres, pessoas LGBTQIA+, militantes de esquerda, professores, artistas, sindicatos e movimentos sociais. A exploração permanece; o explorado é convidado a vigiar, punir e odiar outro explorado.
Não se trata de dizer que todo conservador é fascista, nem de reduzir o fascismo a uma opinião desagradável. Trata-se de reconhecer uma dinâmica concreta: a mobilização de massas contra a igualdade, sob uma liderança que se apresenta como voz direta do povo; o desprezo pela mediação democrática; a glorificação da força; a conversão da mentira em arma política; e a promessa de restaurar uma ordem imaginária pela eliminação simbólica ou material de quem é transformado em ameaça. O fascismo não suspende necessariamente a democracia de um dia para o outro. Ele pode corroê-la por dentro, ensinando parcelas da população a desejar sua própria redução a um rebanho obediente.
O que é fascismo para quem trabalha sem garantia
O caso brasileiro exige começar pelo trabalho, porque é ali que a retórica fascista encontra uma ferida aberta. O entregador de aplicativo que pedala sob chuva, arca com bicicleta, celular e manutenção, recebe por tarefa e pode ser bloqueado por um algoritmo não vive uma experiência de liberdade empreendedora. Vive uma relação de subordinação sem os direitos que antes identificavam claramente o assalariamento. O motorista, o trabalhador de call center submetido a metas inatingíveis e o professor transformado em alvo de suspeita também conhecem essa realidade: exigência crescente, autonomia reduzida e culpabilização individual pelo fracasso.
Marx chamou de alienação o processo pelo qual o trabalhador se separa do produto de seu trabalho, do controle sobre sua atividade, de sua potência coletiva e, por fim, dos outros trabalhadores. A uberização aprofunda esse processo ao apresentar a exploração como escolha pessoal. Se a renda não basta, faltou esforço; se a plataforma corta o acesso, faltou avaliação; se o corpo adoece, faltou gestão de si. A ideologia do empreendedorismo converte um conflito entre classes em defeito moral de cada indivíduo.
É nesse terreno que a extrema direita cresce. Ela não inventa o desamparo, mas lhe atribui uma explicação fraudulenta. O problema deixa de ser uma empresa que extrai valor sem garantir direitos, um Estado estruturado para preservar a propriedade e uma economia organizada pela desigualdade. Passa a ser o suposto privilégio de quem recebe proteção social, a universidade pública, o sindicato, o servidor, o artista financiado, a mulher que reivindica autonomia ou o jovem negro cuja vida deixa de ser aceita como descartável. A revolta contra o patrão é desviada para a hostilidade contra o vizinho.
Bolsonarismo e a pedagogia fascista da crueldade
O bolsonarismo foi, no Brasil, uma experiência decisiva dessa pedagogia. Sua importância não está apenas nas declarações de Jair Bolsonaro, embora elas tenham sido relevantes como autorização pública para o racismo, a misoginia, a violência policial e o desprezo pelos mortos. Está na operação política mais ampla que transformou brutalidade em sinceridade e ignorância em autenticidade. Quando a violência é exibida como coragem, a compaixão passa a parecer fraqueza; quando o adversário é retratado como inimigo absoluto, o debate político parece uma concessão intolerável.
Essa linguagem encontrou circulação privilegiada nas plataformas digitais. A sociedade do espetáculo, formulada por Guy Debord, não é simplesmente uma sociedade cheia de imagens. É uma sociedade em que as relações sociais são mediadas por imagens e em que a aparência organizada pelo poder toma o lugar da experiência compartilhada. Nas redes, o trabalhador exausto recebe fragmentos de indignação prontos para consumo: um vídeo curto, um escândalo fabricado, uma ameaça moral, um inimigo identificável. A complexidade da vida social é substituída pela excitação de pertencer a uma multidão que acredita agir enquanto repete comandos.
Gustave Le Bon, apesar de seus limites e de seu elitismo, percebeu que a multidão pode ser conduzida por imagens simples, afetos intensos e repetição. O fascismo aprendeu essa lição como técnica de governo. A diferença contemporânea é que a multidão não precisa ocupar a praça para ser mobilizada: ela é produzida continuamente por recomendação algorítmica, grupos de mensagem e influenciadores que monetizam ressentimento. A plataforma transforma atenção em mercadoria; o agitador transforma medo em capital político. Ambos lucram com uma população isolada e incapaz de reconhecer interesses comuns.
Isso ajuda a entender por que a defesa abstrata das instituições não basta para enfrentar o problema. Instituições democráticas são indispensáveis, mas tornam-se frágeis quando a maioria experimenta a democracia apenas como fila, humilhação burocrática, dívida e trabalho sem futuro. O fascista promete dignidade, mas entrega submissão. Promete segurança, mas amplia o poder de matar e encarcerar seletivamente. Promete combater a corrupção, mas trata o Estado como aparato a ser ocupado por aliados e usado contra inimigos. Promete liberdade, mas entende liberdade como licença para que os mais fortes destruam qualquer limite imposto pela vida coletiva.
O inimigo inventado protege o poder real
Alysson Mascaro insiste que o Estado e o direito não pairam acima das relações sociais como árbitros neutros. Eles são formas históricas ligadas à reprodução capitalista. Isso não significa que toda disputa jurídica seja inútil ou que direitos sejam irrelevantes para os oprimidos; significa que a lei, por si só, não elimina a estrutura que produz desigualdade. O fascismo explora precisamente essa contradição. Ele denuncia o sistema apenas em suas figuras mais convenientes — o político profissional, o juiz, o burocrata, o intelectual — sem atingir o comando econômico que depende da precarização e da disciplina social.
Daí sua afinidade com setores empresariais, proprietários e agentes interessados em reduzir direitos trabalhistas e enfraquecer organizações coletivas. O fascismo pode falar em nação, família e povo, mas sua política material tende a recair sobre os de baixo: menos proteção no emprego, mais punição para a pobreza, mais militarização dos territórios populares e mais tolerância com a devastação ambiental quando ela favorece negócios. A unidade nacional proclamada é uma ficção que encobre uma guerra de classe travada de cima para baixo.
Heidegger advertiu que a técnica moderna tende a enquadrar o mundo como reserva disponível, algo a ser calculado, extraído e administrado. Nas plataformas de trabalho, esse enquadramento alcança diretamente o corpo: cada corrida, cada pausa, cada avaliação e cada deslocamento se torna dado para aumentar produtividade. A extrema direita não é uma consequência automática da tecnologia, mas encontra nesse ambiente uma infraestrutura útil. Uma população reduzida a perfis, pontuações e reações instantâneas torna-se mais vulnerável à administração do medo. A técnica não decide sozinha; ela expressa as relações de poder que a orientam.
Combater o fascismo é reconstruir solidariedade material
Chamar algo de fascismo exige rigor, porque o conceito não pode ser esvaziado até significar qualquer autoritarismo. Mas esse rigor não deve servir à paralisia acadêmica diante de movimentos que normalizam a violência, atacam minorias, desprezam a organização popular e flertam abertamente com a ruptura democrática. O erro não está em reconhecer os traços fascistas do bolsonarismo; está em imaginar que eles desapareceram com uma derrota eleitoral. As condições que alimentam o ressentimento — salário insuficiente, informalidade, endividamento, abandono territorial e desinformação industrializada — continuam operando.
O antídoto não é uma lição de boas maneiras para os que foram capturados pela extrema direita. É organização concreta: direitos para trabalhadores de plataforma, sindicatos capazes de acolher novas formas de emprego, escola pública crítica, políticas de moradia, saúde e renda, proteção aos territórios ameaçados e combate ao monopólio privado da comunicação. A solidariedade não é um sentimento abstrato; ela nasce quando pessoas percebem que a vida de uma depende das condições de vida da outra.
O fascismo prospera ao converter sofrimento social em desejo de punição. Enfrentá-lo é recusar essa conversão e devolver o conflito ao seu lugar verdadeiro: não entre trabalhadores que disputam migalhas, mas entre a maioria que produz a riqueza e os poderes que a concentram. Onde a extrema direita oferece um inimigo para odiar, a crítica socialista precisa revelar a estrutura que explora — e a força coletiva capaz de transformá-la.
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