O que é meritocracia? Na definição mais confortável, seria um sistema em que cada pessoa recebe recompensas proporcionais a seu talento, empenho e disciplina. A fórmula parece justa porque contém uma promessa moral atraente: ninguém deveria ascender por sobrenome, favor ou privilégio; o esforço deveria importar. O problema não está em reconhecer que esforço existe, mas em fazer dele a explicação central para a posição de cada um numa sociedade organizada por desigualdades materiais. No Brasil, a meritocracia funciona menos como descrição do mundo e mais como uma narrativa que absolve os vencedores de examinar as condições que os favoreceram e que ensina os derrotados a culpar a si mesmos.
Ela não elimina os privilégios; dá a eles a aparência de conquista pessoal. O filho de uma família com renda estável, quarto para estudar, escola bem equipada, curso de idioma, rede de contatos e tempo livre pode, sem dúvida, dedicar-se e obter bons resultados. Mas sua dedicação é exercida sobre uma base que não foi produzida por seu mérito. Já o jovem que divide um cômodo com parentes, enfrenta transporte lotado, trabalha cedo e frequenta uma escola submetida à precariedade não entra na mesma disputa portando apenas menos “vontade”. Ele entra com menos horas, menos descanso, menos segurança e menos margem para errar. Chamar o resultado dessa corrida de mérito é apagar o ponto de partida.
O que é meritocracia na vida de quem trabalha por aplicativo
O entregador de aplicativo oferece uma cena concreta dessa ideologia. A plataforma lhe apresenta a imagem do empreendedor autônomo: quanto mais aceitar corridas, mais eficiente for e melhor avaliar as rotas, maior será seu ganho. A propaganda individualiza a relação de trabalho. Não há patrão visível, mas há um sistema que define preços, distribui pedidos, pune recusas, altera critérios e pode bloquear o trabalhador sem negociação efetiva. O entregador assume os custos da moto, do combustível, da manutenção, do celular, do risco de acidente e, muitas vezes, da própria exaustão. Depois, quando sua renda não fecha a conta, ouve que lhe faltou estratégia, disciplina ou “mentalidade de crescimento”.
A meritocracia é decisiva para esse mecanismo porque converte exploração em escolha. Se o trabalhador aparece como empresário de si mesmo, a empresa pode extrair valor sem se reconhecer como empregadora. A liberdade de ligar o aplicativo encobre a necessidade de ligá-lo para pagar aluguel e comida. Marx descreveu como a relação capitalista separa o trabalhador dos meios pelos quais poderia produzir sua vida; na plataforma, essa separação ganha uma interface amigável. O trabalhador tem a bicicleta ou a moto, mas não controla o mercado, o preço, os dados, a clientela ou as regras que tornam seu trabalho rentável para outros. A suposta autonomia é subordinada ao comando algorítmico.
O mérito como explicação que protege a desigualdade
Em vez de perguntar por que uma minoria concentra propriedade, heranças, influência política e acesso privilegiado à educação, a ideologia meritocrática pergunta se cada indivíduo se esforçou o bastante. Essa mudança de pergunta tem efeitos políticos. A desigualdade deixa de ser uma relação social e vira uma soma de biografias mal administradas. O desemprego vira falta de qualificação; o salário baixo vira incapacidade de agregar valor; a pobreza vira irresponsabilidade; a riqueza vira prova de virtude. Não importa que o mercado de trabalho brasileiro ofereça ocupações instáveis e mal pagas a milhões de pessoas: a responsabilidade deve parar no indivíduo, nunca subir até a estrutura.
Não se trata de negar diferenças de empenho, habilidade ou escolha. Trata-se de recusar a fraude de transformar tais diferenças na causa suficiente das hierarquias sociais. Uma professora que prepara aulas à noite, corrige trabalhos em casa e percorre mais de uma escola pode trabalhar com intensidade muito maior que um executivo cuja remuneração é dezenas de vezes superior. Ainda assim, o vocabulário empresarial tende a chamar a renda do executivo de recompensa natural por competência. O salário, porém, não mede uma essência moral do trabalhador. Ele é resultado de relações de força, propriedade, legislação, organização coletiva e posição de classe. Como lembra a crítica marxista, a remuneração não revela simplesmente o valor humano de quem trabalha; ela expressa uma forma histórica de apropriação da riqueza produzida socialmente.
A escola promete elevador onde existe filtro de classe
A escola ocupa lugar central na fábula meritocrática. Ela é apresentada como a instituição capaz de nivelar a largada: estude, passe na prova, obtenha o diploma e ascenda. A educação pública é indispensável e sua defesa deve ser intransigente, mas seria cruel atribuir a ela uma potência que o capitalismo limita continuamente. O aluno que precisa trabalhar, cuidar de irmãos, enfrentar fome ou conviver com violência territorial não dispõe das mesmas condições concretas de aprendizagem que aquele cujo cotidiano foi protegido pela renda familiar. Quando a prova trata trajetórias tão desiguais como se fossem equivalentes, ela pode selecionar privilégios com a máscara da imparcialidade.
O discurso do mérito também transforma a educação em investimento privado numa competição permanente. Aprende-se menos para compreender a sociedade e mais para tornar-se vendável nela. Currículos, certificados e competências passam a compor uma vitrine individual. Se a vaga não vem, a resposta imediata é comprar outro curso, aperfeiçoar o currículo, aprender mais uma ferramenta, adaptar-se mais uma vez. A cobrança nunca termina porque o mercado precisa que o trabalhador se perceba como insuficiente. A culpa individual é funcional: ela impede que a frustração se converta em organização coletiva e em exigência de direitos.
Da competição à humilhação organizada
Há ainda um aspecto afetivo e político. A meritocracia produz orgulho nos que vencem e vergonha nos que não conseguem vencer, como se ambos os sentimentos fossem estritamente pessoais. Guy Debord mostrou que a sociedade do espetáculo organiza relações mediadas por imagens; hoje, a imagem do vencedor é exibida em perfis de empreendedorismo, rotinas de produtividade e relatos de superação cuidadosamente editados. O sucesso aparece como resultado de uma decisão íntima, sem empregados domésticos, heranças, redes familiares, favores, propriedade ou proteção estatal no enquadramento. O fracasso, por sua vez, é vivido em silêncio, como inadequação.
Essa humilhação organizada abre espaço para saídas autoritárias. Quando as pessoas são ensinadas a explicar a própria precariedade por falhas individuais, torna-se mais fácil dirigir sua raiva contra quem está ainda mais abaixo: pobres, moradores de periferia, beneficiários de políticas públicas, migrantes, servidores, professores. O bolsonarismo explorou esse repertório ao misturar culto à força individual, desprezo por direitos trabalhistas e hostilidade contra qualquer política de redistribuição. Sua fantasia é a de uma sociedade em que os “merecedores” não precisem sustentar os demais. Mas os chamados merecedores raramente recusam os privilégios produzidos por Estado, família, patrimônio e exploração do trabalho alheio.
Contra a culpa, a política das condições comuns
Criticar a meritocracia não significa defender favoritismo, acomodação ou indiferença ao esforço. Significa afirmar que esforço só pode ser avaliado com honestidade quando as condições de existência são tratadas como questão pública. Jornada menor, salário digno, transporte, moradia, creche, escola pública de qualidade, saúde, proteção contra demissões arbitrárias e direitos para trabalhadores de plataforma não são prêmios para quem “não se esforçou”. São condições para que a vida não seja uma corrida decidida antes da largada.
A pergunta decisiva, então, não é quem merece mais numa competição desenhada pela classe dominante. É quem produz a riqueza social, quem a apropria e por quais mecanismos essa apropriação é apresentada como justiça. Enquanto o entregador pedala sob chuva para cumprir uma meta que não definiu e o professor multiplica jornadas para sobreviver, a meritocracia continuará oferecendo uma explicação elegante para uma brutalidade muito concreta. Desmontar essa explicação é um passo para substituir a culpa privada pela consciência de que desigualdade não é destino, nem falha de caráter: é uma organização social que pode e deve ser transformada.
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