O 8 de janeiro de 2023 não foi uma irrupção inexplicável de loucura coletiva em Brasília. As imagens de pessoas vestidas de verde e amarelo destruindo as sedes dos Poderes, filmando a própria invasão como se participassem de uma festa patriótica, mostraram uma forma social que o Brasil vinha produzindo havia anos. Não se tratava de uma multidão homogênea, nem de um bando exterior à vida comum do país. Havia ali pequenos empresários, aposentados, trabalhadores informais, gente de empregos formais, pessoas que, no cotidiano, enfrentam contas, medo do desemprego e serviços públicos degradados. A questão decisiva é outra: por quais mediações uma vida social marcada pelo desamparo se torna disponível para a fantasia fascista?
Chamar aqueles grupos de massa não resolve nada se for apenas uma maneira elegante de dizer que muitas pessoas se reuniram. O problema começa quando indivíduos socialmente isolados passam a experimentar uma excitação comum e encontram, numa palavra de ordem, num inimigo e num líder, uma compensação imaginária para a própria impotência. Gustave Le Bon observava que, na multidão, a capacidade de julgamento autônomo pode ceder à sugestão e ao contágio. Sua formulação tem limites evidentes: ela frequentemente trata a multidão como uma entidade irracional por natureza e esquece as condições materiais que a produzem. Mas descreve um mecanismo real: a pessoa que, sozinha, talvez hesitasse diante de uma invasão, sente-se autorizada quando o gesto é repetido, celebrado e protegido por centenas ao redor.
Brasília foi o palco; a fábrica social vinha de antes
O bolsonarismo não precisou fabricar do zero uma massa mobilizável. Encontrou uma sociedade já desagregada pela concorrência. O entregador de aplicativo que pedala ou pilota por horas, submetido ao algoritmo, não divide um local de trabalho estável com colegas capazes de deliberar e se organizar. Ele recebe avaliações, metas opacas, bloqueios e chamadas que parecem individuais, embora sejam administradas por uma plataforma que controla milhares de trabalhadores. O operador de call center mede cada pausa, ouve cobranças sobre produtividade e tem a fala roteirizada. A professora sobrecarregada acumula turmas, relatórios e uma pressão permanente para compensar com esforço privado o abandono da escola pública. Em cada caso, uma exploração estrutural aparece como fracasso, mérito ou deficiência pessoal.
Essa é uma das operações centrais da ideologia neoliberal: quebrar o vínculo entre sofrimento privado e organização econômica. Se a renda não basta, o trabalhador é levado a pensar que lhe faltou disciplina; se perde o emprego, teria deixado de se atualizar; se não ascende, não soube empreender. A classe deixa de aparecer como experiência compartilhada. Sobram indivíduos em competição, procurando explicações simples para inseguranças que não conseguem nomear. A massa reacionária não é o contrário dessa atomização. Ela é sua continuação por outros meios: indivíduos separados que recebem, de uma máquina política, a ilusão de pertencimento imediato.
É por isso que a cena de Brasília não pode ser interpretada como mero efeito de desinformação, embora a mentira tenha sido indispensável. As redes de WhatsApp, Telegram, YouTube e outras plataformas organizaram uma circulação incessante de suspeitas sobre urnas, Supremo Tribunal Federal, comunismo e fraude. Mas uma mentira só ganha a força de uma verdade vivida quando oferece forma a uma disposição anterior. O trabalhador precarizado não adere a uma teoria conspiratória apenas porque desconhece fatos; pode aderir porque ela fornece um culpado identificável para uma experiência real de perda de controle. Em vez de apontar o banco, a empresa de plataforma, o latifúndio, a reforma trabalhista ou o teto que estrangula políticas públicas, a narrativa autoritária aponta o professor, o nordestino, o artista, o ministro, o militante de esquerda, o pobre que acessa um direito.
O espetáculo oferece pertencimento sem solidariedade
Guy Debord escreveu que o espetáculo não é simplesmente um conjunto de imagens, mas uma relação social mediada por imagens. No bolsonarismo, isso apareceu de maneira brutal. A transmissão ao vivo, o vídeo curto, a corrente alarmista e a foto com símbolos nacionais não apenas registravam uma ação: davam a ela existência e valor. A pessoa isolada em sua casa, no carro ou na pausa do trabalho recebia a sensação de estar ligada a uma maioria silenciosa, heroica e perseguida. A tela oferecia uma comunidade pronta, sem o trabalho paciente de construir associação, sindicato, partido, assembleia de bairro ou movimento popular.
Essa comunidade espetacular exige pouco além de identificação e repetição. Não é preciso conhecer os demais participantes, discutir orçamento público, compreender a estrutura tributária ou formular um projeto coletivo de vida. Basta compartilhar o vídeo, comparecer ao ato, vestir a cor correta, repetir que “o povo acordou”. A política se reduz a sinais de reconhecimento. Nessa redução, o sujeito encontra um alívio momentâneo para a própria insignificância social: deixa de ser o trabalhador dispensável, o pequeno comerciante endividado, o aposentado acuado, e passa a integrar um corpo imaginário chamado nação.
O fascismo se alimenta precisamente dessa passagem. Ele promete restaurar unidade num mundo em que o capital dissolveu laços, mas só sabe produzir unidade pela exclusão e pela violência. A palavra “povo”, então, deixa de designar a maioria que trabalha e passa a significar um grupo moralmente puro, autorizado a expulsar ou eliminar quem foi convertido em inimigo. O 8 de janeiro foi uma encenação dessa autorização. A destruição dos prédios públicos não pretendia apenas contestar um resultado eleitoral; buscava demonstrar que uma parcela social podia se colocar acima das instituições em nome de uma vontade imaginada como absoluta.
A massa fascista não elimina a solidão capitalista. Ela a administra, oferecendo ao indivíduo isolado a embriaguez de pertencer a uma força que odeia em seu nome.
Nem desprezo pelo povo, nem indulgência com o fascismo
Há uma resposta confortável, especialmente entre setores que se imaginam esclarecidos: ridicularizar os participantes daqueles atos como ignorantes, atrasados ou simplesmente maus. A responsabilidade pelos crimes, pela destruição e pela defesa de uma saída golpista é incontornável; compreender as condições de uma adesão não é absolvê-la. Mas o desprezo moral tem uma função política ruim. Ele permite imaginar que o fascismo pertence a uma humanidade inferior, quando ele é uma possibilidade inscrita numa sociedade que converte pessoas em concorrentes e depois lhes oferece líderes para odiar juntas.
A crítica marxista não trata trabalhadores como inocentes automáticos, nem supõe que a posição econômica produza, por si só, consciência emancipadora. A classe trabalhadora é atravessada por racismo, patriarcado, conservadorismo religioso, empreendedorismo e pela propaganda diária da classe dominante. Marx insistiu que as relações sociais aparecem de forma invertida: aquilo que é resultado da organização histórica da produção parece uma característica natural das coisas ou das pessoas. No capitalismo brasileiro, o patrão pode aparecer como criador de oportunidades; a plataforma, como parceira tecnológica; o desempregado, como culpado; e o rico, como prova viva de mérito. Essa inversão prepara o terreno para que a revolta se dirija contra os de baixo e não contra a estrutura que concentra riqueza e poder.
Também por isso, combater a massa fascistizada não se resume a corrigir notícias falsas com um link. É necessário disputar as formas concretas de associação. Quando entregadores se reconhecem como trabalhadores e não como microempresários de si mesmos, a linguagem da competição perde parte de seu poder. Quando profissionais da educação se organizam contra a precarização, o mal-estar deixa de ser vergonha individual. Quando o bairro encontra instrumentos coletivos para discutir transporte, moradia, saúde e salário, a promessa de ordem oferecida pelo autoritarismo encontra menos desamparo para capturar. A solidariedade não é uma palavra bonita: é a prática que devolve mediações sociais a quem foi treinado para viver sozinho.
Ver a massa muda o alvo da revolta
Depois de enxergar esse mecanismo, o leitor pode recusar duas ilusões simétricas. A primeira é acreditar que basta cada indivíduo se informar melhor para que a democracia esteja segura. A segunda é imaginar que toda mobilização coletiva é perigosa e que a salvação está na vida privada, na moderação e no isolamento. A questão não é escapar da experiência coletiva; ninguém vive fora dela. A questão é saber quem organiza essa experiência, quais interesses ela expressa e contra quem sua energia é dirigida.
O capitalismo produz massas ao fragmentar a vida, expropriar tempo, tornar o futuro incerto e transformar comunicação em mercadoria. O bolsonarismo mostrou como essa matéria social pode ser reunida sob o comando da mentira e do ressentimento. A tarefa da esquerda não é esperar que a massa desapareça, mas construir organização popular capaz de transformar isolamento em consciência, competição em solidariedade e fúria cega em luta contra a exploração. O entregador, a professora e o operador de call center não precisam de um mito nacional que lhes devolva dignidade por algumas horas. Precisam de poder coletivo para mudar as condições que fazem sua dignidade depender de um algoritmo, de uma meta ou do humor de um patrão.
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