Na paralisação nacional dos entregadores de aplicativo, em 31 de março e 1º de abril de 2025, uma contradição brasileira apareceu sem disfarce: trabalhadores que sustentam um setor inteiro precisaram interromper a própria circulação para exigir o mínimo por entrega, remuneração por quilômetro e condições menos brutais de trabalho. Não pediam participação nos lucros das empresas que movimentam; pediam que rodar uma cidade inteira não significasse terminar o dia devendo gasolina, manutenção, alimentação e aluguel. Ainda assim, a linguagem que organiza o setor insiste em chamá-los de parceiros, empreendedores e donos do próprio tempo.

É nesse intervalo entre a vida material e a história que se conta sobre ela que a falsa consciência opera. Não como uma falha moral do motoboy que aceita o cadastro no aplicativo, nem como incapacidade intelectual de quem vê vantagem em trabalhar sem chefe aparente. Ela é produzida por uma ordem em que o trabalhador precisa encontrar algum sentido de liberdade na única forma de trabalho disponível. Quando o emprego formal desaparece, o salário não alcança e o desemprego ameaça, a tela do celular oferece uma entrada imediata: basta ligar o aplicativo, aceitar corridas e transformar a necessidade em suposta escolha.

A greve revelou quem manda sem aparecer

As plataformas vendem a imagem de que apenas conectam consumidores a prestadores independentes. Mas o entregador não define o valor efetivo de sua força de trabalho, não negocia em igualdade as tarifas, não conhece os critérios que distribuem chamadas e pode ter seu acesso bloqueado por decisões automatizadas cuja lógica não controla. A empresa evita dizer “empregado”, mas estabelece preços, mede tempo, acompanha deslocamentos, atribui notas e pune comportamentos. É uma chefia dispersa no software, menos visível que o gerente da fábrica e, por isso mesmo, frequentemente mais difícil de enfrentar.

A greve dos aplicativos importunou essa ficção. Se cada entregador fosse apenas um pequeno empresário autônomo, a interrupção coletiva não teria o sentido político que teve. Empresários concorrentes não cruzam os braços juntos porque uma companhia lhes paga pouco; trabalhadores o fazem porque, sob formas jurídicas e tecnológicas diferentes, compartilham uma posição de dependência. A necessidade de parar revelou uma classe onde a propaganda enxerga indivíduos isolados, cada qual com sua mochila, sua moto e sua meta diária.

Marx não tratou a ideologia como uma mentira inventada num gabinete e simplesmente imposta de fora. As ideias dominantes ganham força porque organizam experiências reais, porém de modo invertido. O entregador de fato escolhe quando entra no aplicativo; mas essa escolha ocorre sob a pressão da conta vencida, da ausência de emprego estável e de uma cidade organizada para consumir depressa. Ele pode recusar uma corrida; mas recusas demais podem reduzir suas chances futuras num sistema opaco. Há liberdade formal, isto é, liberdade suficiente para que o trabalhador assuma individualmente o risco que antes cabia ao patrão. A aparência não é totalmente falsa; ela é insuficiente para explicar a relação social inteira.

O empreendedor de si é a forma contemporânea do desamparo

Chamar a precarização de empreendedorismo tem uma utilidade precisa para o capital. Se o trabalhador é empresário de si mesmo, sua exaustão parece resultado de má administração pessoal; se ganha pouco, faltou estratégia; se sofre um acidente, não se planejou; se adoece, deixou de investir em si. O que deveria aparecer como custo de um negócio altamente lucrativo retorna ao indivíduo como culpa. A moto é dele, o combustível é dele, o celular é dele, a proteção contra chuva é dele, a recuperação depois da queda é dele. A empresa retém o poder de organizar o trabalho enquanto transfere a responsabilidade por reproduzir a força de trabalho a quem já recebe pouco.

Essa inversão se espalha para além dos aplicativos. O professor contratado por hora que prepara aula sem pagamento, o operador de call center submetido a metas móveis, a atendente que vende como pessoa jurídica para não ter direitos, todos são convocados a imaginar que estão acumulando “experiência”, “portfólio” ou “networking”. A palavra meritocracia completa o mecanismo: ela separa os que teriam vencido por esforço dos que supostamente falharam por insuficiência pessoal. Não é coincidência que um país tão desigual celebre com tanta insistência histórias individuais de superação. Elas convertem a regra da exploração em exceção inspiradora.

O problema não é apenas que essa narrativa engane. Ela desorganiza a percepção do inimigo. O trabalhador dirigido a competir com outros trabalhadores pelo melhor horário, pela taxa dinâmica ou pela aprovação do algoritmo tende a localizar seu problema no colega que aceita entrega mais barata, no cliente que não dá gorjeta, no governo que cobra imposto, ou em si próprio. A plataforma, que desenha o ambiente de concorrência e retira valor de cada corrida, aparece como ferramenta neutra. A técnica, diria Heidegger, deixa de ser percebida como uma forma histórica de organizar o mundo e passa a parecer destino inevitável: o algoritmo decidiu, logo ninguém decidiu.

A tela não aboliu a luta de classes

Debord observou que o espetáculo não é apenas um conjunto de imagens, mas uma relação social mediada por imagens. O vídeo publicitário do entregador sorridente, livre pelas ruas e orgulhoso de “fazer sua renda” não serve somente para vender conveniência ao consumidor. Ele fabrica uma imagem desejável da sujeição. O trabalhador deve reconhecer na própria precariedade uma identidade positiva: ser flexível, incansável, disponível. A mochila nas costas deixa de significar trabalho perigoso e mal remunerado; torna-se emblema de coragem individual.

As redes sociais intensificam esse processo ao selecionar casos extraordinários: quem diz faturar alto numa semana excepcional, quem comprou uma moto depois de meses de jornadas extensas, quem ensina outros a otimizar ganhos. Nada disso precisa ser inventado para cumprir sua função ideológica. Basta que a exceção ocupe todo o campo visível e que a rotina — longas horas, ganhos incertos, medo do bloqueio, acidentes e endividamento — seja tratada como problema de atitude. A indústria cultural contemporânea não precisa mandar o trabalhador amar sua exploração; é suficiente fazê-lo acreditar que a exploração é o caminho individual para escapar dela.

Também por isso a revolta pode ser desviada para discursos reacionários. O bolsonarismo soube explorar a humilhação concreta de quem trabalha muito e vive sem segurança, oferecendo uma explicação simples: o inimigo seria o pobre que recebe auxílio, o servidor público, o imigrante, o “vagabundo”, a esquerda que defenderia direitos demais. A raiva contra a desigualdade é preservada, mas recebe um alvo lateral. Enquanto isso, os grupos econômicos que lucram com a fragilização das relações de trabalho permanecem protegidos pela retórica da liberdade econômica.

Não há autonomia onde uma pessoa pode escolher apenas a forma de se submeter à urgência de sobreviver.

Ver a engrenagem altera o que se aceita

Enxergar esse funcionamento não livra ninguém, por iluminação individual, da necessidade de trabalhar amanhã. O entregador continuará precisando abrir o aplicativo; o consumidor continuará recorrendo à entrega; o professor continuará preenchendo planilhas que não escolheu. Mas a percepção muda o sentido desses atos. O valor baixo de uma corrida deixa de ser azar pessoal. O bloqueio deixa de ser mero defeito técnico. A ansiedade de nunca fazer o bastante deixa de provar uma falha íntima. Cada um desses fatos passa a ser lido como resultado de uma relação de poder.

Essa mudança é prática porque torna possível recusar as explicações que isolam. A greve de 2025 mostrou que aquilo que o aplicativo fragmenta pode se reconhecer coletivamente: trabalhadores com veículos distintos, em cidades distintas, submetidos à mesma arquitetura de comando. Quando a liberdade prometida pela plataforma é medida contra as condições reais de quem pedala, pilota, espera e entrega, ela perde seu brilho publicitário. Resta a pergunta que interessa: quem controla o trabalho, quem fica com seus frutos e por que tantos são treinados a chamar isso de oportunidade?